Angola está entre os 13 países africanos onde o vírus vivo atenuado pela vacina oral da poliomielite se reproduz nos intestinos, é excretado nas fezes para o ambiente e as crianças que não são imunizadas podem infectar-se, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Num comunicado da Organização Mundial de Saúde (OMS), a agência das Nações Unidas reafirma o seu apoio aos esforços do Governo angolano para acabar com um surto de poliomielite, que afecta o país desde Maio deste ano.

A OMS sublinha que a poliomielite é uma doença viral, que é transmitida de pessoa para pessoa, principalmente através da via fecal-oral, pela água ou alimentos contaminados.

Segundo a OMS, África tem vindo a enfrentar em 13 países, incluindo Angola, surtos de um vírus da poliomielite tipo 2 (cVDPV-2).

A nota realça que os poliovírus derivados de vacinas são raros, mas são por vezes encontrados em populações que vivem em áreas com saneamento inadequado e baixos níveis de imunização contra a poliomielite.

Nesse sentido, a OMS apela às autoridades sanitárias de Angola, que continuam a implementar resposta ao surto de poliomielite, seguindo as directrizes acordadas internacionalmente, incluindo o reforço da vigilância para detectar rapidamente outros casos, que para o sucesso desse esforço sejam envolvidas as autoridades governamentais a todos os níveis, a sociedade civil e a população em geral, assegurando assim a imunização de todas as crianças menores de cinco anos.

O surto de poliomielite já afectou, desde Maio, 49 crianças, tendo o Ministério da Saúde procedido já à vacinação de 4,5 milhões de crianças, em 15 das 18 províncias do país.

O representante da OMS em Angola, Hernando Agudelo, citado no comunicado, apontou a necessidade de sensibilização das famílias e comunidades para a necessidade de se vacinar todas as crianças, além de se preciso reforçar a vigilância das doenças e o sistema de vacinação de rotina para detectar, prevenir e responder rapidamente a qualquer transmissão da doença.

“Tendo em conta os desafios que Angola enfrenta para garantir a imunização de todas as crianças, temos de permanecer resilientes nos nossos esforços e vigilância epidemiológica, para que nenhuma criança seja deixada para trás com o risco de contrair paralisia”, disse Hernando Agudelo.

O comunicado explica relativamente à contaminação pelo vírus atenuado pela vacina oral da poliomielite excretado nas fezes, que se ocorrer a sua circulação prolongada em muitas crianças, devido à baixa cobertura de vacinação contra a pólio, o vírus em cada replicação sofre mutações.

“Os vírus mutantes (que sofrem alterações) são transmitidos às populações susceptíveis (crianças não vacinadas), levando ao surgimento do denominado poliovírus derivado de vacina, que pode circular nas comunidades com baixa cobertura vacinal, causando eventualmente paralisia”, refere o comunicado.

A experiência mundial indica, realça a OMS no documento, que a única maneira de se interromper a circulação deste vírus derivado da vacina é através da implementação de duas ou mais rondas de campanhas de vacinação, utilizando a vacina pólio oral do mesmo serotipo que o vírus circulante.

“Em Angola, foi confirmado laboratorialmente a circulação do vírus tipo 2 e está a ser utilizada a vacina pólio oral monovalente tipo 2. O poliovírus derivado da vacina não é um efeito adverso pós-vacinação, nem depende da qualidade da vacina, mas sim um evento que acontece quando há uma baixa cobertura vacinal contra a poliomielite na comunidade”, lê-se no comunicado.

Os países que registam surtos de poliovírus de vacinas em África são Angola, Benim, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Etiópia, Gana, Níger, Nigéria, Togo e Zâmbia.

“Estes países enfrentam desafios para impedir a circulação do vírus que incluem a fraca cobertura de vacinação de rotina, a recusa de vacinas, o difícil acesso a serviços de saúde. Estes países precisam, portanto, assegurar campanhas de vacinação de boa qualidade para garantir a imunização de todas as crianças”, refere-se na nota.

No início de 2017 os chefes de Estado de toda a África aprovaram a Declaração de Adis Abeba sobre a imunização, também conhecida como Declaração Ministerial sobre o Acesso Universal à Imunização, uma promessa histórica e oportuna para garantir que toda a gente em África – independentemente da sua origem e do lugar onde vive – receba todos os benefícios da imunização.

Embora a África tenha registado ganhos impressionantes nos últimos 15 anos em termos do aumento do acesso à imunização, os progressos estagnaram e o continente está a ficar para trás na realização das metas globais de imunização. Uma em cada cinco crianças em África ainda não recebeu as vacinas básicas que salvam vidas e, assim, as doenças evitáveis com vacinas continuam a ceifar muitas vidas. Só o sarampo é responsável, anualmente, por aproximadamente 61 000 mortes evitáveis na Região Africana.

“Sabemos que o acesso universal à imunização é exequível”, indicou a Presidente cessante da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma. “A Declaração de Adis Abeba sobre a Imunização é uma promessa histórica. Com vontade política aos mais altos níveis, estamos mais perto do que nunca a garantir que todas as crianças em África tenham as mesmas oportunidades a uma vida saudável e produtiva”, disse.

A Declaração sobre a imunização solicita aos países que aumentem os investimentos políticos e financeiros nos seus programas de imunização. Inclui 10 compromissos, nomeadamente aumentar o financiamento relacionado com as vacinas, reforçar as cadeias de aprovisionamento e os sistemas de distribuição e fazer do acesso universal às vacinas um pilar fundamental dos esforços da saúde e do desenvolvimento.

“As vacinas estão entre os instrumentos mais eficazes de saúde pública disponíveis”, disse Matshidiso Moeti, Directora Regional da OMS para a África: “Quando as crianças começam a crescer saudáveis, as comunidades prosperam e as economias crescem mais. Esta demonstração de apoio dos Chefes de Estado é um passo importante na prossecução dos nossos esforços para alcançar o acesso universal à imunização e, em última análise, melhorar a saúde das crianças e promover o desenvolvimento sustentável em toda a África”.

Cerca de 15 países africanos financiam mais de 50% dos seus programas nacionais de imunização. À medida que África caminha para a erradicação da poliomielite, prevê-se que haja uma diminuição do importante financiamento da imunização através do programa de erradicação da poliomielite. Além disso, os países que estão a transitar para o estatuto de rendimento médio, ficarão privados do apoio do GAVI – parceria público-privada criada para melhorar o acesso às vacinas em países pobres – para a imunização nos próximos anos. Por conseguinte, os governos devem redobrar esforços no sentido de fazerem da cobertura universal da imunização uma prioridade nacional.

“Enquanto houver uma criança em África que não tenha acesso à imunização, o nosso trabalho permanece inacabado”, disse Ala Alwan, Director Regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental: “Com a combinação certa de vontade política, recursos financeiros e competência técnica, a África pode – e deve – enfrentar as doenças evitáveis com vacinas em todo o continente”.

Com lideranças e investimentos fortes, o aumento do acesso à imunização é exequível. Por exemplo, em 2010, a Etiópia construiu 16 000 novos centros de saúde, comprou 2 000 frigoríficos alimentados a energia solar para o armazenamento de vacinas e criou uma rede de milhões de agentes e voluntários de saúde ao nível comunitário para aumentar o acesso à imunização em todo o país. Desde que estes investimentos foram feitos, a Etiópia registou ganhos extraordinários, com taxas de imunização que passaram de 61% em 2010, para 86% em 2015.

“A imunização é um dos investimentos mais inteligentes que um país pode fazer no seu futuro”, afirmou o Yifru Bernham Mitke, Ministro da Saúde da Etiópia: “Devemos fazer mais para proteger todas as nossas crianças das doenças evitáveis – não apenas porque é isso que está correcto mas também porque faz sentido economicamente. Se as nossas crianças forem saudáveis, as nossas famílias, as nossas comunidades e os nossos países prosperam”.

A Declaração sobre a Imunização foi assinada pelos Ministros da Saúde e outros ministros sectoriais na Conferência Ministerial sobre a Imunização em África (CMIA), em Fevereiro de 2016 em Adis Abeba. A CMIA foi a primeira reunião de sempre, a nível ministerial, organizada com o principal objectivo de garantir que as crianças em todo o continente possam ter acesso a vacinas que salvam vidas.

“Os líderes africanos estão a demonstrar uma extraordinária liderança aprovando este compromisso histórico que permitirá que mais crianças africanas recebam vacinas que salvam vidas independentemente do lugar onde vivem”, afirmou Ngozi Okonjo-Iweala, Presidente da GAVI, Aliança Mundial de Vacinas: “Devemos agora garantir que os compromissos sejam traduzidos em financiamentos sustentáveis para a imunização. A GAVI está disposta a apoiar os esforços dos países africanos a implementar abordagens equitativas de saúde e a manter uma forte cobertura de imunização a fim de que juntos possamos criar um futuro mais próspero para as comunidades em todo o nosso continente”.

Folha 8 com Lusa

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