A UNITA, maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista em Angola, considerou hoje que 53 anos após a sua fundação, os objectivos continuam válidos, face à necessidade urgente de “mudanças políticas profundas para a dignificação dos angolanos”.

Para melhor entendimento da tese da UNITA refira-se que, desde sempre, a sua definição de angolano nunca coincidiu com a do MPLA. Há, portanto, um diferendo de base entre os dois partidos, razão pela qual (por exemplo) Kundi Paihama, antigo ministro e dirigente do partido de João Lourenço, sempre disse que em Angola existiam duas espécies de pessoas, os angolanos e os kwachas.

Numa declaração alusiva aos 53 anos de fundação da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que hoje se assinala, o partido refere que os cinco pilares fundamentais da sua criação, “Projecto de Muangai”, é “actual e adaptável ao contexto de uma Angola pós-independente, carente de soluções adequadas aos problemas mais básicos que assolam a sociedade angolana”.

Para o partido fundado por Jonas Savimbi, o país e os seus cidadãos “vivem ainda momentos difíceis, de frustração, angústia e desespero”, devido à “má governação que se instalou no país há 43 anos”, sem que, acusa, “se vislumbre no horizonte garantias de se reverter o quadro calamitoso”.

“Ao celebrar o seu 53.º aniversário, neste ano da consagração da memória do Dr. Jonas Malheiro Savimbi, que coincide com a realização das suas exéquias, a UNITA reitera a sua firme vontade de continuar a pugnar pelos seus ideais e pela defesa intransigente dos interesses dos angolanos, sem discriminação de qualquer índole”, refere a declaração.

A Direcção do partido reafirmou “o compromisso para dar a sua contribuição aos esforços que visam a consolidação da paz, da unidade, da reconciliação nacional e da construção de um Estado verdadeiramente democrático em Angola”.

“Reitera a firme vontade e determinação de contribuir por todos os meios ao seu alcance para a implementação das autarquias locais em todos os municípios, em obediência aos princípios do gradualismo funcional, contribuindo deste modo para o fim das assimetrias que têm marcado profundamente a gestão do actual executivo e abrir assim caminho para o desenvolvimento social e económico sustentado, harmonioso e equilibrado”, lê-se na declaração.

Uma já longa história

A 13 de Março de 1966, um grupo de nacionalistas liderado por Jonas Malheiro Savimbi, começou a escrever uma importante parte da história de Angola. Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai?

Os angolanos crêem que pouco, ou nada, adianta hoje continuar a defender que a UNITA deve ser salva pela crítica e não assassinada pelo elogio. Apesar disso, muitos ainda têm um compromisso moral com o que Jonas Savimbi disse, em 1975, no Huambo: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”. Por isso…

Foi no Muangai, Província do Moxico. Daí saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Resultaram também a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; a busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; a liberdade, a democracia, a justiça social, a solidariedade e a ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

Alguém se lembra de que, como estão as coisas, nunca será resgatado o compromisso de Muangai firmado em 13 de Março de 1966?

A UNITA mostrou até agora, é verdade, que sabe o que é a democracia e adoptou-a definitivamente. Tê-lo-á feito de forma consciente? Restam algumas (muitas) dúvidas, sobretudo depois das manipulações e vigarices eleitorais de que foi vítima, que já não esteja arrependida.

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar, continuam estar, um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. E de que lhe valeu isso?

Depois da hecatombe eleitoral, provocada também pela ingenuidade da UNITA acreditar que Angola caminhava para a democracia, Samakuva alterou os jogadores, a forma de jogar e promete, continua a prometer, melhores resultados.

Crê-se, contudo, que o líder da UNITA conseguiu juntar alguns bons jogadores mas esqueceu-se que não bastam bons jogadores para fazer uma boa equipa.

Muitos desses craques não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo, e passaram os últimos anos a bloquear iniciativas válidas só porque partiam de outras pessoas. Ou seja, olharam para o mensageiro e não para a mensagem. Habituaram-se à lagosta e esqueceram a mandioca.

O mundo ocidental esteve, mais uma vez, de olhos fechados para o enorme exemplo que a UNITA deu. Em 2003, abriu bem os olhos porque esperava o fim do partido. Isso não aconteceu.

Agora estamos a ver que ao Ocidente basta uma UNITA com alguma relativa, mas não preocupante, expressão eleitoral para dar um ar democrático à ditadura do MPLA. Aliás, por alguma razão o Ocidente nunca reagiu às vigarices, às fraudes protagonizadas pelo MPLA. E não reagiu porque não lhe interessa que a democracia funcione em Angola. É sempre mais fácil negociar com as ditaduras.

Folha 8 com Lusa

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