José Eduardo dos Santos foi até ontem o “escolhido de Deus”, se bem que muitos ainda pensem que ele próprio era o deus. E foi ele (ao que se diz com o apoio declarado da sua filha Isabel), quem escolheu João Lourenço para o substituir. Agora não adianta chorar, não é General Zé Maria? Ele assim quis…

Por Orlando Castro

Assegurada que sempre esteve (e estará) a vitória do MPLA em qualquer acto parecido com eleições, este MPLA é aquilo que José Eduardo dos Santos sempre quis que fosse. É claro que cada Presidente tem um estilo diferente, nada mais do que isso. Sobre a luta contra a corrupção, por exemplo, João Lourenço limita-se a prometer o que Dos Santos prometera, a dizer as mesmas coisas embora (ao menos isso!) com outras palavras.

Para um regime que tem nas suas estruturas militares o pelouro da Educação Patriótica das Forças Armadas Angolanas, não está nada mal ter sido João Lourenço o “escolhido do deus Eduardo”.

Quanto a João Lourenço, poderemos começar já a escrever a sua história, recordando desde logo que ele é “o líder de um ambicioso programa de Reconstrução Nacional”, que a “sua acção conduziu à destruição do regime de “apartheid”, que teve “um papel de primeiro plano na SADC e na CDEAO”, que “a sua influência na região do Golfo da Guiné permitiu equilíbrios políticos, tal como permitiu avanços significativos na crise de Madagáscar”. É mentira, mas a mentira faz parte do ADN do MPLA. Portanto, talvez a mentira venha um dia ser… verdade.

Recorde-se que “Angola já foi um país ocupado por forças estrangeiras” e que, “se por hipótese hoje Angola fosse a Líbia, o país estava novamente a atravessar um período de grande instabilidade e perturbação. Mas como o tempo não recua, Luanda é uma cidade livre”. Tudo graças a… JLo.

“Se Angola fosse a Líbia (e não foi graças ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus” e também ao “escolhido do deus Eduardo”) estava a ser cercada militarmente e bombardeada por uma aliança militar e submetida a todos os outros membros dessa organização bélica, que tinham escolhido para presidente de um qualquer CNT um “rapper” com nome de oxigénio, devidamente ajudado por outro com apelido de marechal”.

“Se Angola fosse a Líbia (e não foi graças ao “querido líder” e ao “escolhido do deus Eduardo”), a esta hora as grandes petrolíferas estrangeiras estavam a roubar milhões de barris de petróleo por dia de Angola, antes que a resistência dos angolanos os impedisse de continuar o roubo. E os aviões da aliança, com a carta branca da Organização das Nações Unidas, estariam a despejar bombas sobre as nossas cidades, para proteger os civis do CNT”.

“Se Angola fosse a Líbia (e não foi graças ao “querido líder” e ao “escolhido do deus Eduardo”), não havia partidos políticos nem liberdade de imprensa e muito menos eleições democráticas. A bela Constituição da República de Angola era rasgada na Praça da Independência, donde já tinham tirado o monumento a Agostinho Neto, aos gritos e com raiva para as câmaras de televisão mundiais repetirem de hora a hora de maneira interminável”.

“Se Angola fosse a Líbia (e não foi graças ao “querido líder” e ao “escolhido do deus Eduardo”), o Jornal de Angola já não circulava e os seus jornalistas não se atreveriam a escrever estas verdades porque eram logo massacrados como foram massacrados os negros em Tripoli e outras cidades líbias “libertadas” pela aliança militar”.

“Se Angola fosse a Líbia (e não é graças ao “querido líder” e ao “escolhido do deus Eduardo”), estávamos de novo a sofrer as investidas militares de regimes estrangeiros aliados a uma frente de oportunistas e intriguistas que procuram ignorar quem combateu e deu tudo pela concórdia e harmonia entre os angolanos”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, “os órgãos de comunicação social portugueses, salvo raras excepções, em vez de reflectirem a realidade portuguesa e europeia, andariam entretidos a intrometer-se na política angolana”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, ninguém diria: “Se um jornal angolano escrevesse um editorial a sugerir que o presidente Cavaco Silva não se candidatasse ao segundo mandato porque foi dez anos Primeiro-Ministro e fez mais cinco na Presidência, o alarido em Lisboa era tal que até a Ponte 25 de Abril vinha abaixo, como já caiu fragorosamente a revolução dos capitães”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, ninguém diria: “Se em Angola algum órgão de informação ousasse escrever que Alberto João Jardim não deve concorrer a um novo mandato de presidente do Governo Regional da Madeira, o alarido em Lisboa era tal que o edifício da Caixa Geral de Depósitos ruía, como está em ruínas o sistema financeiro europeu e a Zona Euro ameaça derrocada”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, ninguém diria: “O Presidente João Lourenço não governa. Ele é o líder de um povo que teve de enfrentar de armas na mão a invasão de exércitos estrangeiros e os seus aliados internos”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, ninguém diria: “João Lourenço foi o líder militar que derrubou o regime de “apartheid”, o mesmo que tinha Nelson Mandela aprisionado. João Lourenço só aceitou depor as armas quando a Namíbia e a África do Sul foram livres e os seus líderes puderam construir regimes livres e democráticos”.

Se não fosse a intervenção do “querido líder” e do “escolhido do deus Eduardo”, ninguém diria: “Os media portugueses pelo menos deviam reconhecer o que João Lourenço tem feito para que os portugueses não vão ao fundo com a crise. Eles mais do que ninguém deviam propor o seu nome para Prémio Nobel da Paz”.

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