Vejamos, com a atenção que o evento merece, a narrativa da Angop: “Com uma tacada rente ao relvado, o Presidente da República, João Lourenço, abriu o torneio internacional de Golfe que se disputa este sábado, no Campo dos Mangais, Barra do Kwanza”.

Na verdade, nada escapou ao jornalista da Angop. Atentemos: “Segurando o taco com as duas mãos, o Chefe de Estado bateu na bola meio em força que percorreu o espaço em direcção ao buraco -1, abrindo o evento ímpar no país, enquadrado no “Fórum Mundial do Turismo”, a realizar-se de 23 a 25 deste mês, em Luanda”.

Já agora, continuemos com o texto integral da Angop: “A prova conta com a participação de mais de 50 atletas em representação dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), Reino Unido, Japão e Turquia.

Além da componente desportiva, Angola busca, com o “Presidential Golf Day”, a interacção entre homens de negócios visando parcerias no âmbito do programa do Executivo de diversificação da economia nacional.

Após a abertura da competição, João Lourenço, acompanhado da Primeira-dama, Ana Dias Lourenço, da Ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula do Sacramento Neto, e do Turismo, Ângela Bragança, inaugurou a escola de equitação do clube Mangais”.

De golfe, como do resto, só o MPLA percebe

O presidente do Fórum Mundial do Turismo, Bulut Bagci, almoçou no passado dia 12 de Março, à beira mar, em Luanda. Ementa? Talvez trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, e bebendo de Château-Grillet 2005.

Com ele estavam os nossos anfitriões, vestindo – é claro – Hugo Boss, Ermenegildo Zegna e usando relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex…

“Que grande, enorme, maravilhoso é este país”, terá pensado (e bem) Bulut Bagci. Vai daí não esteve com meias medidas. Anunciou que o Fórum Mundial do Turismo vai investir nos próximos anos 1.000 milhões de dólares (870 milhões de euros) para apoiar o desenvolvimento do sector turístico em Angola.

Ali bem perto estavam alguns dos 20 milhões de angolanos pobres que subsistem com peixe podre, fuba podre, panos ruins e porrada se refilarem. Mas esses não contam. São apenas uma espécie menor de angolanos…

O anúncio foi feito à imprensa no final do “Breakfast Meeting”, alusivo ao “Presidential Golf Day – Angola 2019”, evento que antecede a realização do Fórum Mundial de Turismo, que Luanda acolherá de 23 a 25 deste mês.

“Ao longo dos próximos anos, o Fórum Mundial do Turismo vai investir 1.000 milhões de dólares no sector do Turismo em Angola, cujo destino será definido durante os trabalhos do Fórum a realizar em Angola”, afirmou Bulut Bagci, acrescentando (depois de um discreto arroto a marisco) que, nas reuniões que já manteve com as autoridades angolanas, ficou decidido que o investimento vai obedecer ao Plano de Desenvolvimento do Turismo Nacional, integrado, por sua vez, no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2918/22.

O presidente do Fórum Mundial de Turismo esteve em Luanda em Fevereiro, e foi recebido, na ocasião, pelo chefe de Estado João Lourenço, bem como pelo Presidente do MPLA (João Lourenço) e pelo Titular do Poder Executivo (João Lourenço) tendo considerado que Angola tem grandes potencialidades no sector do Turismo e indicado que a realização do fórum na capital vai trazer oportunidades de investimento para os sectores da construção, transportes e na criação de empregos.

Por outro lado, no encontro de Março, Bulut Bagci assinou com a ministra do Turismo, Ângela Bragança, um protocolo de cooperação destinado a atrair investimento e impulsionar o turismo nacional.

Na ocasião, Ângela Bragança disse tratar-se de um acordo de parceria com a organização que detém a marca, onde estão definidas as responsabilidades do Fórum Mundial de Turismo e do ministério que tutela no quadro da organização do fórum deste mês.

Segundo a ministra, o evento, em que estima a presença de 1.500 delegados, “envolve uma máquina organizativa e logística forte”, pelo que os responsáveis do sector em Angola estão a desenvolver o trabalho necessário para mostrar o potencial turístico do país.

O “Presidential Golf Day” é uma iniciativa mobilizadora que presta um tributo aos esforços para atrair investimentos multi-sectoriais para a economia e promover oportunidades de negócios, com particular realce a dinamização do turismo.

A ministra considerou que o “Presidential Golf Day – Angola 2019” e o fórum apresentam-se como uma “excelente oportunidade” para fechar negócios e conhecer melhor o potencial turístico de Angola.

Segundo Ângela Bragança, o sector está já a gerar sinergias com outras áreas da esfera económica, dado a transversalidade que apresenta, pois, com a prática do golfe, podem-se unir-se várias valências, “como turismo, desporto, saúde, ambiente saudável, parceria e negócio, amizade e desenvolvimento”.

Ângela Bragança disse que, com o evento, que terá um carácter anual, “abre-se uma oportunidade para o turismo do golfe como um nicho do mercado bastante promissor”.

“O golfista tem como característica o desejo de viajar e, neste ponto, Angola apresenta vantagens pela diversidade de clima, paisagens, topografia e belezas naturais”, sublinhou.

Turismo é MPLA, MPLA é turismo

Angola está a aplicar, desde 30 de Março de 2018 o regime de isenção e simplificação dos actos administrativos para a concessão do visto de turismo, a cidadãos de 61 países, incluindo da União Europeia.

Nessa altura o ministro Ângelo Veiga Tavares lembrou que a simplificação dos actos migratórios visa incentivar o investimento e o turismo “e tornar Angola um país mais aberto ao mundo”.

Segundo o ministro, as facilidades criadas vão contribuir sobremaneira para o movimento de investidores e turistas e os consulados devem assumir a responsabilidade na emissão dos vistos de trabalho e outros de natureza consular, eliminando-se “de forma excepcional, a pressão para serem obtidos vistos no país”.

O titular da pasta do Interior pediu, no entanto, o aumento da exigência para o perfil técnico-profissional da mão-de-obra estrangeira, naquelas especialidades em que há nacionais capacitados para as mesmas funções, “alguns dos quais jovens formados em universidades de primeira linha de países desenvolvidos”.

“O que vem causando alguma frustração nestes e seus progenitores e o Estado, que investe na sua formação, sem beneficiar do retorno do avultado investimento feito”, disse o ministro na defesa de uma tese que, de per si, diz tudo quanto à certeza de um sinónimo que faz parte do ADN do MPLA: Olhai para o que dizemos e não para o que fazemos.

De acordo com o governante, uma particular atenção deve incidir também sobre o facto de algumas dessas empresas empolarem o salário contratual dos técnicos expatriados como forma sub-reptícia de expatriação ilícita de capitais em benefício dos países de origem desses expatriados.

Não seria bom o ministro Ângelo Veiga Tavares ter dado exemplos de empresas que usam essa metodologia? Claro que não podia. Ficaríamos todos a saber que a grande maioria das tais empresas que “empolam o salário contratual dos técnicos expatriados como forma sub-reptícia de expatriação ilícita de capitais” pertencem a empresários do partido/Estado, o MPLA.

“Recomendamos por isso maior rigor na análise dos processos de pedido de vistos de trabalho e que se observe com rigor os postulados da lei”, realçou o governante. Fez muito bem. É claro que, fazendo fé nos exemplos conhecidos desde que o MPLA é governo (ou seja, desde a independência), entre um néscio filiado no MPLA e um génio sem filiação, as empresas devem escolher o… néscio.

Nesse mesmo dia o secretário de Estado do Ministério das Relações Exteriores, Tete António, disse que com esta maior abertura Angola estima que nos próximos dez anos o país venha a receber cerca de 4,6 milhões de turistas.

“Perante esses desafios e outros de vária índole, devemos adaptar as nossas capacidades à nova realidade e melhorar a nossa coordenação”, disse Tete António.

O governante apelou ainda a que seja uniformizada nos postos migratórios as respostas e perguntas, preocupações, que eventualmente serão colocadas, bem como ter a mesma interpretação de cada cláusula dos instrumentos assinados e do decreto presidencial.

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