O presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social do MPLA (ERCA), Adelino de Almeida, reafirmou em Cabinda haver condições para a criação, no corrente ano, da Comissão de Carteira e Ética, responsável pela efectivação da carteira profissional como documento de identidade para o exercício do jornalismo. Não seria bastante ter apenas o cartão do MPLA?

Por Orlando Castro

Adelino de Almeida prestou esta informação em conferência de imprensa, após uma assembleia que serviu para esclarecer o papel da instituição que dirige segundo as ordens superiores do seu partido, o MPLA, por sinal no poder desde 1975.

Assegurou o conhecido militante do MPLA que os jornalistas dos órgãos de comunicação social públicos e privados terão carteira profissional, para exercerem actividade jornalística no país, estando para o efeito prevista a criação de uma comissão de carteira e ética. Comissão essa que, como a ERCA, será escolhida à medida e por medida pelo MPLA.

Adelino de Almeida disse ser indispensável, para um bom funcionamento da classe a capacitação técnico-profissional dos jornalistas, assegurando que, no futuro deverão exercer a profissão, apenas licenciados em comunicação social ou quem tenha uma formação superior em um outro ramo da ciência e que tenha frequentado um curso de técnicas de jornalismo superior a seis meses. Falta saber se os haverá equivalência dos “cursos” tirados nas aulas de “educação patriótica” do regime.

O militante do MPLA anunciou a criação de representações da ERCA (ou do MPLA, já que é a mesma coisa), em todas as províncias do país, visando a proximidade com a comunicação social pública e privada locais e – citemos a insuspeita Angop – “controlar de forma generalizada os conteúdos divulgados por estes meios”.

Um sipaio ventríloquo

Este pomposo presidente da ERCA é um arcaico sipaio do MPLA, oficialmente galardoado com o cargo de “analista político”, continua a merecer ser nomeado chefe de posto pelos altos serviços prestados ao regime. O anterior chefe mandava e ele debitava. O actual manda e ele debita.

Numa das suas diatribes, importa recordar, Adelino de Almeida descobriu que a “Open Society” aplicou em Angola 14,5 milhões de dólares para financiar acções de desobediência civil e sublevação contra as instituições do Estado.

É ele a fazer descobertas etílicas e os seus congéneres do Pravda (Jornal de Angola) a descobrir que, por determinação do “querido líder”, os rios nascem na foz.

Adelino de Almeida, ao intervir num debate sobre o tema “A Lei e o cidadão”, emitido pela Televisão Pública do MPLA e pela Rádio Nacional do MPLA, mostrou que para o regime a Educação Patriótica continua válida, já não só no remoção da coluna vertebral mas também, e sobretudo, na substituição da massa cinzenta.

De acordo com o sipaio, “este financiamento serviu para a Associação Paz, Justiça e Democracia trazer a Angola uma eurodeputada (Ana Gomes, colega do MPLA na Internacional Socialista) para se imiscuir nos assuntos internos do Estado Angolano, numa altura em que as autoridades judiciais estavam a analisar a situação dos 15 jovens detidos acusados de sublevação à ordem pública”.

Na óptica do regime, apresentada pelo ventríloquo Adelino de Almeida, deve-se contextualizar o direito de manifestação e reunião consagrados na Constituição da República de Angola à realidade do país.

“Nós emergimos de uma situação de guerra muito difícil e todos nós estamos lembrados em que circunstâncias é que foi possível estabelecer a paz no país, assim como estabelecer as bases para a construção de um estado democrático e de direito, e todos nós estamos de acordo que estes valores essenciais da democracia devem ser preservados”, sublinhou o sipaio com o ar sisudo recomendado pelo chefe.

Com esse enquadramento, explicou que o problema aqui é o carácter que as manifestações tomam, as quais tendem a contestar o tempo de permanência do Presidente da República no cargo, facto que apenas podia ser feito através do voto popular, em acto eleitoral. Nada contando para esta tese o facto de o Presidente estar no poder há décadas sem nunca ter sido nominalmente eleito.

Mas os altos serviços apresentados na sua candidatura a chefe de posto têm outras suculentas teses. Enquanto deputado do MPLA, Adelino de Almeida afirmou numa entrevista publicada em 2 de Dezembro de 2006 pelo Pravda (onde mais é que poderia ser?) que a liderança da UNITA carecia de suficiente norte, de tal maneira que profere declarações contraditórias.

Adelino de Almeida reagia às afirmações contundentes do presidente da UNITA, Isaías Samakuva, proferidas contra o MPLA e as instituições do Estado que, afinal, continuam a ser uma e a mesma coisa.

Na altura, Isaías Samakuva, depois de questionar a isenção da Comissão Interministerial para o Processo Eleitoral (CIPE), acusou o MPLA de subversão da democracia e da soberania popular, seja por via de emendas constitucionais, acórdãos judiciais ou outros artifícios jurídicos, e chegou mesmo a comparar (elogiosamente, reconheça-se) o Governo com o regime fascista colonial de Oliveira Salazar.

Para Adelino de Almeida, estas afirmações, “absurdas, constituem puras manobras para desviar a atenção do essencial, numa altura em que o MPLA se mobilizava ao nível de todo o país para discutir com os amplos sectores sociais e políticos a Agenda Nacional de Consenso”.

O deputado/sipaio/Presidente da ERCA negou as afirmações do presidente da UNITA segundo as quais a Agenda Nacional de Consenso proposta pelo MPLA configuraria um enunciado de princípios governativos.

“Não é verdade, desde logo, porque os responsáveis do MPLA que têm estado a discutir com os seus colegas de outros partidos têm referido que isso se trata de um elencamento de princípios programáticos, que não se substituem, que não se confundem com princípios de governação”, disse o sipaio com uma tal eloquência que fez tremar a Oposição…

Adelino de Almeida explicou que a Agenda Nacional de Consenso pretendia a criação, no país, de uma base para a construção de um Estado forte e moderno, independentemente das nossas diferenças políticas e ideológicas. Viu-se. Vê-se.

Ainda de acordo com o sipaio/deputado, a adopção de uma Agenda Nacional de Consenso não inviabiliza a realização das eleições, já que nestas os partidos políticos participam na base dos respectivos programas eleitorais e governativos.

“Tanto quanto se pretende, e para emprestar estabilidade a um país que saiu de uma guerra feroz de 30 anos, é encontrar uma plataforma de entendimento entre todos os sectores políticos e sociais, no sentido de, independentemente do partido A ou partido B ganhar as eleições, haja um conjunto de princípios programáticos que façam com que a nação se reveja nessa Agenda Nacional de Consenso”, explicou.

Adelino Marques de Almeida disse ainda que as afirmações de Isaías Samakuva desmentiam outro tipo de declarações mais razoáveis, proferidas anteriormente, e ultrapassam o respeito devido às instituições, com destaque para a presidência da República. Se fosse hoje Samakuva estaria a ser encaminhado para um campo de reeducação patriótica. Mas será certamente amanhã.

O deputado/sipaio recordou na altura que o presidente da República, José Eduardo dos Santos, foi suficientemente magnânimo aquando do falecimento em combate de Jonas Savimbi em 2002, no sentido de abrir uma porta através da qual se pudesse discutir os problemas, sem mais constrangimentos, sem mais violência.

Segundo o deputado/sipaio, a UNITA é uma criação dos serviços secretos do regime colonial português – a PIDE/DGS, constituída por Oliveira Salazar logo após a Constituição de 1933 como um corpo especializado e centralizado de informação e repressão política.

O sipaio e a comunicação social

Decorria o dia 9 de Setembro de 2009 quando o deputado/sipaio Adelino de Almeida aconselhou os jornalistas angolanos a primarem pelo rigor, objectividade e profissionalismo no exercício da profissão.

Em declarações à imprensa, no final da gala de premiação do Maboque de Jornalismo, afirmou que um bom jornalismo passa necessariamente pela isenção e qualidade do trabalho apresentado ao público consumidor. Qualquer coisa só encontrável na TPA, RNA e Jornal de Angola.

“Um bom trabalho jornalístico é caracterizado pelo rigor, isenção e qualidade temática em termos de conteúdo. O bom jornalista é aquele que prima o seu trabalho à base do rigor, objectividade e investigação, levando, sempre, ao público informação real dos acontecimentos registados”, disse o sipaio.

Segundo ele, um jornalismo sério e objectivo molda a forma de agir e de pensar do jornalista, tendo sempre como foco o público consumidor do seu material informativo. Por outras palavras, o jornalista deve estar formatado para só dizer a verdade oficial.

O deputado/sipaio reconheceu ainda o papel desempenho pelos jornalistas angolanos (os únicos dignos desse nome são os que trabalham para a propaganda do regime) que ao longo destes anos têm dado o seu saber em nome do país, levando além fronteiras os factos relacionados com o desenvolvimento de Angola em todos os sentidos.

Nesse ano os premiados foram jornalistas da TPA, da Agência Angola Press (Angop), da Luanda Antena Comercial (LAC), do Jornal de Angola, da Rádio Luanda e da Rádio Ecclesia.

Depois de todo este investimento em José Eduardo dos Santos e no MPLA, Adelino de Almeida foi recompensado por João Lourenço e ascende a líder da ERCA onde, certamente, prestará um excelente trabalho em prol dos jornalistas… do MPLA.

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