É impossível, até ao mais livre e intelectualmente honesto dos homens, mesmo que apetrechado das mais elaboradas ferramentas de raciocínio, conhecimento e capacidade analítica, julgar o que ou quem quer que seja, com integral isenção.

Por Brandão de Pinho

Há sempre um grau de relatividade difícil de eliminar que como que obnubila o discernimento do ser humano, mesmo que a sua mente adestrada e de visão arguta esteja treinada para fugir do engodo e dos pensamentos falaciosos.

Admitamos. É reconfortante a hipótese de balizarmos a nossa opinião de acordo com os “progons” de uma entidade qual medusa com mil amarras (como seriam exemplos os paridos, as religiões, certas correntes modernas de contra-cultura atractivas, entre outros) à qual estejamos de alguma forma subordinados. Nalguns casos reféns.

O sol aparenta girar sobre o nosso chão e a paisagem parece deslocar-se quando viajamos de comboio. E já que afloramos a Física, debrucemo-nos então profundamente no seu seio e talvez não seja difícil de perceber que se tentarmos medir um fenómeno, talvez, não seja despiciente a hipótese da nossa medição interferir com o seu resultado. Tal como o gato preto de Erwin Schrödinger que pode estar vivo ou morto dentro da caixa, mas que só abrindo-a o poderíamos saber, mas, fazendo-o, envenenariamo-lo, má sorte do felino, assim são as opiniões.

Por hipótese, eu poderei ter uma opinião favorável e ao mesmo tempo desfavorável sobre a “Operação Resgate” mas para a ter precisaria estar dentro dos seus meandros, mas, estando dentro, alteraria toda a situação… ao ponto de matar o gato. Complexo? É complexo e difícil pensarmos por nós mesmos. O ideal, num certo prisma, seria temos quem pensasse por nós de acordo com o que nós achamos que somos.

A posição de quem apregoa à saciedade as virtudes terapêuticas do “eleven six” é tão aceitável como a oposição à ideia. Talvez estes últimos temam mais, não a medida em si, mas o seu previsível modo de aplicação e o precedente que se abrirá com um risco possível e previsível – segundo estes últimos – de Angola ir caminhando para um estado policial autocrático destruindo alguma coisa boa que o tirocínio de JLo eventualmente tenha feito.

É óbvio que os desígnios de higiene e salubridade, do ordenamento das ruas das cidades com aumento de asseio e diminuição do assédio das “zungas”, os próprios desígnios fiscais, o combate à imigração ilegal e por fim o desmantelamento de eventuais pequenas máfias instaladas (que possam, alegadamente, estar a explorar ou coagir as próprias zungueiras -e todos nós sabemos o quão activas são estas organizações em terras de ninguém e sem lei), determinam, hipoteticamente, a justeza de tamanha operação.

Todavia um bom governo e um justo governante aquando da entronização de uma lei têm de ter em conta o máximo de factores relacionados e as suas consequências, não podendo fechar os olhos ao facto daquelas pobres mulheres não terem outro modo de matar a fome aos filhos que não seja o exercício da actividade zungueira, tal, como os seus clientes, por ventura, sem acesso ao mercado convencional, não puderem matar a fome à família ou reparar o seu veículo sem o recurso aos préstimos das zungueiras.

Para além disso tudo, é bom de ver que medidas radicais, tomadas ao desbarato, de uma só assentada e de fôlego único poderão castrar todo o “devir” económico deste micro-empreendedorismo e toda uma extensa e complexa rede de relações comerciais e empresariais dos vários actores envolvidos neste circuito, ainda que marginais nalguns casos.

Naqueles casos em que não tenho uma opinião formada, minimamente fundamentada, saltando de um estado quântico em que ora me deixo enlevar pelo virtuosismo de uma coisa ora sou o seu principal detractor, lembro-me sempre de uma história que li andava eu no ciclo e que retratava de forma divertida o facto de um homem sábio, bondoso e justo, e, que pelas suas características não raras vezes era procurado por pessoas da vizinhança em conflito para servir-lhes de juiz.

Essa história passada na turca Anatólia rezava assim: dois vizinhos desavindos por um problema entre eles, creio que por causa de cabras ou mulheres (é amiúde por cabras ou mulheres que os homens se desentendem) apresentam-se ante o nosso bom homem. O primeiro fala e fala e é-lhe dada a razão. O segundo, espicaçado por tão precipitado juízo, melhor e mais também fala e também vê justificada a sua conduta. Diante disso, a sua mulher que espreitava o “julgamento” interpela-o e pergunta-lhe como raio é que é possível ele dar razão aos dois, ao que ele lhe responde: “- Sabes… que também tu tens razão!”

Independentemente das posições extremadas, há algo de positivo nesta questiúncula da “Operação Resgate”. Algo de muito subtilmente perceptível mas que demonstra a vigorosa e irreversível caminhada, a passos largos, que esta Angola de JLo – e sob os seus auspícios – paulatinamente mas com firmeza e regularidade vem dando.

Refiro-me ao facto de como, ante uma medida pejada de quase absoluta razoabilidade e propriedade, a população e as forças vivas nacionais, mesmo assim, e, com toda a elevação, não deixaram de encetar uma saudável discussão sobre o âmago desta imposição – de uma quase Lei Marcial – e das suas consequências para os grupos étnicos, sociais e económicos directamente atingidos.

Este é o sinal de uma nação pujante que terá agora um teste de fogo na medida em que – e tomada que está esta medida – a forma como as forças policiais conseguirem cumprir os objectivos propostos, sem extremarem em repressão, e sem claudicarem ante o primado da lei, será a forma como Angola servirá, ou não, de farol para África e para o mundo e presságio para as eleições locais que se esperam.

Parece-me que há de facto sinais perspicazes, para se perceber que uma nova ordem pode começar a vingar em Angola, no que toca aos direitos, liberdades e garantias nomeadamente a liberdade de expressão e a garantia de forças de segurança à altura dos angolanos (por oposição ao cenário eduardista de ainda não há meia-dúzia de anos atrás).

A subtileza, por vezes, em que pequenas coisas emergem fazem dessas coisas indícios razoavelmente sólidos de certezas futuras. Lembro-me muitas vezes de um trecho de um filme que nem sei qual é, em que um homem de negócios já claramente em etílica letargia, afogava as suas mágoas em whisky enquanto afagava languidamente o copo e discorria sobre a ruína anunciada para a sua actividade (que não me lembro sequer qual era) para espanto do seu amigo interlocutor, estarrecido, perante tamanha e tão pessimista previsão de um homem que se habituara a ver como um eterno optimista e uma verdadeira força da natureza.

Desta forma o homem de negócios tenta aclarar a sua posição referindo-se a colonos americanos. – “… não vês a energia imparável desta gente? Andam de sítio em sítio, instalam-se num local, constroem uma rua e mesmo antes da igreja estar pronta já há uma escola a funcionar e uma professora contratada…”; e continuando a desfiar o seu rosário dizia: ”… este é o sinal de que numa dúzia de anos estes jovens mas provectos homens farão destes assentamentos cidades pujantes e com isso cairá para baixo todo o meu modelo de negócios baseado na exploração da mediocridade, arrastando consigo todos os meus lucros passados…”

Assim parece Angola, pelos “sound bites” que oiço de onde estou. Uma força viva, no fundo tentando fazer o que é correcto. Uma sociedade – através de todos os seus actores – que perante uma operação que tem tanto de necessária quanto de perigosa optou por discussões elevadas e civilizadas ao invés de enveredar pelo caminho fácil da demagogia e chauvinismo, dando assim passadas fortes rumo à prosperidade, bem-estar e consolidação da sua jovem democracia. Na prática neófita democracia pois o eduardismo foi, se não um retrocesso em relação ao colonialismo, pelo menos uma extensão miserável.

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