A política é como a madrasta fingida. As palavras proferidas pelo deputado à Assembleia Nacional, Dr. Manuel David Mendes, durante a discussão da proposta da Lei de Base das Privatizações tiveram um efeito de discórdia dentro da cúpula do partido do “Galo Negro”.

Por Pedro Neto (*)

Não é de surpreender a demarcação do maior partido da oposição. Era de se esperar. O deputado independente pela bancada da UNITA, ao declarar: “estar fartos dos Portugueses em Angola”, atingiu almas. Almas que não pretendem provocar outro “irritante” com os Tugas, porque pretendem manter as relações do passado viva, e para “separar o joio do trigo”, o líder da bancada parlamentar da UNITA, Eng. Adalberto da Costa Júnior, afirmou: “… as declarações [do deputado David Mendes], não vinculam o partido”.

De igual modo, a cúpula da UNITA classificou a afirmação do deputado Independente da sua bancada parlamentar: “como um deslize”, lamentando “profundamente” as suas declarações.” Haja estômago para podermos digerir o “embrolho”.

Sinceramente, atónito fiquei com a postura do partido do “Galo Negro”. Não entendo o porquê de tanto alarde. Na minha humilde opinião o deputado Dr. David Mendes simplesmente expressou o seu ponto de vista. Apontou o dedo de forma clara. Mostrou que não tem medo de dizer o que pensa. Portanto, devemos respeitar a sua opinião, mesmo que não concordamos com ela. Acredito eu, que o deputado David Mendes é um político consciente e que conhece o seu papel de representante do povo.

Durante anos lutamos pela liberdade de expressão, porém os cidadãos que outrora criticavam a falta dela, hoje tornaram-se os “carrascos” do pensamento livre (?!). Que ironia do destino. Crescemos escutando o malogrado ex-Líder fundador da UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi, proclamar: “Primeiro o angolano; segundo o angolano; terceiro o angolano… e depois o resto.”

Será que estás palavras pronunciadas, vezes sem conta, eram simplesmente usadas para fins propagandístico ou em realidade era um dos verdadeiros sonho do finado político em transformar a nossa Angola, num país melhor para os Angolanos (?!)

Senhores, não é minha intenção, criar fantasmas, mas, a pulga atrás da orelha, está a arder. O meu sentimento pela pátria mãe falou mais alto. Perguntou-me se a demarcação da cúpula da UNITA tem realmente a ver com o suposto “deslize” do deputado David Mendes, ou, é desejo oculto de não ver beliscado as velhas ligações com a elite burguesa Portuguesa?

Que eu saiba, o partido do “Galo Negro” tem mantido estreitos laços de amizade com a classe dominante Portuguesa desde os tempos primórdios da luta de libertação. A mesma elite que durante a guerra fria apoiou o conflito armado entre irmãos desavindos – onde milhares de angolanos perderam a vida; o tecido social da nossa martirizada pátria, Angola ficou destruída, e esteve sempre de olhos voltados nas nossas riquezas. Não é à toa que a família Mário Soares e companhia limitada, estiveram sempre ao lado da UNITA. A nossa riqueza lhes é tão apetecível, tanto quanto, a ganância e avareza dos marimbondos ou kissondes (?!), que durante dezenas de anos assaltaram os cofres do Estado.

Diz um dito popular que: “Não há fumo sem fogo”. A pergunta é: Porque é que as palavras do deputado David Mendes incomodaram a cúpula da UNITA?! Será que não pretendem comprometer a velha amizade com os parceiros da elite burguesa Portuguesa?

Não obstante, o líder parlamentar da bancada da UNITA, Eng. Adalberto da Costa Júnior, ter justificado a demarcação, ao afirmar: “… Temos uma comunidade angolana muito vasta em Portugal e não devemos ser nós a tomar iniciativas em Portugal e noutros países. Tivemos uma longa guerra, onde os angolanos tiveram de ir buscar hospitalidade em muito países, vizinhos longínquos, pelo que o exemplo de tolerância e de respeito deve ser algo que nós próprios devemos assumir em primeiro lugar. Portanto, lamentamos.”

Ainda, assim, continuo com um pé atrás e outro à frente. Na política há vícios e jogos antigos. Será que a nova cúpula da UNITA, está a trair os valores outrora defendidos pelo seu líder fundador, Dr. Jonas Malheiro Savimbi?

É também verdade que existem milhares de compatriotas nossos e de outros países africanos de expressão Portuguesa na diáspora em Portugal, assim, como a diáspora Portuguesa no mundo afora, particularmente no Reino Unido da Grã-Bretanha.

Agora eu pergunto: Será que os angolanos residentes em Portugal são tratados pelo governo Português com a mesma dignidade que o governo Angolano, trata os expatriados Portugueses em Angola? Será que os mesmos Angolanos na terra de Camões adquiriram as mesmas condições de habitabilidade que os Portugueses desfrutam no nosso solo pátrio? Será que eles controlam o mercado Português? Será que ocupam altos cargos nas empresas privadas e públicas Portuguesas? Será que ganham salários astronómicos ou são donos de estabelecimentos comerciais? Será que possuem mansões, resorts e hotéis de luxo? Será que a diáspora Portuguesa noutros países beneficia de oportunidades como em Angola?

Eu estou em condições de dizer que não, assim como estou também em condições de afirmar que os Portugueses, por exemplo, no Reino Unido, aceitam limpar casas de banhos e a lavar pratos quando na nossa terra se recusam. Porquê? Até mesmo os nossos irmãos Angolanos com formação académicas não têm os mesmos privilégios em Portugal como os Tugas em Angola.

O líder parlamentar da bancada da UNITA, Eng. Adalberto da Costa Júnior, melhor que ninguém conhece as tribulações que os nossos irmãos Angolanos enfrentam dia-a-dia na pátria de Camões. Realidade diferente que os expatriados Portugueses vivem em Angola. O angolano é marginalizado no tão proclamado “país irmão”.

Nós somos tolerantes para com os Portugueses na nossa terra. Algo que falta aos Portugueses quando se trata da nossa presença em terras Lusitanas.

Senhor, líder da bancada parlamentar da UNITA, Eng. Adalberto da Costa Júnior, atrevo-me a lhe dizer que existe um mar de diferença entre os residentes Portugueses e Angolanos. Em Angola, os Tugas lhes são concedidas oportunidades para o enriquecimento: em pouco tempo, tornam-se proprietários de grandes empresas e até do ar que nos respiramos, por assim dizer, e os nossos irmãos, na diáspora Portuguesa, são mão-de-obra barata. Na nossa terra, até o Português analfabeto funcional, torna-se, no abrir do olho, homem importante; recusa fazer trabalho de limpeza ou de servente de obra.

A verdade é que, em parte concordo com o deputado, Dr. Manuel David Mendes. Nada tenho contra os Portugueses, mas, é necessário que se reveja o procedimento do governo angolano em relação ao tratamento dos Portugueses em Angola, enquanto os nossos irmãos não são tratados da mesma forma pelo governo Português.

A atitude do partido do “Galo Negro”, faz-me lembrar práticas levadas a cabo durante a presidência do Eng. José Eduardo dos Santos, o “Arquitecto da Paz”, esconder, ou seja, deixar de dizer a verdade. A liberdade de expressão não existia.

Quiçá, a posição dos “Maninhos” ao demarcarem-se das afirmações do deputado Dr. David Mendes, é manter-se afastados de pronunciamentos que possam azedar, ou beliscar a velha aliança com a elite burguesa Portuguesa. Às vezes, os interesses económicos e políticos falam muito mais alto. Como diz um velho amigo e contemporâneo: “A política é um jogo sujo. Vale tudo.”

É preciso que a bancada parlamentar da UNITA abrace a liberdade de expressão. A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia; é um dos direitos fundamentais do direito humano: direito de todo qualquer indivíduo de manifestar seu pensamento ou sua opinião.

A política é um jogo sujo. Vale tudo.” É preciso que a bancada parlamentar da UNITA abrace a liberdade de expressão.
A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia; é um dos direitos fundamentais do direito humano: direito de todo qualquer individuo de manifestar seu pensamento, opinião, actividade intelectual, artística, cientifica e de comunicação, sem censura.

(*) Mestre em Segurança e Alterações Climáticas

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