O Presidente angolano, João Lourenço (que nada tem a ver com um outro João Lourenço), solicitou hoje ao corpo diplomático acreditado em Luanda que ajude o país (ou será os donos do país?) a divulgar a imagem da “nova Angola” que, disse, é “mais aberta e receptiva ao investimento privado”.

Acabado de chegar à política angolana, João Lourenço acredita que os diplomatas, entre outros, não têm memória. Aliás, o Presidente deveria ter aproveitado a oportunidade para, diante de uma plateia de autómatos programados para aplaudir quem estiver no Poder, explicar que nada tem a ver com o outro João Lourenço que – entre muitos altos cargos políticos – foi vice-presidente do MPLA tendo José Eduardo dos Santos como presidente e seu ministro da Defesa. É que nem sequer são da família…

Ao discursar na cerimónia de cumprimentos de Ano Novo do corpo diplomático, João Lourenço salientou que o combate à corrupção e o consequente processo de credibilização do Estado são um processo contínuo. Faltou acrescentar que o MPLA precisa de mais umas dezenas de anos de poder absoluto para, então sim, dizer que o combate à corrupção e o consequente processo de credibilização do Estado são um processo contínuo.

Nesse sentido, manifestou o desejo de que os embaixadores e chefes de missões diplomáticas, organizações internacionais e demais entidades “ajudem a divulgar esta nova imagem de Angola, mais aberta e receptiva ao investimento privado nas suas múltiplas vertentes”.

O chefe de Estado angolano lembrou que, em 2018, foi desenvolvida uma diplomacia activa, “com um pendor económico muito forte”, que possibilitou a captação de investimentos e um aumento exponencial do interesse de novos investidores privados pelo mercado angolano.

“Este grande exercício diplomático só foi possível graças ao trabalho conjunto entre as autoridades angolanas, as missões diplomáticas, as organizações internacionais e demais entidades estrangeiras acreditadas em Angola”, salientou.

Por este motivo, agradeceu o trabalho desenvolvido e reafirmou que continua a contar com a colaboração e empenho de todos para continuidade da dinâmica já conquistada, pelo que será dado seguimento às políticas que visam a credibilização das instituições do Estado, mantendo-se a luta contra o ADN do MPLA, construído, solidificado e blindado ao longo de 43 anos: a corrupção.

“Hoje já é convicção geral de que a impunidade em relação às práticas lesivas ao erário têm os dias contados, o que tem vindo a contribuir para uma mudança da imagem de Angola, a nível interno e internacional”, frisou João Lourenço.

João Lourenço salientou que a “demonstração clara da confiança” criada junto das instituições e organizações externas foi o acordo assinado em Dezembro de 2018 com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Será que os diplomatas não sabem que, vencedor das eleições fraudulentas e opacas de Agosto de 2017, que deram a vitória ao MPLA e ao seu cabeça-de-lista, João Lourenço pôs em prática a separação de poderes “made in MPLA”? Ou seja, lavra a sentença e depois ordena aos seus acólitos que arranjem maneira de, com algum lampejo de legalidade, encontrar articulado que permita dar sustentabilidade jurídica à decisão.

Mentor de muitas e inesperadas supostas mudanças políticas e económicas, com exonerações em catadupa e criação de comissões para tudo e mais alguma coisa, João Lourenço está, contudo, a deixar cair a máscara. Substitui ministros e governados que escolheu há meia dúzia de meses, recorrendo à fossa séptica do MPLA. Mas, mesmo aí, está com dificuldades em encontrar moscas de “qualidade”, tendo mesmo de recorrer a metamorfoseados percevejos.

Teoricamente reformador, João Lourenço tem tentado de várias formas (preferencialmente seleccionando alvos familiares e outros bajuladores do anterior Presidente da República, dos quais – aliás – fez parte) mostrar-se diferente. Em teoria tem conseguido. O problema está na prática. Apresenta verbalmente um projecto para construir uma espécie de “Trump Tower”, os lacaios aplaudem, os escribas elogiam, os acólitos externos felicitam, os abutres amigos dão fiado. Quando chega a altura da construção… afinal só vai construir uma mísera cubata de adobo.

E quando, numa atitude suicida, alguém o confronta sobre o assunto, João Lourenço diz que a culpa é da família de José Eduardo dos Santos, dos traidores que deixaram os cofres vazios, dos marimbondos, dos malandros e – resumidamente – de todos aqueles que ainda não perceberam que Angola continua a ser o MPLA e que o MPLA continua a ser o (único) dono de Angola. Acrescente que, agora, o MPLA é o que o Presidente quiser.

Empossado a 26 de Setembro de 2017 como terceiro Presidente de Angola (Agostinho Neto foi o primeiro, entre 1975 e 1979, e José Eduardo dos Santos o segundo), João Lourenço segue os mesmos passos que os seus antecessores, até mesmo na estratégia de ser Presidente sem ter sido nominalmente eleito.

João Lourenço, numa atitude revanchista, tem como único alvo acabar com a família Dos Santos, culpando-a de tudo e dessa forma desvirar a atenção do Povo e da comunidade internacional para o seu projecto unipessoal de domínio total do país, ou seja, a ditadura. José Eduardo dos Santos fez o mesmo, sendo Jonas Savimbi e a UNITA o alvo. Agostinho Neto fez também a mesma coisa, inventando um golpe de Estado em Maio de 1977.

Assim, torna-se cada vez mais claro que, até prova em contrário (que nunca existirá), todos os que tenham ligações familiares com José Eduardo dos Santos são culpados.

Pouco antes da proclamação da independência angolana, feita em Luanda, pelo MPLA, e no Huambo pela UNITA e FNLA, a 11 de Novembro de 1975, João Lourenço (não o actual que, como se disse, chegou a Angola há muito pouco tempo, mas o outro…) iniciou a carreira militar na República do Congo, tendo feito a sua primeira instrução político-militar no Centro de Instrução Revolucionária de Kalunga.

General na reforma, e até Julho de 2017 ministro da Defesa Nacional, João Lourenço integrou o primeiro grupo de combatentes do MPLA que entraram em território nacional via Miconge, em direcção à cidade de Cabinda, após a queda do regime ditatorial português.

Depois de participar em vários combates na fronteira norte, no período de guerra civil que se seguiu à proclamação da independência, João Lourenço ainda fez formação em artilharia pesada e exerceu funções de comissário político em diversos escalões, antes de partir para a então União Soviética.

É nesse processo de qualificação das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) que, entre 1978 e 1982, reforça a sua formação militar, além de obter o título de mestre em Ciências Históricas, pela Academia Político-Militar V. I. Lenine.

Sempre sob as ordens de Eduardo dos Santos, de novo em Angola, o outro João Lourenço assume, entre 1982 e 1990, vários cargos militares, envolvendo-se em diversos combates contra as FALA (forças da UNITA), sobretudo no centro do país, até ascender a general das FAPLA. Começa então um percurso político e de ambição pessoal dentro do MPLA que o levaria até secretário-geral do partido, entre 1998 a 2003.

Com José Eduardo dos Santos a anunciar a intenção de deixar o poder com o fim do conflito armado (2002), João Lourenço posicionou-se na corrida à sucessão, o que lhe valeu uma longa travessia no deserto, depois de o então Presidente decidir manter-se no poder. Começou aí a germinar um paciente e bajulador acerto de contas, consumado em 2017.

A ingénua e suicida reabilitação política aconteceu em Abril de 2014, quando é nomeado por José Eduardo dos Santos para ministro da Defesa Nacional, culminado com a imposição do líder, em congresso, em Agosto de 2016, como vice-presidente do MPLA, antecedendo a sua entrada, por proposta pessoal de Dos Santos, na corrida eleitoral para chefe de Estado angolano.

Na continuada guerra a todos quantos presuma que são da família de Eduardo dos Santos, ou tenham alguma simpatia pelo antigo Presidente, este João Lourenço (não o outro) não só está a cuspir no prato que o alimentou (e à sua família) de forma farta e faustosa, como não perde uma oportunidade para morder as mãos de quem, durante décadas, o amparou.

É claro que nem sempre é ele a cuspir ou a morder. Vemos cada vez mais serem os seus famintos vira-latas a cumprirem as suas ordens…

Folha 8 com Lusa

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