Dezenas de cidadãos marcharam hoje, na capital de Angola, contra o racismo e em solidariedade com o activista e jornalista angolano Simão Hossi, que foi vítima de “agressão e discriminação”, num restaurante na ilha de Luanda, o “Café Del Mar”.

“N ão ao Racismo”, “O Racismo Desumaniza a Sociedade”, “O Racismo É um Sistema e Deve Ser Combatido” eram algumas das frases estampadas em cartazes empunhados pelos manifestantes, que marcharam do Largo do Baleizão, centro da capital angolana, até ao restaurante “Café Del Mar”, na ilha de Luanda.

Simão Hossi contou que o alegado acto de racismo, que considera lamentável, ocorreu a 26 de Agosto, quando decidiu, juntamente com amigos, visitar o restaurante Café Del Mar para momentos de lazer.

“A situação é lamentável, não tinha razão de existir. Chegámos ao restaurante e, logo depois, fui convidado a abandonar o local por entenderem que eu estava mal vestido, sujo, e inadequado para o local, onde muita gente também estava vestida de forma simples”, contou Hossi.

O acto de repúdio contra a “desumanização em locais sociais públicos” que decorreu hoje sob o lema “Não Ao Racismo, No Mar Contra o Del Mar”, não contou com o acompanhamento da polícia angolana, tendo a marcha decorrido com normalidade.

“Embora sem o acompanhamento da polícia nacional, marchámos contra o racismo de forma pacífica e prontos para fazer sentir as nossas vozes nesse local e em qualquer ponto do país em que se registem tais cenas”, disse à Lusa Francisco Gomes Mapanda “Dago Nível”, um dos organizadores do protesto.

Manuel Bernardo Mordomo também participou activamente na marcha de repúdio ao racismo, e garantiu, no final, que não se registaram quaisquer actos de violação ao património público.

“As coisas decorreram com ordem, sem a violabilidade dos princípios fundamentais do património público e mesmo sem o acompanhamento da polícia. Fizemos as coisas de forma ordeira, e continuamos a dizer não ao racismo”, disse.

Por sua vez, Yonene Ufolo, uma das participantes, referiu que decidiu participar na marcha para desincentivar práticas do género, uma vez que, a partir do momento que se sai de casa para um estabelecimento, “é sempre com o objectivo de ir comprar ou consumir”.

“O mano [Simão Hossi] foi destratado e a gente está nessa causa para desincentivar essa prática, porque ontem aconteceu com o Hossi e amanhã poderá acontecer com uma outra pessoa”, sustentou.

Defronte ao restaurante, vários participantes, entre eles Simão Hossi, apresentaram depoimentos em que defenderam que o racismo “é um facto no país, mas ignorado por muita gente e, inclusive, pelas autoridades angolanas”.

Já Dito Dali, membro da organização da marcha, “lamentou a ausência da protecção da polícia angolana”, mas deu nota positiva ao protesto, que serviu para “demonstrar o descontentamento e condenar actos racistas”.

“E não atacar as pessoas em função da sua condição social, económica ou pela cor da pele. Estamos, aqui, defronte ao restaurante para condenar tal postura. O que queremos é ter um país em que todo o cidadão, não importa a raça ou etnia, se sinta à vontade”, adiantou.

“É preciso respeitar a diversidade e não nos insurgimos com qualquer cidadão ou com o corpo de segurança do restaurante”, concluiu.

Em função do protesto, em nota de esclarecimento, a gerência do Café Del Mar refutou as acusações, e insistiu que Simão Hossi estava “trajado de maneira desadequada e inaceitável, contrariamente às normas de decoro e de apresentação do restaurante”.

“O referido individuo estava trajado de maneira desadequada e inaceitável (calças sujas, camisola rasgada, chinelos em péssimas condições e aparente falta de higiene), contrariamente aos seus companheiros, que foram acompanhados pela recepcionista”, lê-se.

Para a gerência do restaurante, “as acusações de agressões são infundadas”, recordando que, “em qualquer instituição, pública ou privada, as regras de decoro e apresentação devem ser cumpridas por todos os frequentadores”.

Lusa

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