A empresária Isabel dos Santos afirmou hoje que a realização do julgamento do processo que interpôs contra a ex-eurodeputada socialista Ana Gomes “já por si é uma vitória” e que pretende “limpar” em tribunal o seu nome de “sucessivas calúnias”. Rafael Marques é testemunha de Ana Gomes que, hoje, meteu no mesmo saco de corruptos o grupo português Global Media (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF, entre outros).

Numa declaração à agência Lusa, a propósito do julgamento que arrancou hoje, em Sintra, do processo cível que a empresária moveu após ter sido acusada por Ana Gomes de estar a usar Portugal para “lavar” dinheiro, Isabel dos Santos queixou-se que a agora ex-eurodeputada “tem vindo, há vários anos, a fazer uma campanha politicamente motivada, negativa e falsa” contra si.

“Durante muito tempo, na qualidade de eurodeputada, gozou de imunidade pelo que anteriormente não foi possível tomar nenhuma atitude em relação às falsas acusações e mentiras por ela proferidas. Ao deixar de ser eurodeputada, surgiu pela primeira vez a possibilidade de ir à Justiça reclamar pelo meu bom nome”, afirma Isabel dos Santos, assegurando que “independentemente do resultado” deste processo, “é já uma grande vitória termos acesso à Justiça e o tribunal ter aceitado julgar este caso, reconhecendo que há matéria para julgamento”.

“O julgamento que hoje teve início é um contributo para repor a verdade e responder às sucessivas calúnias que Ana Gomes tem feito sobre mim”, afirmou ainda a empresária angolana e filha do ex-Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, voltando a criticar a ex-eurodeputada socialista.

“Apesar dos cargos políticos e diplomáticos que já exerceu, Ana Gomes insiste em fazer comentários falsos e lamentáveis que atingem não só o meu bom nome mas também as nossas empresas, e afecta os trabalhadores destas empresas e as suas famílias. Trata-se de uma clara tentativa de hostilizar gratuitamente todo o meu percurso profissional e pessoal”, enfatizou Isabel dos Santos.

Recordando que “em casos de acção especial da tutela de personalidade ou nos casos de queixa por difamação, muitas vezes é difícil que o tribunal aceite a queixa e muitos dossiês acabam em arquivamento”, o facto de o tribunal “ter aceite este julgamento já por si é uma vitória”.

A ex-eurodeputada socialista Ana Gomes começou hoje a responder no Juízo Local Cível de Sintra à queixa cível de Isabel dos Santos por causa de acusações feitas à empresária angolana de estar a usar Portugal para “lavar” dinheiro. Neste processo, a empresária queixa-se que as acusações “provocaram um imediato, sem retorno e incontrolável dano à imagem, honra e [ao seu] bom nome”, tendo um “impacto material nos negócios” em que é accionista.

Hoje, em tribunal, Ana Gomes afirmou que a empresária Isabel dos Santos e “outros cleptocratas angolanos” utilizam a banca portuguesa para “branquear” fundos desviados de Angola, em prejuízo do povo angolano e reiterou as suas afirmações e o conteúdo das publicações na rede Twitter, apontando as diversas participações que pessoalmente fez às instâncias judiciárias e financeiras europeias e de Portugal no sentido de investigarem os negócios e a origem do dinheiro investido por Isabel dos Santos em negócios em Portugal, nomeadamente através do Eurobic e de outras empresas sediadas em paraísos fiscais ou na zona franca da Madeira.

Em causa está uma publicação da ex-eurodeputada no dia 14 de Outubro, reagindo a uma entrevista da empresária angolana à agência Lusa: “Isabel dos Santos endivida-se muito porque, ao liquidar as dívidas, ‘lava’ que se farta! E (…) o Banco de Portugal não quer ver…”.

Numa entrevista, nesse mesmo dia, Isabel dos Santos disse que trabalha com vários bancos e que não foi favorecida por ser filha do ex-Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.

“Tenho muitas dívidas, tenho muito financiamento por pagar, as taxas de juros são elevadas, nem sempre é fácil também ter essa sustentabilidade do negócio, para conseguir enfrentar toda a parte financeira dos negócios, mas também boas equipas e trabalhamos para isso”, afirmou a empresária, na entrevista feita em Cabo Verde.

Após o primeiro ‘post’, Ana Gomes acusou a empresária de usar o EuroBic (banco de que é accionista) para legalizar o seu dinheiro: “Que jeito dá à (…) accionista Isabel dos Santos o @banco_eurobic! Está na rede swift e na Zona Euro”.

No dia 31 de Outubro, o EuroBic anunciou também que iria mover uma acção contra a ex-eurodeputada, que tem acusado figuras ligadas ao regime angolano (não se sabe se, sendo o MPLA o partido no Poder há 44 anos, algumas dessas figuras integram hoje a mais elevada hierarquia do país) de usarem Portugal para legalizarem o dinheiro desviado de Angola, particularmente durante a gestão de José Eduardo dos Santos.

Como relevantes figuras do actual governo, a começar pelo próprio Presidente da República (João Lourenço), foram altos dignitários de Eduardo dos Santos, fica sem saber a quem é que Ana Gomes de refere.

Em comunicado enviado às redacções, a instituição presidida pelo antigo ministro das Finanças de um governo socialista em Portugal, Fernando Teixeira dos Santos, afirma que as “afirmações e insinuações” de Ana Gomes são “falsas” e que, por lesarem o “bom-nome e a reputação do EuroBic, o banco decidiu avançar com os procedimentos judiciais adequados com vista à salvaguarda dos seus direitos”.

O EuroBic recorda no documento que num programa de comentário na SIC Notícias, em 16 de Outubro, a ex-eurodeputada “referiu-se ao EuroBic como fazendo parte de um circuito que se destina a ofuscar a origem dos capitais da senhora engenheira Isabel dos Santos”.

“Esses comentários foram proferidos na sequência de uma publicação do Twitter da mesma autora, em que também se referiu ao EuroBic como integrando um esquema de ‘lavagem de dinheiro'”, referiu o banco.

Uma das acusações de Ana Gomes foi a de que Isabel dos Santos “controla, através de um testa de ferro, a Global Media” — o grupo português que detém meios de comunicação como o Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF e que já reagiu a estas declarações.

“Põe toda a gente a limpar-se na Wikipédia. Controla tudo o que sai sobre ela na imprensa. Controla através de um testa de ferro, a Global Media”, afirmou Ana Gomes.

O grupo Global Media já emitiu um comunicado onde “desmente categoricamente” estas declarações e “esclarece que nenhum accionista e nenhum administrador” mantém com Isabel dos Santos “qualquer relação passível de configurar as insinuações proferidas”. “Tais afirmações são tanto mais graves porquanto terem sido proferidas em tribunal perante um Juiz de Direito”, lê-se ainda.

Folha 8 com Lusa

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