Em Portugal e quiçá em Angola e restante Europa as datas ora são designadas através das fórmulas: DD-MM-AAAA ou AAA-MM-DD em que “D” significa dia; “M” quer dizer mês; e, obviamente “A” reporta-se a ano. Nos EUA claro que tinham de ser diferentes – mas pelo menos não há uma duplicidade de formulação das datas, optando-se por colocar primeiro o mês, depois o dia e por fim o ano, razão pela qual se reportam ao “11 de Setembro” como “nine eleven”.

Por Brandão de Pinho

Eu gosto do Agostinho Neto enquanto escritor, sobretudo da sua poesia, e, enquanto médico e lutador e defensor da independência de Angola subjugada ao colono por 500 anos e que teimosamente só muito depois de França e Inglaterra terem concedido independência às suas colónias é que se verificou o mesmo nas congéneres portuguesas africanas.

Mas não gosto do Agostinho Neto que deixou que lhe fizessem uma lavagem cerebral tornando-o num déspota com tiques estalinistas e castristas cuja o apogeu foi o massacre de 27 de Maio de 1977, ou o “5-27” que soa melhor do que “27-5” e do que 27 de Maio de 1977, sendo este demasiado comprido se pronunciado, e a segunda fórmula demasiado banal ao contrário da primeira que nos remete para uma tragédia das mesmas proporções do “11 de Setembro” ou “nine eleven”.

O Jornal de Angola publicou uma pretensa abordagem ao massacre do 5-27 justamente no aniversário dessa efeméride e os pobres diabos bem tentaram ser isentos e jornalistas de verdade, apregoando um clima novo de liberdade de imprensa e de expressão, mas tudo o que conseguiram foi fazer transparecer que não passam de avençados subservientes do MPLA o que lhes tolheu o discernimento e obnubilou a razão.

A coluna de opinião de Caetano Júnior do Pravda, do pretérito mês (mas que só hoje li) foi um exercício de hipocrisia e de desculpas esfarrapadas e nas entrelinhas reconheceu que não foi feito o contraditório evocando para tal todo um rol de argumentos falaciosos e descaradamente inverosímeis e confusos.

Caetano Júnior até pode escrever bem, até pode ser brilhante e inteligente, até pode ser cordial, gentil e sóbrio quando quer, mas faltam-lhe as características mais importantes para ser jornalista: isenção, liberdade e honestidade intelectual. Por isso convido o leitor a passar os olhos na sua coluna com o artigo de nome: “Ainda o 27 de Maio de 1977” de 16 de Junho.

Agostinho Neto até pode ter sido um herói, um intelectual brilhante, um político astuto e um governante competente, mas as suas influências ideológicas acabaram por vir ao de cima a 27 de Maio ou então não passava de uma marionete dos soviéticos e fazia o que lhe “mandavam”. Ambas as situações são suficientemente más para que mereça um lugar de destaque na História de Angola.

Há um conto do Eça de Queirós que retrata perfeitamente esta situação. Havia um frade mendicante austero, frugal e bondoso que só praticava o bem até que um dia a pedido de um homólogo moribundo massacra um porco deixando-o morrer exangue só para retirar uma perna para dar de comer ao moribundo já que era esse o seu último desejo antes de se finar.

Quando Deus pesou na balança as acções boas e más deste frade, o massacre do porco com requintes de crueldade, que ainda para mais não era sua pertença, foi suficiente para se lhe ser negada a entrada no Reino dos Céus.

Ora Agostinho Neto fez muito pior. O MPLA fez muito pior. A purga de 77 não tem paralelo mundial na medida em que num curto espaço de tempo as pessoas mais qualificadas e patrióticas de Angola foram eliminadas permitindo que um igual número de oportunistas bajuladores, mas incompetentes, ingressassem no seio do MPLA onde acabaram por ter responsabilidades que em última análise determinaram o atraso de Angola que hoje ainda se verifica.

A História vai-se repetindo eras depois de eras e em várias latitudes e longitudes e quando se assiste a tamanha incompetência dos quadros emepelianos e à forma como alguns foram subindo na estrutura chegando a ocupar altos cargos, lembro-me sempre da romancista gráfica, ilustradora e escritora infanto-juvenil Marjane Satrapi, unanimemente reconhecida como a 1.ª iraniana a escrever banda desenhada e que em 2001, através do seu excelente livro (que devorei mesmo não sendo fã desse género literário) Persepolis, que aliás acabou por ganhar o Prémio para a Primeira Banda Desenhada no Festival d’Angoulême (a Meca da BD).

Esse livro retrata a queda do Xá do Irão e a ascensão dos radicais islâmicos e a dada altura a autora persa verifica que o homem que no passado lhe limpava os vidros exteriores da sua casa e ao qual nunca vislumbrou lampejo algum de inteligência ou bondade, passou a ocupar uma posição poderosa na Guarda Revolucionária da Teocracia iraniana tornando-se num homem cheio de ódio e desejo de vingança, mesmo para a sua família que o ajudava a ganhar o seu pão no tempo em que o Irão não era uma ditadura religiosa apesar de ser um lacaio dos americanos e ocidentais.

Não admira que regimes extremistas encontrem condições para uma revolução quando os seus governantes são corruptos e incompetentes, excepto em Angola, claro, em que o omnipresente MPLA controla tudo, desde jornais, oposição, acesso a empregos e tudo o mais.

Com o 27 de Maio muitos insignificantes cidadãos angolanos passaram a deter algum poder e a exercer de forma tirana os cargos de que foram incumbidos e que alcançaram apenas por se terem posicionado no lado que acabou por sair vitorioso. Disto até ao enriquecimento ilícito através da corrupção foi um pequeno passo.

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