O Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou hoje que a relação política e diplomática de Portugal com Angola “não podia ser melhor” e é feita de “múltiplos contactos”, alguns mais públicos e formais, outros menos, todos importantes. Tudo se resume, do lado português, ao velho (mas sempre actual) provérbio: Quanto mais me bates mais gosto de ti…

Marcelo Rebelo de Sousa falava aos jornalistas à saída da cerimónia de lançamento de Cascais como Capital Europeia da Juventude 2018, no Centro de Congressos do Estoril, sobre o tema das relações entre os Estados português e angolano a propósito do processo judicial que envolve o ex-vice-presidente de Angola, à altura do factos era Presidente da Sonangol, Manuel Vicente.

Questionado se o primeiro-ministro, António Costa, partilhou consigo o parecer solicitado à Procuradoria-Geral da República sobre este caso, que não foi tornado público, o Presidente da República escusou-se a responder: “Isso é uma matéria sobre a qual não me vou pronunciar publicamente”.

“Aquilo que quero dizer, neste momento, é que as relações políticas e diplomáticas são excelentes”, declarou o chefe de Estado. “Não podia ser melhor o nosso relacionamento”, reforçou.

Interrogado se considera decisivo o encontro entre o primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente de Angola, João Lourenço, marcado para hoje à noite, em Davos, na Suíça, onde decorre o Fórum Económico Mundial, Marcelo Rebelo de Sousa disse que “a vida é feita de múltiplos encontros, e de múltiplos contactos”.

Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo um vidente. Reconheça-se que tem, de facto, uma visão sobrenatural das coisas passadas, presentes e futuras. Recorde-se que no dia 26 de Setembro de 2017 perspectivou como “muito boas” as relações entre Angola e Portugal, demonstradas (Ufa! Ufa!) na ovação dada nesse dia a Portugal na cerimónia de investidura de João Lourenço. Isso apesar de, na mesma altura, o Presidente angolano ter excluído, no discurso de tomada de posse, Portugal da lista de principais parceiros.

Em declarações à imprensa, no final do ato de tomada de posse de João Lourenço, o chefe de Estado português destacou o “ambiente muito caloroso” entre os dois países, “que é preciso aproveitar”. Será que, para Marcelo Rebelo de Sousa, João Lourenço não representa o país? Ou é imbecil e não percebeu o “ambiente muito caloroso” entre Portugal e Angola?

Marcelo Rebelo de Sousa considerou, recorde-se, “impressionante” a ovação dada a Portugal, que “foi de longe a maior”. “E não foi a mim, foi a Portugal”, salientou, destacando os laços de fraternidade entre os dois povos. Pois. A gente sabe.

Por outro lado, indiferente à “impressionante” ovação dada a Portugal, que “foi de longe a maior”, o novo Presidente angolano excluiu Portugal da lista de principais parceiros, no seu discurso de tomada de posse, sublinhando que Angola considerará todos que “respeitem” a soberania nacional.

“Angola dará primazia a importantes parceiros, tais como Estados Unidos da América, República Popular da China, a Federação Russa, a República Federativa do Brasil, a índia, o Japão, a Alemanha, a Espanha, a França, a Itália, o Reino Unido, a Coreia do Sul e outros parceiros não menos importantes, desde que respeitem a nossa soberania”, disse João Lourenço.

O novo chefe de Estado não fez qualquer referência a Portugal, principal origem das importações angolanas, no seu primeiro discurso oficial, numa altura de tensão na relação entre os dois países, decorrendo investigações das autoridades portugueses a altos dignitários do regime angolano.

“Devemos continuar a pugnar pela manutenção de relações de amizade e cooperação com todos os povos do mundo, na base dos princípios da não-ingerência nos assuntos internos e na reciprocidade de vantagens, operando com todo os países para salvaguarda da paz, da Justiça e do progresso da humanidade”, disse ainda.

“Angola deve, pois, manter o seu papel de actor importante na manutenção da paz na sua sub-região, actuando de forma firme nas organizações das quais faz parte”, apontou, acrescentando que a relação com os restantes países africanos de língua portuguesa “vai estar sempre presente nas opções” do Governo angolano.

Mais recentemente, João Lourenço exigiu “respeito” das autoridades portuguesas às “principais entidades do Estado angolano”, admitindo que as relações bilaterais estavam “frias”. E para que não congelassem, as autoridades políticas portuguesas ajoelharam-se, rezaram e beijaram a mão do novo querido líder do MPLA.

Por outras palavras, o presidente João Lourenço está-se nas tintas que Portugal não “respeite” os angolanos, mormente os 20 milhões de pobres. No entanto, o mesmo não se passa com as “principais entidades do Estado angolano”. Com esses cuidado! Muito cuidado. Esses são angolanos de primeira.

Mas é claro que falar de corrupção em Angola é um sacrilégio. Alguém acredita nisso, sabendo-se que o regime do MPLA é, em matéria de integridade e honorabilidade, impoluto e o paradigma dos paradigmas?

Porque será que as “principais entidades do Estado angolano” não recordam que o Ministério Público português também investigou uma burla gigantesca ao Estado angolano, supostamente cometida por empresários portugueses com ligações a elementos angolanos do Banco Nacional de Angola? Em causa estavam mais de 300 milhões de euros em pagamentos do BNA para produtos que nunca chegaram a Angola, alguns completamente fictícios, como… limpa-neves.

“Nas relações entre Estados deve haver reciprocidade. Nós nunca tratamos mal as autoridades portuguesas e por esta razão exigimos, de igual forma, respeito pelas principais entidades do Estado angolano”, corroborou João Lourenço.

Desta forma, João Lourenço explicava aos que ainda duvidavam que com ele, tal como com José Eduardo dos Santos durante 38 anos, “respeito pelas principais entidades do Estado angolano” é sinónimo de impunidade total. Portugal fica proibido de investigar qualquer uma das principais entidades do regime, podendo no entanto fazê-lo em relação aos pilha-galinhas ou até mesmo aos dirigentes da Oposição.

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