As coisas são relativas. A função de um órgão de comunicação social com um estatuto editorial de comprometimento com a verdade e como tal impelido de alguma forma para a oposição -não uma oposição partidária específica, mas uma oposição genérica e sem distinção de forças políticas – obrigando-o, inevitavelmente, a extremar posições, é cumprir o seu estatuto editorial apesar de ser uma obrigação desconfortável, arriscada e nociva.

Por Brandão de Pinho

Naturalmente se uma força política tem quase a totalidade do protagonismo numa ainda imberbe democracia, quase plutocracia, na mesma medida esse protagonismo reflectir-se-á estampado, tratando-se de um jornal, nas suas páginas. Uma lógica e coerência irrepreensíveis.

Ou seja, o facto de um jornal dedicar grande parte do seu espaço ao governo e ao partido do governo é uma questão que terá de ser relativizada pois esse partido como um eucalipto secou e seca todo o apocalítico terreno político em volta.

Na verdade as coisas são sempre relativas. João Lourenço, como nunca antes, e, passado 13 meses, deu uma entrevista ao Expresso, de Portugal, onde ficou patente a sua enorme inteligência, determinação, pragmatismo, optimismo e patriotismo, algo que nunca duvidei. Ou seja, como daria muito nas vistas dar uma entrevista tão encantadoramente depravada ao Pravda de Victor Silva e Caetano Júnior, e, não havendo outros jornais à sua altura em Angola, optou por mandar os recados de Lisboa.

Relativamente a esta jogada nada haverá a dizer, pois de uma assentada demonstra o desprezo pelos jornais angolanos e por outro maximiza a visita Portugal, como se Portugal tivesse dinheiro e não visse Angola mais do que uma oportunidade para ganhar dinheiro depressa e menos para gerar riquezas e bem-estar aos angolanos. Infelizmente creio que muitos portugueses ainda pensam assim. Ou melhor, já pensam assim pois os retornados, mais velhos, são completamente devotos por Angola.

Todavia como não há líderes assim tão proverbiais, tão proféticos ou tão providenciais – nem Afonso Henriques, nem Marquês de Pombal, nem Bismarck, nem Washington, nem Churchill, nem Neto o foram – e como não há oposição nem tampouco órgãos de comunicação social independentes, descobri que a minha obrigação e talvez única vocação, também por inspiração dos meus companheiros deste Jornal, verdadeiros heróis e rijos homens, seja relativizar as coisas e fazer de advogado do diabo, até porque é mais fácil, estando eu afastado e com acesso a pouca informação, teorizar e encontrar ângulos inauditos bem como perspectivar, engendrar e antecipar novas jogadas do mestre de xadrez que tanta gente tem mandado para o xadrez, indirectamente, é claro. Perdão pelo trocadilho gratuito, mas já há muito que o pensava utilizar e assim sai-me um peso da consciência.

Por exemplo, um caso peculiar da relatividade das coisas. Reportemo-nos à bola. Há pouco, os Palancas Negras sagraram-se Campeões Mundiais de Futebol na Categoria de, creio, estropiados dos membros inferiores, enquanto a Selecção das Quinas foi campeã europeia para Deficientes com Trissomia XXI.

Ora, o que aparentemente poderia ser uma soberba notícia, um excelente indício, motivo de regozijo e grandes parangonas nos jornais e muitas partilhas nas redes sociais, pode mais não significar que devido a uma guerra civil fratricida ainda mais insana que a guerra colonial passasse a haver incontestavelmente muitos estropiados dos membros inferiores devido ao uso maciço de minas terrestres em Angola; por outro lado com a diminuição da taxa de natalidade em Portugal e devido à instabilidade laboral, e de cada vez mais as mulheres terem filhos mais tarde, muito perto ou a passar dos 40 anos, e, se a isso somarmos o facto de o país ser católico e conservador e também o facto de as grávidas não terem o acompanhamento necessário nomeadamente no que toca à qualidade e disponibilidade dos exames ultrassónicos pré-natais, então, estão combinados os factores que proporcionam a existência de mais portadores deste síndrome cromossómico sendo maior a base de recrutamento e maior as possibilidades de se ser campeão europeu (na Islândia por exemplo nascem apenas um ou dois bebés com Down por ano), tal como uma incomparavelmente maior base de atletas em Angola os pôs em clara e prévia vantagem.

Desta forma pretendo sensibilizar o leitor para as virtudes do exercício crítico pois o que não faltam são organizações altamente sofisticadas e profissionais com o fim claro de ludibriar o povo e os consumidores pelo que convém de facto não nos deixarmos ir em cantigas e analisarmos todas e quaisquer questões por todos os prismas que a inteligência nos permita.

Ando a ler um livro. Na verdade uma pérola. Escrito nos anos vinte e vetado ao ostracismo até que recentemente foi descoberto, e, onde se retrata um período da História que verdadeiramente mudou o mundo e inspirou e influi democracias e repúblicas a um nível global e intemporal.

Trata-se do período que antecedeu a Revolução Francesa e da forma como os jornais e os saraus de intelectuais instigaram a plebe a fazer reformas extraordinariamente importantes, para não dizer revoluções, não vá alguém pensar que sou um anárquico agitador. Mas é certo que um povo informado e mobilizado faz temer e tremer, e, colapsar regimes a não ser que eles governem bem. Os imperadores romanos providenciavam pão e circo com fartura ao povo e grandíloquas conquistas militares para a Glória de Roma, justamente por isso.

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