«Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar», disse Nelson Mandela.

Por Orlando Castro

Apesar dos “progressos na luta contra o racismo” dos últimos 50 anos, “a discriminação racial ainda representa um perigo claro para pessoas e comunidades” em todo o mundo, dizia o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

A intervenção da Polícia de Segurança Pública, este domingo, no bairro da Jamaica no Seixal (Portugal) em que cidadãos negros foram agredidos vai ser alvo de uma queixa feita ao Ministério Público português pela associação SOS Racismo.

Alguns desses cidadãos negros agredidos são portugueses. Se, por acaso, o mesmo incidente (rigorosamente o mesmo) fosse apenas entre a PSP e cidadãos portugueses mas… brancos, a SOS Racismo diria o quê?

No final do ano passado, numa conhecida sala de espectáculos da cidade do Porto (Portugal), uma senhora negra, acompanhada por dois filhos menores, tentou entrar para a plateia quando o seu bilhete era para a galeria. O funcionário de serviço explicou-lhe que teria de se dirigir a outra entrada. A senhora, aos berros, vociferou: “Você está a fazer isso porque eu sou preta”. Ninguém nos contou. Nós vimos.

Em Dezembro passado, durante o debate que antecedeu a aprovação sobre a Lei de Repatriamento de Capitais, o advogado e fundador da associação Mãos Livres, David Mendes, deputado independente eleito nas listas da UNITA, disse: “Estou farto dos portugueses em Angola”. Não, não disse que estava farto de alguns portugueses. Não disse que estava farto de alguns empresários portugueses. Não disse que estava farto de alguns chulos portugueses. Meteu os portugueses todos no mesmo saco.

Numa mensagem a propósito do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, recordou que, “todos os dias, pessoas de todas as idades suportam ódios, injustiças e humilhação devido à sua cor de pele, origem nacional ou étnica”.

Intitulada “Aprender com as tragédias do passado para combater o racismo hoje”, a mensagem reafirmava o “compromisso” das Nações Unidas “em construir um mundo de justiça e igualdade onde a xenofobia e a intolerância não existem”.

Ban Ki-moon apelava a que se aprenda com os “erros históricos”, como é o caso do colonialismo ou de regimes segregacionista como o do apartheid, na África do Sul, para que se possa “erradicar o preconceito”.

Pessoalmente continuo, por muito que isso custe a alguns, a ficar virado do avesso quando, e em Portugal isso é mais do que comum, africano é sinónimo de negro e angolano é sinónimo de empregado da construção civil ou de mulher da limpeza.

Cada vez que falo deste assunto, explicam-me que não é uma questão de racismo mas, talvez, de ignorância. Na melhor das hipóteses admito que seja uma simbiose das duas.

Também me chateia ver (e chateia que se farta!), por exemplo, alguns angolanos negros, supostamente nada racistas e intelectualmente evoluídos, confundir a vida nas esquinas com as esquinas da vida, advogando a igualdade e praticando a desigualdade, utilizando a cor da pele para justificar – por exemplo – a sua incompetência.

Estou farto de, em Portugal, entre dois eventuais autores – um negro e outro branco – de um qualquer crime, o suspeito principal ser sempre o negro. Estou farto dos discursos e das práticas racistas que, depois de tantos anos de democracia, associam a população negra a toda a criminalidade.

Tal como estou farto de, por manifesto complexo de inferioridade, os angolanos negros julgarem que a cor da pele é livre trânsito para apedrejar a Polícia ou para, como acima referi, querer entrar para a plateia quando se tem bilhete para a galeria.

Por último, relembro novamente Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. E, por isso, a “nossa pretensão é ter uma sociedade não racial. Estamos a lutar por uma sociedade em que o povo deixará de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça; é uma questão de ideias”.

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