João Lourenço, o “Único”, tornou-se Presidente angolano sem, tal como Eduardo dos Santos, ser nominalmente eleito. O MPLA, com base na sua superior lei da batota, ganhou as “eleições” e o seu cabeça-de-lista passou a ser o Presidente. Tudo normal… na anormalidade num país que deixou de ser de partido único para passar a ser de único partido.

Apesar de não ter chegado a combater directamente o regime português – acabara de completar 20 anos quando se dá a revolução dos cravos em Portugal -, João Lourenço viveu a oposição ao colonialismo ainda criança ao ver o pai detido na cadeia São Paulo, em Luanda, entre 1958 e 1960, acusado de actividade política clandestina, enquanto enfermeiro do porto do Lobito.

Escolhido no simulacro eleitoral de 23 de Agosto como cabeça-de-lista do MPLA com pouco mais de 61% dos votos, perdendo o MPLA 25 deputados no Parlamento face às eleições anteriores, e com o país mergulhado numa profunda crise financeira, económica e social (é um dos mais corruptos do mundo, lidera a mortalidade infantil a nível mundial, tem 20 milhões de pobres), o antigo general prometeu ser reformador, ao estilo Deng Xiaoping, rejeitando a classificação de “Gorbachev angolano” (hipótese realçada, pela primeira vez, pelo angolano, Mestre da Lusofonia, Eugénio Costa Almeida), por suceder à prolongada liderança de José Eduardo dos Santos (38 anos no poder).

“Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não Gorbachev, Deng Xiaoping, sim”, afirmou João Lourenço.

Deng Xiaoping (Dengue Xópinga, na linguagem popular angolana) foi secretário-geral do Partido Comunista Chinês e líder político da República Popular da China entre 1978 e 1992, tendo criado o designado socialismo de mercado, regime vigente na China moderna e que posteriormente foi adaptado pelo MPLA para Angola.

Depois dos presidentes Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, João Lourenço assumiu que quer ficar na história de Angola pelo papel na recuperação económica do país. A caminho de dois anos de governação, a recuperação económica continua a ser uma miragem.

Pouco antes da proclamação da independência angolana, feita em Luanda, pelo MPLA, e no Huambo pela UNITA e FNAL, a 11 de Novembro de 1975, João Lourenço inicia a carreira militar na República do Congo, tendo feito a sua primeira instrução político-militar no Centro de Instrução Revolucionária de Kalunga.

João Lourenço integrou o primeiro grupo de combatentes do MPLA que entraram em território nacional via Miconge, em direcção à cidade de Cabinda, após a queda do regime colonial português.

Depois de participar em vários combates na fronteira norte, no período de guerra civil que se seguiu à proclamação da independência, João Lourenço ainda fez formação em artilharia pesada e exerceu funções de comissário político em diversos escalões, antes de partir para a então União Soviética.

É nesse processo de qualificação das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) que entre 1978 e 1982 reforça a sua formação militar, além de obter o título de mestre em Ciências Históricas, pela Academia Político-Militar V.I. Lenine.

De novo em Angola, assume entre 1982 e 1990 vários cargos militares, envolvendo-se em diversos combates contra as forças da UNITA, sobretudo no centro do país, até ascender a general das FAPLA. Inicia então um percurso político dentro do MPLA que o levaria até secretário-geral do partido, entre 1998 a 2003.

Com José Eduardo dos Santos, Presidente angolano e líder do partido desde 1979, a anunciar a intenção de deixar o poder com o fim do conflito armado (2002), João Lourenço posicionou-se na corrida à sucessão, o que lhe valeu uma longa travessia no deserto, depois de José Eduardo dos Santos decidir manter-se no poder.

A reabilitação política aconteceu em Abril de 2014, quando é nomeado por José Eduardo dos Santos para ministro da Defesa Nacional, culminado com a eleição, em congresso, em Agosto de 2016, como vice-presidente do MPLA, antecedendo a sua entrada na corrida eleitoral para chefe de Estado angolano.

“O Presidente Dos Santos é uma personalidade muito respeitada, tanto dentro do partido como por um conjunto da sociedade e não é anormal que o presidente do partido no poder não seja ele próprio o Presidente da República. Apenas para citar um caso, Donald Trump é o Presidente dos Estados Unidos mas não do Partido Republicano”, afirmou João Lourenço. Recordam-se?

Durante o IV Congresso do MPLA, em 1998, João Lourenço mostrou que já estava domesticado e pronto a servir, incondicionalmente, o seu amo. A prova perante o “escolhido de Deus” deu-a quando operacionalizou o afastamento da ribalta do partido dos ex-primeiros-ministros Lopo do Nascimento (que tombou estrondosamente de secretário-geral a militante de base), Marcolino Moco e França Van-Dúnem.

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