Ferro Rodrigues, o presidente socialista do Parlamento português, tal como já antes fizera Jaime Gama, enalteceu hoje – só faltou (ao que parece) pôr-se de joelhos – em Luanda, o papel “fundamental” de António Agostinho Neto, não só na luta pela independência de Angola, mas também na mudança de regime em Portugal, protagonizada em 1974. No calendário dos socialistas (mas não só) lusos, não consta o dia 27 de Maio de 1977. E, ao fim e ao cabo, se Marcelo é o bajulador dos bajuladores, Ferro Rodrigues tem o mesmo direito.

Por Orlando Castro (*)

“C onvém não esquecer que Agostinho Neto teve um papel fundamental não apenas na libertação de Angola, mas também no 25 de Abril [de 1974] português e a quem, de certa maneira, também devemos a nossa liberdade e a nossa democracia”, afirmou Eduardo Ferro Rodrigues. Lamentavelmente esqueceu-se de falar do contributo do genocida responsável pelos massacres do 27 de Maio de 1977 na libertação da Alemanha do jugo Nazi, no fim da escravatura, nas negociações com Diogo Cão e na descoberta do caminho marítimo para o Huambo.

O presidente da Assembleia da República de Portugal, que terminou hoje a parte oficial da visita de bajulação de dois dias a Angola, falava aos jornalistas no final de visitas, primeiro, ao Memorial António Agostinho Neto e, depois, ao Museu da História Militar de Angola.

Agostinho Neto foi um dos principais do MPLA, de que foi líder e que combateu o regime colonialista até à independência angolana, em 11 de Novembro de 1975, tendo sido o primeiro Presidente do então novo país até 1979, quando morreu. Foi igualmente o responsável pelos massacres de milhares e milhares de angolanos do MPLA em 27 de Maio de 1977.

Questionado pela agência Lusa sobre o que ficou definido nas conversações oficiais mantidas na sexta-feira com a contraparte angolana, liderada pelo presidente da Assembleia Nacional de Angola, Fernando da Piedade Dias dos Santos (“Nandó”), Ferro Rodrigues destacou o reforço da cooperação política bilateral.

“O que é fundamental é que, na reunião entre as duas delegações parlamentares, chegou-se à conclusão que, mais importante do que aumentar a componente técnica do protocolo [de cooperação] entre o Parlamento português e angolano, é passar a uma componente política”, explicou.

Ferro Rodrigues, no que é acompanhado pelos políticos portugueses de todos (ou quase) os partidos, tem razão em querer dar uma ajuda ao reforço da tese do partido no poder desde 1975, e irmão do PS na Internacional Socialista, de que o “MPLA é Angola e Angola é o MPLA”.

“[Tem de] haver um conjunto de acções de natureza mais política que una mais vezes os deputados de ambos os países. É muito importante porque é um salto quantitativo muito grande na cooperação entre os dois parlamentos”, acrescentou.

Instado sobre em que se traduz essa “componente política”, Ferro Rodrigues falou de “várias realizações comuns”.

“Participações comuns em reuniões internacionais, acertar posições convergentes e termos uma agenda de realizações políticas para os próximos anos que impliquem os dois parlamentos, o que é muito importante”, acrescentou.

Salientando o “acolhimento extraordinário” de que tem sido alvo por parte das autoridades angolanas desde que chegou, na quinta-feira, a Luanda, Ferro Rodrigues indicou estar a aguardar pela confirmação de uma audiência com o Presidente de Angola, João Lourenço, actualmente de férias em Cuba, após uma visita de Estado.

“Espero ser recebido pelo Presidente de Angola [prevê-se que regresse no domingo a Luanda], mas espero ser recebido na segunda-feira e, depois [terça-feira], temos a cimeira da CPLP [a IX Assembleia Parlamentar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] em que estarei cá no primeiro dia, no ato de abertura”, afirmou.

A assembleia parlamentar da CPLP, que decorre de terça a quinta-feira em Luanda, é, aliás, a segunda parte da visita de Ferro Rodrigues a Luanda, estando igualmente previsto que, na segunda-feira, o presidente do parlamento português se reúna com o governador Provincial de Luanda, Sérgio Luther Rescova Joaquim.

Manifestando-se “impressionado” com o Museu de História Militar de Angola, Ferro Rodrigues salientou a importância do local, em plena Fortaleza de São Miguel, “que tem uma vista extraordinária” para a “cidade linda que é Luanda”.

“Também pudemos observar a evolução de Angola, desde o momento em que cá chegou Diogo Cão, à reconquista, por Salvador Correia de Sá, aquando da ocupação holandesa, até aos momentos actuais e até a uma participação, neste museu, das três forças que tiveram a responsabilidade de, muitas vezes, em oposição umas às outras, combaterem o colonialismo, o MPLA, FNLA [Frente Nacional para a Libertação de Angola] e UNITA [União Nacional para a Independência Total de Angola]” referiu.

“Este é um museu que exprime uma verdade histórica objectiva e que, de certa maneira, é uma homenagem histórica a Portugal, com tudo o que teve de bom, a participação portuguesa na construção destas terras, e com tudo o que teve de mau”, acrescentou.

A título pessoal, Ferro Rodrigues lamentou desconhecer o bairro de Luanda onde o pai nasceu, em 1924, para o poder visitar, indicando que as autoridades angolanas lhe prometeram confirmar o local em que foi baptizado junto das principais igrejas que então existiam na capital angolana.

“A única coisa que tenho pena é de não ter conseguido em Lisboa saber exactamente qual o bairro em que o meu pai nasceu em 1924. Sei que é muito difícil, mas sei que foi baptizado aqui numa das principais igrejas da capital e já me prometeram que iam tentar ver nos assentos de baptismo se aparece esse documento”, concluiu.

De Marcelo a Ferro Rodrigues

O chefe de Estado português elogiou, elogia e elogiará o “projecto de paz, de democracia, de regeneração financeira, de desenvolvimento económico, de combate à corrupção” protagonizado pelo Presidente João Lourenço. Se o MPLA dizia que José Eduardo dos Santos era o “escolhido de Deus”, Marcelo Rebelo de Sousa diz que João Lourenço é o próprio… “Deus”. Ferro Rodrigues assina por baixo,

Numa intervenção durante um jantar oficial oferecido por João Lourenço, no Palácio Presidencial, em Luanda, Marcelo Rebelo de Sousa saudou-o como “o vulto cimeiro de um novo tempo angolano”. Não se terá lembrado de o propor para um Prémio Nobel, mas se calhar era altura de Ferro Rodrigues corrigir essa falha.

“Vossa excelência protagoniza-o com um projecto de paz, de democracia, de regeneração financeira, de desenvolvimento económico, de combate à corrupção, de afirmação regional e mundial. Nós, portugueses, seguimos com empenho essa aposta de modernização, de transparência, de abertura, de inovação, de acrescida ambição”, afirmou Marcelo, bem ao estilo dos sipaios coloniais, mas com uma substancial diferença. Estes eram obrigados a bajular, o presidente português não é obrigado a isso. Ou será que é? O Presidente da Assembleia da República não é obrigado a bajular. Ou será que é?

Segundo o Presidente (da República) português, João Lourenço protagoniza “um novo tempo angolano, na lúcida, consistente e corajosa determinação de aproveitar do passado o que se mantém vivo, mas, sobretudo, entender o que importa renovar para tornar o futuro mais possível, mais ambicioso e mais feliz para todos os angolanos”.

Bem dizia Eça de Queiroz, provavelmente antecipando a pequenez intelectual de um tal Marcelo e Ferro Rodrigues, que “os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão”.

Vejamos, por exemplo, o que disse Guerra Junqueiro, num retrato preciso e assertivo de Marcelo Rebelo de Sousa, de Ferro Rodrigues e de grande parte dos seus cidadãos:

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar”.

Continuemos, para memória futura, com o brilhantismo bacoco de Marcelo. Disse ele que, da parte de Portugal, Angola conta com “o empenho de centenas de milhares que querem contribuir para a riqueza e a justiça social” com o seu trabalho, bem como “das empresas, a começar nas mais modestas, no investimento e no reforço do tecido socioeconómico angolano” e também com “o empenho das instituições públicas portuguesas, do Estado às autarquias locais”.

“Podem contar connosco na vossa missão renovadora e recriadora. Portugal estará sempre e cada vez mais ao lado de Angola”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, fazendo aqui e mais uma vez o exercício de passar aos angolanos um atestado de menoridade e matumbez.

Portugal, por sua vez, conta com a “incansável solidariedade” de Angola. “Contamos com os vossos trabalhadores, as vossas empresas, as vossas instituições públicas, a vossa convergência nos domínios bilateral e multilateral. Temos a certeza de que Angola estará sempre e cada vez mais ao lado de Portugal”, prosseguiu Marcelo no seu laudatório e hipócrita exercício de servilismo.

De acordo com o Presidente português, este “novo momento na vida de Angola” coincide com “um novo ciclo” nas relações bilaterais. “E nada nem ninguém nos separará, porque os nossos povos já estabeleceram o seu e o nosso caminho”, considerou Marcelo, sentindo o umbigo aos saltos, alimentado pela esperança de que os portugueses não acordem e os angolanos nunca lhe cobrem a cobardia.

“Porque estamos mesmo juntos, na parceria estratégica, na cooperação económica, financeira, educativa, científica, cultural, social e política. Porque no essencial vemos o mundo e a nossa pertença global e regional do mesmo modo, a pensar na paz, nos direitos humanos, na democracia, no direito internacional, no desenvolvimento sustentável, na correcção das desigualdades”, argumentou aquele que, em matéria de bajulação, bateu todos os recordes, desde Álvaro Cunhal a Rosa Coutinho, passando por Vasco Gonçalves, José Sócrates, António Costa, Cavaco Silva, Passos Coelho, Ferro Rodrigues e tantos outros.

No final da sua intervenção, que entrou para o “Guinness World Records” por ser o que mais bajulação fez em tão curto espaço de tempo, Marcelo Rebelo de Sousa disse que “a história faz-se e refaz-se todos os dias e nuns dias mais do que noutros”, acrescentando: “Estes que vivemos são desses dias”.

(*) Com Lusa

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