Qual será a percentagem de refrescamentos de ministros, nos vários países do mundo, a partir da qual o presidente – no caso de Angola e Brasil – ou o primeiro-ministro no – caso da Tuga – também tenha de ser ele próprio refrescado?

Por Brandão de Pinho

Nestes dias para além de ministros, foram também secretários, governadores (cargo que em qualquer parte do mundo deveria ser consequência de escrutínio directo e nominal) e embaixadores. Sai um Laborinho de um cargo entra um Laborinho para ministro, sai um Nhunga entra outro Nhunga.

Reparei que, cada vez mais, as manobras de marketing (até certo ponto) que constituem a exoneração/nomeação, especialmente de ministros, pelo menos nos jornais portugueses e mais concretamente no Jornal de Noticias do Porto, de tão banais e eventualmente exageradas já não colhem do mesmo entusiasmo, reflectindo-se tal no número de linhas em cantos obscuros da secção Internacional e num estilo seco e telegráfico absolutamente divergente das enormes parangonas de outrora pelas quais, para com tais expedientes de JLo, eram reservadas não poucas palavras num tom honorifico e reverencial como se ele fosse o mais proeminente dos políticos e governantes mundiais.

Tive curiosidade então de ir espreitar o que dizia a parelha Caetano/Silva (ou Silva/Caetano) ao longo dos dias posteriores a tamanho refrescamento. Os homens são inteligentes embora falhos de lucidez sem dúvida e escrevem bem mas começa-se a notar que também eles estão saturados de tal fartar vilanagem e destes crimes lesa-pátria que acometem Angola apesar da Nova Ordem implementada pelo tirano Rei-Sol Absolutista sobre o qual não dizem, para já, nada de mal, tal como não diziam do santomense enquanto ele tinha poder, o que não se verifica agora, pelo que a virulência e estilo acintoso da escrita do casal para com este, amiúde se manifesta em moldes semelhantes àquele com que presenteiam os políticos proscritos, que é como quem diz exonerados, ou para usar um eufemismo, refrescados.

Sinceramente, não me lembro de em qualquer país ou império, nos últimos 5.000 anos, de ter existido um governante associado a tantos casos de destituições de altas figuras o que pode significar muitas coisas.

Pode significar que a base de recrutamento, necessariamente afecta e militante do MPLA está irreversivelmente corrompida e não possui as mínimas qualidades técnicas e intelectuais para desempenhar os cargos para os quais os seus membros vão sendo recrutados o que significará que – tal como foi dizendo Zedu nos seus últimos tempos como presidente – que o MPLA teria de deixar de ser o reduto último onde os afiliados mais velhos ou mais carreiristas pressionavam insana e insistentemente por migalhas, maiores ou não tão grandes, não dando sequer oportunidade a jovens melhor preparados ou até a figuras independentes da sociedade civil. Isto há-de ser o fim do MPLA. O MPLA está podre e carunchoso por dentro e o mofo bafiento que exala é o sinal inequívoco de que depois das autárquicas se irá desmoronar pese embora a falta de oposição cuja qualidade é o reflexo da do partido que governa desde sempre Angola.

Mas também pode querer dizer que JLo está a ficar desesperado e estes seus tiques autoritários ao invés de significarem força, demonstram fraqueza e desespero.

Desespero aliás que é evidente. JLo quer fazer um bom trabalho e tornar Angola numa verdadeira democracia ocidental e num estado de bem e de direito mas sem dinheiro e aprisionado pelos grandes interesses de outras potências e corporações nunca poderá sair deste ciclo vicioso de que está refém e por inerência Angola. Afinal quanto dinheiro dos marimbondos conseguiu recuperar? Que eu saiba, só o do Fundo Soberano e à custa de interferências no poder judicial com prisões arbitrárias e posteriores fugas “hollywoodescas” de um dos cativos e garantia de silêncio de ambos.

Urna coisa é certa. Tendo em conta a demografia de Angola e a falta de oportunidades para os jovens, estou convencido que havendo eleições justas nas próximas presidenciais e no caso do preço do petróleo não subir e visto que a grande bandeira de JLo de diversificar a economia é uma miragem, existem reais possibilidades do Rei-Sol não ser eleito não só nominalmente como também nem sequer ser entronizado como presidente do maior pais de África como há-de ser Angola, mais tarde ou mais cedo.

Para além disso as pessoas estão fartas das promessas diárias e do optimismo militante – quase a roçar demência – do General Lourenço (também que poderia ele mais fazer?) porque as suas necessidades mais básicas não estão a ser supridas e enquanto os 20 milhões de pobres continuarem de barriga vazia, sem cuidados de saúde, sem água potável, sem segurança, vítimas de um sistema entranhado de “gasosismo” perpendicular e vertical a toda a sociedade e sobretudo a perderem a esperança de que os seus filhos (quanto mais os próprios) estão irremediavelmente condenados a uma pobreza porventura ainda pior do que a sua, enquanto este “satus quo” não mudar, é literal e matemática e estatisticamente impossível que numas eleições justas – e onde cadáveres, almas penadas e fantasmas não possam sair das suas urnas para se dirigirem às urnas para exercer o direito e dever de votar – o MPLA tenha quaisquer hipóteses de vencer ou na pior das hipóteses de apresentar resultados estalinistas.

Por falar em vencer ou perder eleições, permitam-me que fale agora muito rapidamente da situação aguda e grave ao mesmo tempo, que se passa em Portugal e onde luso-angolanos acabarão por ser vítimas de linchamento e autos de fé que já começaram em lume brando, como estes tempos estivais impõem, mas que antes das eleições legislativas de Outubro muita tinta ainda farão correr.

O Secretário de Estado da Protecção Civil, arouquense de Alvarenga, teve azar numa coisa que nem era bem da sua responsabilidade mas como não há notícias (nem sequer fogos) na “sealy season” os jornais chafurdaram nisso. Por causa, justamente, disso, descobriu-se que a compra de umas coisas foi irregular e sacrificaram a cabeça de um seu auxiliar, também arouquense até porque não tinha curso superior, mas tal expediente não foi suficiente e os jornalistas começaram – pois tinham vagar – a indagar e verificaram relações perigosas das empresas que ganharam a venda dos “kits” à Protecção Civil com familiares do partido do governo e a Arouca, terra natal desse secretário. Nesse seguimento descobriram ainda que o filho deste tinha uma participação superior ao que determina a ainda actual lei numa empresa da qual também fazia parte o luso-angolano e todo-poderoso dono BIC de sua graça Fernando Teles, empresa essa que vendeu e prestou serviços vários a variadas entidades públicas lusitanas.

Ora, neste momento, a tal lei ainda vigente (e já agora demasiado exagerada e injusta) determina que tal prestação de serviços seria irregular e determinaria a demissão desse secretário que é justamente o que ele quer mas que o primeiro-ministro português tenta evitar a todo custo, na expectativa que até este fim-de-semana aconteça um milagre qualquer que mude o foco dos jornalistas e da fraca oposição que existe em Portugal, pois caso contrário abrir-se-á uma caixa de Pandora que arrastará pelo menos 3 ministros entre os quais a lusa-angolana Van Dunem que tão bom trabalho tem vindo a fazer.

A questão que se coloca é que em Portugal estas pequenas irregularidades são escrutinadas e são de uns pequenos milhares de euros enquanto em Angola o descaramento é tal e tão grande, que milhões para não dizer milhares de milhões são, mais no passado é certo, roubados sem parcimónia alguma e perante a passividade das pessoas, dos meios de comunicação (com excepção do Folha 8), da oposição, do poder judicial e judiciário e da comunidade internacional, sobretudo a CPLP.

É óbvio que em Portugal grassa a corrupção mas o chico-espertismo do luso-angolano Fernando Teles do BIC revela a impunidade que certa elite de Angola ainda acha que tem, ao ponto de fora de portas – sobretudo em Portugal – agir da mesma forma e com o mesmo à vontade.

Para terminar queria compartilhar com os leitores a minha enorme alegria e sentido regozijo pelos números extraordinários do Folha 8 na rede social Facebook arrasando completamente a concorrência e tornando-o o jornal mais importante e seguido não só por angolanos de Angola mas também em Portugal (e não são só retornados e emigrantes) o que demonstra inequivocamente que com trabalho, honestidade e independência para além da superior qualidade dos nossos artigos (passe a imodéstia) os frutos acabarão por medrar e amadurecer sem que caiam ao chão ou apodreçam.

Tenho muito orgulho em escrever no Folha 8 onde todas as semanas ao longo deste último ano tenho dado azo à oportunidade superior de ter a distinta honra e prazer de o fazer sem que alguma vez tenha siso condicionado ou influenciado de que forma fosse.

Eventuais críticas de que possa ser anti-lourencista ou anti-emepelialista são infundadas pois várias vezes enalteci o Querido Líder, pese embora do MPLA nada bom seja possível dizer-se a não ser que tem batido recordes ainda que nada abonatórios.

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