Por um feliz facto fortuito fruto da fortuna e francamente falho da convencional ortodoxia envolto em não poucas venturas, mais, do que em peripécias e venturas, menos, chegou-me às mãos “O Livro do Porquê” (numa tradução estrita, restrita e equivocada do título em inglês). Uma obra mais de entretenimento do que científica, que aborda a temática das matemáticas e ciências computacionais e que inerentemente vai desembarcando tanto nas ciências estatísticas como nas epidemiológicas, bem como na lógica, como seria lógico.

Por Brandão de Pinho

Todavia o seu mérito é que se destina a leigos e tem uma linguagem apelativa e excitante, para além de cada capítulo, subcapítulo e alínea poderem ser lidos aleatoriamente sem que se tenham em conta os anteriores. Um bom livro para ter na casa de banho, o que é, talvez, dos maiores elogios que se possa conceder a uma obra literária.

Trata-se daqueles livros em que logo nas primeiras páginas farejamos o perfume semítico que fede das suas páginas e que à medida que se vai avançando, confirmamos a fiabilidade espontânea do nosso faro. Por curiosidade – que mais à frente fará sentido – vou indicar os 2 autores: Judea Pearl e Dana MacKenzie; e nem nomes próprios nem apelidos indiciam, inequivocamente (nem mesmo Judea), qualquer evidência antroponímica judaica, podendo perfeitamente ser banalíssimos nomes de distintos cidadãos de média-alta aburguesados, monótonos académicos norte-americanos, ou de um banal branco, protestante e anglo-saxónico.

O livro, resumidamente, retrata a causa e o efeito, a diferença entre correlação e casualidade e inteligência artificial de forma brilhante, mesmo para leigos como nós. E tem – como já disse – a propriedade de poder ser lido, razoavelmente, “ao calhas”, sem necessidade de marcadores, páginas dobradas ou outros expedientes para fixação de uma ou mais páginas. No rascunho que manuscrevi no meu caderno preto Moleskine (que muitos autores usaram escrupulosamente) tecia elogios e destacava o virtuosismo das duas autoras, na mesma feição com que urdia elegias a mim e ao meu mau mal de defumar boca e pulmões.

Estava feliz, confesso, sentindo-me de certa forma satisfeito por já ser possível às mulheres escreverem desta forma tão atractiva e interessante (até porque sendo eu, pai de uma menina, consorte de uma leal companheira e devoto filho de uma mãe, preocupa-me a desvantagem que à partida, a Inês já tem em relação a qualquer imbecil do género masculino).

As pessoas que escreveram o livro falavam muitas vezes da – muito mais complexa do que possamos considerar – relação causa/efeito e para não vos maçar muito, meditemos num maço, ou mais, do malévolo tabaco, como exemplo para elucidar o meu ponto de vista.

Para já, em bom rigor científico, não se pode afirmar, de qualquer maneira, que fumar está associado a uma menor esperança média de vida e a um interminável rol de doenças e a um quase ubíquo manancial de maleitas.

Aliás, nos USA, desde que foi instalada uma comissão sobre o tema – supostamente independente (mas cujos membros, alguns, foram morrendo precocemente por causas associadas ao fumo e bem sabiam o motivo) – até que, finalmente, a publicidade aos cigarros fosse proibida e mais tarde começassem a aparecer aqueles avisos tenebrosos nos maços (que nós fumantes – inevitavelmente -fingimos que ignoramos ou banalizámo-los de todo), decorreram décadas!

Amigo leitor perceba a complexidade deste vício. Estava há 3 dias sem fumar de acordo com um auto-decreto que me proclamei, mas mal acabei de escrever o parágrafo anterior arranjei numa desculpa para ir despejar o lixo aproveitando para ir ler o jornal ao café e tendo que consumir pedi justamente um café, e claro, comprei um maço de cigarros com a desculpa de uma hipotética coerência com aquilo que escrevi, mesmo sabendo, tal como qualquer cidadão deste mundo em seu perfeito juízo que fumar enferma e mata. Mas a realidade é que nunca escrevi nenhum artigo para o Folha sem que consumisse um bom meio maço de cigarros, “Camel Activate”, aqueles nada másculos com uma bolinha no filtro para rebentar e libertar menta ou mentol – que muita gente considera, jocosamente, tabaco de mulheres ou mariquinhas – que por acaso, ou não, é um bronco-dilatador tornando-os ainda mais perniciosos.

Nas páginas seguintes do livro li outros factos curiosos que a ciência conseguiu provar. O primeiro, tal como é do conhecimento de qualquer mãe, tem a ver com os recém-nascidos de progenitoras fumadoras terem menos peso. Isto é um facto comprovadamente aceite, quer pelo senso comum quer pela ciência, depois dos milhentos estudos onde todos os demais factores (ainda que remotos) foram isolados e descartados, não havendo margem para dúvidas sobre esta relação causa/efeito.

Numas folhas mais à frente há uma evidência relacionada com o peso dos bebés e a sua raça e que por ser um tema tabu determina que nenhum cientista se atreva a publicar algo que seja sobre essa premissa, arriscando muito provavelmente, a sua cabeça e carreira, apesar de estar a deixar de impedir mortes de crianças e mamãs negras (perfeitamente evitáveis com estudos mais sérios, isentos e profundos). Eis o mundo do politicamente correcto em que vivemos com as suas coisas positivas mas também com os seus aspectos contraproducentemente prejudiciais. Neste caso um investigador médico ante o dilema de seguir o juramento de Hipócrates ou ser hipócrita, será constrangido a optar por esta última. Um dia hei-de desenvolver o meu raciocínio acerca disto.

Todavia o mais interessante – e ainda nessa temática da maternidade, de fumar e do baixo peso dos nados vivos – e que durante anos foi um paradoxos para cientistas, médicos e biólogos e que só a matemática resolveu, foi o facto sabido, de que os bebés que nascem com pouco peso e filhos de mães fumantes têm muito mais hipóteses de sobreviver do que os bebés, igualmente, com pouco peso, mas filhos de mães abstémias desse vício.

Como diabo se explicaria tamanho paradoxo? Teria o tabaco ou algum dos seus milhares de componentes algo, afinal, de positivo? Uma contradição espantosa quando vem à baila uma matéria que talvez seja mais satânica do que o ópio ou o açúcar, ou, os pesticidas, sobretudo os glifosatos da “Monsanto”.

Mas, enfim, a explicação é simples: quando os filhos recém-nascidos de mães que não têm o vício funesto de fumar nascem com baixo peso, tal significa que o motivo para esse baixo peso é potencialmente mais grave e mortífero do que o factor fumo que também determina baixo peso.

Vem isto a propósito de um assunto sobre o qual quero levantar ao de leve o véu.

Desde que comecei (há quase um ano e meio) a escrever para o Folha 8, mas sobretudo, um pouco mais tarde, quando me senti à vontade para discorrer num estilo mais acintoso para com João Lourenço, MPLA e marimbondos em geral, à medida que percebei que nada mudara afinal, toda uma sorte de azares e pouca sorte (pela qual fui sempre bafejado) deram azo – azaradamente – a que me surgissem – má sorte e má fortuna as minhas – efeitos deveras negativos na minha vida. Como se determinado efeito fosse provocado por uma singular e determinada causa.

Ora, se eu fosse um ignorante, maníaco delirante, idiota chapado ou de perfil psicológico de culpabilizar outrem pelos meus equívocos, poderia de facto, estabelecer essa correlação. Mas não sou. Todavia, nalguma da minha família alargada, os sobas sobretudo e as mulheres, não são muito diferente das tribos angolanas mais remotas, na sua maneira animista, sincrética e sobrenatural de ver o mundo. Quantas vezes já disse eu que somos todos iguais…

Até por isso cedi e decidi usar o método experimental – mesmo que em causa própria – e vou deixar de escrever para o Folha 8 durante algum tempo e ver como correm os meus empreendimentos, ainda que tal experiência não tenha o mínimo de validade estatística ou sequer alguma réstia de rigor científico. Nem fará muito sentido.

Todavia, digamos que uma espécie de premonição intuitiva, oriunda das profundezas mais esconsas, viscerais e ilógicas do meu cérebro me levou a tomar esta – para mim tão dolorosa – resolução, mesmo não sendo esta decisão assente nesse factor único.

Quando muito poderia – se não conseguir largar o vício – escrever, sobre pseudónimo, acerca de temas como a beleza inerente ao chilrear dos passarinhos, ou da fragrância inconfundível da terra avermelhada angolana ou daquele arrepelo na pele com que a cacimba matinal envolve e arrebita os angolenses do interior do vasto sertão angolano para mais uma jorna, ou até, sobre as melhorias evidentes que o povo outrora esfomeado e moribundo, quotidianamente vem sentindo, fruto decerto, da iluminada e sapiente governação de Lourenço e MPLA, nomes até que nem sequer sou digno de pronunciar, quanto mais escrever. Permitam-me este derradeiro sarcasmo.

Curiosamente o nome dos autores do livro que referi são masculinos e na sua biografia nada diz acerca da sua origem étnica e só o deduzi quando ambos afirmaram que foram obrigados a ler dezenas de vezes o mito do Antigo Testamento que envolve deus, Adão, Eva, uma Maçã e uma Serpente alegadamente diabólica e que segundo o qual, mesmo para os cristãos, nos obrigou a sofrer as agruras da vida fora de um éden de leite e mel.

No Folha 8 nunca me pediram para escrever sobre o que fosse ou como quer que fosse ou censurasse o que quer que fosse sendo eu o único responsável por tudo o que escrevi. Um jornal livre e comprometido com a verdade de facto.

Aliás em Angola, e por estranho que pareça, há mais liberdade de expressão que em Portugal pois este texto que escrevo, se fosse por lá publicado e se eu fosse um cronista minimamente famoso ou proeminente intelectual, trar-me-ia problemas, pois de uma assentada fui: machista ao subentender que o livro era bom de mais para ser escrito por mulheres entre outras considerações; racista na forma como me referi aos judeus e até às mães negras (depreendendo uma certa condescendência que tão ou mais grave é que o próprio racismo); de alguma forma apologista do hábito de fumar (mesmo que propalando as consequências); um pouquinho homofóbico na piadinha das bolinhas de mentol, e, também fraccionário e elitista – se bem que neste caso para prejuízo dos meus colegas da medicina e biologia – ao denunciar a incompetência dos médicos em provar factos tão evidentes e importantes para a Saúde e pelo preconceito em abordar temas raciais para não ferir susceptibilidades. E não sei se não considerariam preconceito da minha parte, para com os mais velhos por os associar a superstições. Ou seja, a minha carreira estaria desde logo arruinada e jamais deixaria de ser conotado com coisas que abomino mas sobre as quais tenho direito de fazer humor e escarnecer e falar descomplexadamente. Assumindo a responsabilidade e consequências, obviamente, mas não sendo obrigado a um processo inquisicional de histéricas.

Se por acaso o texto fosse publicado – e mais uma vez na condição de eu ser algum comentador ainda que não muito destacado sequer – neste actual Brasil: atrasado, evangélico conservador e de extrema-direita, (o termo bolsonarista condensaria todos estes adjectivos), o tom trocista com que abordei a religião e os seus mitos causar-me-iam, certamente, dissabores. Em Portugal nem a própria Igreja poderia sequer opinar. Imaginem a liberdade de expressão num país supostamente democrático e livre… mas só aparentemente.

Para terminar e justificar esta minha pausa, posso também alegar o tempo que demorava, desde que mentalmente ia burilando um texto imaginário depois de mais ou menos escolhida uma ou mais temáticas, passando pelo processo catártico em que ia para o computador até que o texto estivesse pronto de acordo com os meus padrões intelectuais e morais que no fundo vocês me merecem e depois da confirmação na internet de alguns factos, das sucessivas revisões da ortografia e da tipografia, da eliminação infinda de incongruências estilísticas e semânticas, e do tratamento de toda uma outra sorte de detalhes, que só que quem tem brio em escrever bem pode compreender (e mesmo assim, depois de publicados os textos, detectava sempre aspectos para corrigir, simplificar ou aprimorar), tempo esse nunca inferior a uma boa meia dúzia de horas apesar de ser em termos de felicidade pessoal o tempo mais bem empregue – ou será melhor empregue? –.

Sei que, conforme “bem” seja adjectivo ou advérbio, escreve-se de uma forma ou doutra, mas como estou sem internet neste momento, e cansado para raciocinar ou ir aos dicionários e prontuários que sei mais ou menos onde estão arrumados na minha biblioteca revelo-vos assim uma fraqueza que me peja de vergonha, confesso, maugrado uma pequena dislexia de que padeço.

A isto acresce algum inevitável e incontornável trabalho de investigação e consulta da realidade angolana e do que os meus colegas do Folha 8 – bem como de outros jornais angolanos – escrevem e que me consome mais tempo ainda, ainda que isso me dê prazer.

Mas sobretudo quero e preciso de iniciar uma nova era, de preferência sob os auspícios de Benu, a ave mitológica egípcia que inspirou os gregos para a sua Fénix, permanentemente renascida das cinzas (e que por sua vez teve inspiração nos sumérios) e assim mudar alguns aspectos – muitos de forma radical – da minha vida.

Desta forma, caros leitores, não é um “Adeus” mas sim um “Até Breve” com que para já me despeço. O João Lourenço, o MPLA e os marimbondos – quantas vezes tão subtis e insuspeitos mas de ferrões letais – podem para já cantarolar uma pequena vitória nesta batalha… mas temporariamente apenas, porque as guerras só se ganham no fim. Qualquer General sabe disso e não embandeira em arco por qualquer coisa.

Alguns “amigos” das redes sociais virtuais (e quiçá das reais) também ficarão certamente encantados por suspender a minha escrita num jornal tão prestigiante como o Folha 8 que me deu a oportunidade de me expandir a todos os níveis, de uma forma surpreendente e intensa, ao ponto de eu, modéstia à parte, intuir que em Portugal, não vejo quem escreva melhor do que eu, em blogues, jornais e revistas. E no mais que for.

Nota da Direcção. Todas as semanas, durante um ano e meio, o Folha 8 teve a honra e o privilégio de publicar as crónicas de Brandão de Pinho. Modéstia à parte, foram (e voltarão a ser em breve, assim o desejamos) dos mais brilhantes textos publicados na Imprensa angolana. Dizer, também em nome dos nossos leitores, Obrigado Brandão de Pinho, é pouco, muito pouco. Apesar disso, reiteramos o nosso twapandula com um até já Companheiro.

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