O príncipe Harry declarou-se hoje “honrado” ao refazer os passos da mãe, no hospital para as vítimas de minas, no Huambo, que a princesa de Gales visitou em 1997 e que foi hoje rebaptizado como “Centro Ortopédico Princesa Diana”.

O duque de Sussex, que chegou ao hospital depois de ter estado num outro local icónico da visita de Diana, uma antiga estrada minada hoje conhecida como rua 28 de Maio, descerrou uma placa com a nova designação do centro.

Na curta visita ao local, Harry passou pelo ginásio, ala pediátrica e oficinas onde são feitas as próteses adaptadas às vítimas de minas, parando para cumprimentar algumas entre as quais Justina Ngoi César, a menina amputada que conheceu Diana aos 15 anos e é hoje uma mulher de 37.

À saída, o príncipe focou o quanto a visita foi para si “profundamente pessoal e significativa” e voltou a destacar a transformação visível do Huambo desde a visita da mãe à cidade.

“Quando ela visitou este centro, durante o conflito, estava cheio de mulheres, homens e até crianças feridas por minas terrestres. Sei que se ela estivesse aqui hoje ficaria encantada por ver que este centro se tornou um líder global em reabilitação ortopédica no meio de uma comunidade vibrante e próspera”, referiu Harry, elogiando “o nível extraordinário de atendimento prestado pelo centro”. O príncipe declarou ser “uma honra” refazer hoje os passos da mãe.

“Eu perdi-a há 22 anos, mas a memória dela está comigo diariamente e o seu legado continua vivo e é por isso que estou tão feliz em nomear este centro `Centro Ortopédico Princesa Dina`”, regozijou-se.

Explicou ainda que, com a sua visita, espera “aumentar a consciencialização em todo o mundo” para dois objectivos da desminagem: “tornar o quotidiano dos angolanos seguro e construir comunidades dinâmicas e prósperas” e “proteger e preservar a rica diversidade da fauna e flora que existe no país”.

O duque de Sussex iniciou no Dirico, na província do Cuando Cubango, a sua deslocação a Angola para apoiar à desminagem, visitando um projecto da ONG britânica Halo Trust que visa limpar campos nos parques naturais de Mavinga e Luengue-Luiana, na bacia do rio Okavango, no qual o governo angolano vai investir 60 milhões de dólares.

“Todo este trabalho contribuirá para que Angola alcance o seu objectivo de ser livre do impacto das minas até 2025, garantindo assim um futuro melhor e mais próspero para o seu povo e o seu ambiente”, disse.

Harry assinalou depois a ocasião entregando uma placa comemorativa à ministra de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira.

A vinda do membro da família real foi saudada por algumas centenas de populares que se concentraram em frente ao hospital, agora requalificado, e que se apresentou a Harry “de cara lavada”.

As minas da (nossa) vergonha

O texto que se segue foi publicado pelo Folha 8 em Abril de 2008. Mais do que nunca justifica-se a sua republicação com o mesmo título: “As minas da (nossa) vergonha”:

«As Nações Unidas avaliam em 11,8 milhões de dólares (7,5 milhões de euros) a verba necessária este ano para os trabalhos de erradicação das minas terrestres nos três países lusófonos ainda afectados – Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.

Os casos mais complicados, segundo o último relatório do Serviço das Nações Unidas para Acção contra as Minas, registam-se em províncias angolanas como o Cuando-Cubango, onde cerca de 400 mil pessoas vivem em zonas afectadas, e Moxico, onde se registam mais acidentes do género em Angola, um dos países em destaque nos eventos que assinalaram o Dia Internacional de Sensibilização para o Perigo das Minas e Assistência à Acção Antiminas.

“Angola é considerado um dos países mais minados de África, resultado de 30 anos de guerra civil”, que terminou apenas há seis anos, refere o relatório divulgado no final de 2007, que estima em 8,36 milhões de dólares o envelope necessário ao financiamento dos trabalhos.

Só neste país, foram identificadas quase duas mil comunidades, em 18 províncias de Cabinda a Luanda e ao Namibe, afectadas pelo problema das minas.

O número de vítimas situa-se entre 300 e 400 anualmente, cerca de cinco por cento o total mundial (6.000) no ano passado.

Na Guiné-Bissau, as origens do problema confundem-se com as da Guerra Colonial (1963), e este foi agravado pela guerra civil (1998-1999) e pelo conflito de Casamança, no sul do Senegal, com a agravante da maior contaminação de solos se registar em áreas agrícolas.

“Cerca de 480 mil metros quadrados de terras foram `limpos´ até Julho de 2007, sobretudo para uso agrícola, mas também para fins residenciais”, refere o relatório das Nações Unidas.

Na Guiné, a verba necessária para os projectos de desminagem é estimada em 2,4 milhões de dólares, mais do dobro do orçado para Moçambique (um milhão de dólares), onde os progressos são mais considerados significativos.

Nos últimos três anos, um programa em que participou a ONG britânica HALO Trust (MIFD) permitiu “a limpeza de todas as áreas minadas conhecidas nas quatro províncias do norte”, cerca de 51 por cento do território moçambicano.

Em 2006 registaram-se 18 acidentes com minas e outro tipo de engenhos explosivos em Moçambique, que causaram 35 vítimas, das quais 19 mortais – 8 homens, uma mulher e dez crianças.

“Os resultados preliminares indicam uma redução significativa da área contaminada relativamente aos 160 quilómetros quadrados registados em 2006”, para perto de 40 quilómetros quadrados, “um número que se espera que continue a recuar” até que esteja completo o trabalho de avaliação em curso, refere o relatório das Nações Unidas.

De 26 mil em 1997, o número de vítimas de acidentes do género caiu para 6 mil, segundo os últimos dados das Nações Unidas – uma redução de 75 por cento.

Ainda assim, os trabalhos em curso em todo o mundo implicam um esforço financeiro de cerca de 400 milhões de dólares, segundo as Nações Unidas.

Para sensibilizar a opinião pública mundial, o Dia Internacional do tema é assinalado em pelo menos 15 países.

Em Nova Iorque, Estados Unidos, está patente a exposição de fotografias “Sobreviver à Paz e ao Terror em Grande Escala”, sobre os efeitos das minas terrestres e engenhos explosivos de guerra nas populações do Afeganistão, Angola, República Democrática do Congo, Líbano e Sudão.»

Folha 8 com Lusa

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