O Brasil é o terceiro país com o maior número de fogos, numa lista liderada por Angola, que registou 6.902 fogos nos últimos dois dias, comparado com os 2.127 registados no Brasil, principalmente na Amazónia.

De acordo com a agência de informação financeira Bloomberg, que cita dados do satélite MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) lançado pela NASA em 1999, Angola registou 6.902 fogos nas últimas 48 horas, mais do dobro dos 3.395 na República Democrática do Congo e mais do triplo dos 2.127 fogos registados no Brasil.

“Os fogos que grassam na Amazónia podem ter colocado pressão sobre as políticas ambientais do Presidente Jair Bolsonaro, mas o Brasil é, na verdade, o terceiro país no mundo em termos de incêndios nas últimas 48 horas”, escreve a Bloomberg.

Salientando que este número não é um fenómeno invulgar na África central, a agência de notícias escreve que só numa semana de Junho foram registados 67 mil incêndios quando os agricultores fizeram queimadas para ganhar terra para as colheitas.

A Zâmbia é o quarto país com mais fogos nos últimos dois dias, enquanto a Bolívia, vizinho do Brasil na Amazónia, é o sexto.

Os efeitos das queimadas na região amazónica e no centro-oeste não são vistos apenas no céu de parte do Brasil; mapas produzidos por institutos internacionais também mostram essa realidade.

As queimadas intensificaram-se no país entre desde Julho e, nesta semana, a sua fumaça ajudou a escurecer o céu de São Paulo, a milhares de quilómetros de distância, em plena tarde.

De acordo com o cientista Mark Parrington, do Serviço de Monitoramento Atmosférico da Copernicus, o programa de observação da Terra da União Europeia, é preciso esperar pelo fim da temporada mais forte de queimadas para avaliar a dimensão exacta do fenómeno.

Mark Parrington diz que certamente é possível dizer que houve um período – de pouco mais de uma semana – com actividade acima do normal, entre 10 e 18 ou 19 de Agosto. Mas, segundo ele, só em Setembro poderemos ter noção “do quão grande é essa temporada de queimadas”.

“Dia após dia, está claro que houve um aumento, e há mais fogo do que houve nos últimos oito ou nove anos. Mas ainda é menor do que víamos no começo dos anos 2000 no Brasil”, afirma.

De qualquer forma, destaca Carly Reddington, uma pesquisadora do Instituto de Ciência Climática e Atmosférica da Universidade de Leeds, no Reino Unido, “o aumento do desmatamento tem impactos negativos no meio-ambiente, no clima e na saúde dos seres humanos”.

“As pessoas estão respirando esse ar. E não só pessoas próximas das queimadas – a fumaça pode ser carregada durante dias pelo vento e pode impactar outras populações.”

O serviço de Monitoramento Atmosférico da Copernicus mostra dados da situação actual e também faz previsões atmosféricas com o objectivo de medir a qualidade do ar e da composição da atmosfera.

Depois, em 19 de Agosto, a projecção mostra a fumaça saindo da região amazónica em direcção à costa, passando por São Paulo. O céu da capital paulista e outras cidades do Estado escureceu nesse dia por causa da fumaça proveniente de queimadas combinada com a chegada de uma frente fria que fechou o tempo para os paulistas.

Parrington, da Copernicus, faz um alerta: “Gases muito tóxicos são liberados com incêndios na vegetação. Isso é ruim para a respiração, e pode causar doenças. Isso é muito sério para quem está no local”. Médicos também apontam o perigo.

Os mapas da Copernicus também mostram a fumaça no mundo. O Brasil é um dos destaques, ao lado de outras regiões tropicais – em época de Inverno, período mais seco – e da Sibéria, na Rússia.

Há concentração de aerossóis na África Central – em Angola e na República Democrática do Congo – e na Indonésia.

As queimadas aceleram emissões de carbono e causam grandes problemas de saúde para as comunidades locais.

A Sibéria é uma excepção. “Nessa época do ano, Verão no hemisfério norte, esperamos ver alguns pontos quentes aqui e ali nessa região, mas tão espalhado e intenso todos os dias é muito surpreendente em qualquer lugar do mundo”, diz Parrington.

Normalmente, segundo ele, um incêndio pode ter alta intensidade por talvez uma semana ou dez dias. Há queimadas intensas na Sibéria, no entanto, há dois meses.

Como no Brasil, moradores de outras regiões da Rússia também respiraram o ar tóxico do fogo que queimou e continua queimando milhares de metros quadrados de florestas siberianas.

“O monóxido de carbono é resultado de uma combustão incompleta. É o produto restante da queimada”, explica Parrington: “Tem uma vida de cerca de um mês. Carregado pelos ventos, pode viajar milhares de quilómetros.”

A Copernicus também produziu um mapa com a projecção da presença de material particulado da categoria PM10 no ar. Segundo Parrington, são “partículas ultrafinas que contribuem para problemas com a qualidade do ar e problemas respiratórios”.

São, por exemplo sal do mar ou partículas de fumaça. Nesse caso, diz ele, podemos assumir que se trata de partículas de fumaça.

A partir dos seus satélites, a NASA mostra “anomalias térmicas” e incêndios no mundo. As anomalias térmicas podem indicar um incêndio ou “qualquer fonte de calor significativa”, segundo a agência espacial americana.

Os dados utilizam um algoritmo, de acordo com a NASA, que analisa fortes emissões de radiação infravermelha de anomalias térmicas e incêndios.

“Esses incêndios não se podem esconder”, diz um texto no site da NASA: “Até nos cantos mais remotos do globo, os seus sinais de calor podem ser detectados por sensores de satélites que observam a Terra.”

Segundo a NASA, entre 15 e 22 de Julho, a plataforma de monitoramento de incêndios Global Forest Watch Fires, que utiliza dados da agência, enviou 178.484 alertas de incêndio para os seus assinantes na Rússia, 136.087 alertas para os assinantes da República Democrático do Congo e 109.512 alertas para os assinantes de Angola.

Folha 8 com BBC

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