Segundo a insuspeita Angop, a comunidade angolana radicada em Portugal reprovou, neste domingo, a escolha do nome do poeta português Fernando Pessoa para ser o patrono de um projecto de intercâmbio universitário no espaço lusófono. Recorde-se, entretanto, que para além de poeta, ele também foi filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, crítico literário etc..

Trata-se de um projecto que visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha.

Escolhido pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Fernando Pessoa é considerado por alguns críticos literários, ao lado de Luís de Camões, como “o maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal”.

Entretanto, o seu nome ficou marcado, na história, por ter sido um “acérrimo” (o qualificativo é da Angop) defensor do mais hediondo crime contra a humanidade: a escravatura. Que se saiba (ou até que o MPLA nos esclareça) Fernando Pessoa – ao contrário de António Agostinho Neto – nada teve a ver com os massacres de milhares e milhares de angolanos, por ordem do primeiro presidente de Angola, no 27 de Maio de 1977.

Para a comunidade angolana (designação que o MPLA atribui a quem muito bem entende), a escolha de Fernando Pessoa para patrono desse projecto representa uma “tentativa de Portugal de tentar impor uma figura sua não consensual”.

Segundo a presidente da PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana (entidade sediada em Lisboa e patrocinada por entidades como o Grémio Literário, a Fundação Oriente, o Departamento Nacional de Mulheres Socialistas, a CPLP e o próprio Governo português), Luzia Moniz, Fernando Pessoa “era um escravocrata racista, que não pode ser indicado para patrono de um projecto cujos beneficiários são maioritariamente jovens descendentes de escravizados”.

Provavelmente a comunidade angolana do MPLA gostaria que a escolha fosse Agostinho Neto, apesar de Luzia Moniz entender certamente que ele não foi um criminoso, genocida e racista, dado que no 27 de Maio de 1977 não teria, provavelmente, ainda nascido.

Em declarações à Angop, lembrou que, aos 28 anos de idade (estávamos então em 1916), Fernando Pessoa considerou lógica e legítima a escravatura, sublinhando que o mesmo chegou a escrever que “um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representam coisa alguma de útil neste mundo”.

Citando a obra “Fernando Pessoa: Uma (quase) autobiografia” do investigador brasileiro José Carlos Cavalcanti Filho, Luzia Moniz recordou que o intelectual português também escreveu que “O legítimo é obrigá-lo (ao africano), visto que não é gente, a servir aos fins da civilização”.

Sustentou que aos 40 anos “consolidou a sua ideologia racista”, escrevendo: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. Convém dizer que Fernando Pessoa morreu em… 1935.

Do ponto de vista de Luzia Moniz, “a figura escolhida pela CPLP para patrono de um projecto de intercâmbio universitário no Espaço de Língua Portuguesa é um insulto aos africanos”. Então se comparado com Agostinho Neto…

Por isso, lamentou o facto de haver aceitação por parte dos países africanos, que foram os verdadeiros sofredores da escravatura. “Se foi para a isso que Portugal fez a guerra para assumir o Secretariado Executivo da CPLP, tudo indica que a coisa começa mal”, lamentou a senhora Luzia Moniz. É claro que, para ela, Angola ter em 2019 (43 anos depois da independência) cerca de 20 milhões de pobres não é sinal de escravatura.

“Se pretendesse criar uma comunidade envolvendo as populações e não se limitando aos políticos, mais ou menos distraídos, é imperativo que o nome de Fernando Pessoa não figure em projectos comuns”, defendeu, acrescentando que, em sua substituição, podia ter sido indicado o académico Mário Pinto de Andrade, “um dos mais brilhantes intelectuais” da lusofonia”. Seria, de facto, igualmente uma boa, uma excelente, escolha.

Segundo a Angop, o investigador angolano (sempre que dá jeito referem ser angolano) Eugénio Costa Almeida disse que consideraria “aceitável” a atribuição, pela CPLP, do nome de Fernando Pessoa, se tivesse sido por vontade de todos os membros da comunidade.

“Reconheço que umas das razões que leva algumas pessoas a manifestar a sua indignação se prendem pelo facto de Fernando Pessoa ter escrito em texto algo que pode ser indicador de alguma nódoa rácica contra a população negra africana”, recordou Eugénio Costa Almeida numa intervenção que por ser puramente académica não poderia ser politicamente incorrecta.

Dos países africanos membros, a presidente da PADEMA espera que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa. Recorde-se que a PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, é uma associação sem fins lucrativos, sedeada no país de Fernando Pessoa (Portugal) que engloba mulheres africanas e afrodescendentes e que tem por fim a promoção e o desenvolvimento da mulher africana da Diáspora, os seus valores culturais e identitários com vista à sua afirmação na sociedade, tendo em conta a igualdade de género e de oportunidades.

“O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Não, não foi Luzia Moniz que escreveu. Por acaso foi só, e apenas, Fernando Pessoa. E, já agora, mais uma frase daquele que um dia disse que a sua Pátria era a língua portuguesa: “Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste”.

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