O jornalista angolano Sedrick de Carvalho quer estimular um debate na sociedade sobre o estatuto administrativo do território de Cabinda, rico em petróleo. Nesse sentido apresentou ontem, em Lisboa, o livro “Cabinda – Um território em disputa”.

Sedrick de Carvalho defende que é necessário aprofundar o debate sobre o futuro político de Cabinda. Autonomia ou independência são modelos reivindicados por várias figuras angolanas, mas nunca se chegou a consensos.

“O modelo de autonomia tem sido reivindicado por várias personalidades, com destaque para o padre Raúl Tati, e não tem sido adoptado pelo regime angolano”, lembrou Sedrick de Carvalho em entrevista à DW África.

Para o autor, “há um horizonte favorável para a questão da autonomia, mas, entretanto, a geração mais jovem começa a perceber que esse também não é o caminho”.

Sedrick de Carvalho considera que não há avanços porque se “saiu de um extremo, que é a manutenção do território, para outro, que é a independência, pois o meio-termo, a autonomia, não foi implementado.”

Recentemente, os independentistas da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) pediram a Portugal para assumir responsabilidades naquele enclave. No entanto, mais de 40 anos depois da independência de Angola, o Sedrick de Carvalho entende que, após o Tratado de Simulambuco assinado a 1 de Fevereiro de 1885, já não faz sentido pedir responsabilidades a Portugal como antigo país colonizador: “Atribuir esta responsabilidade à antiga colónia dá a Portugal um certo poder, […] que, de facto, já não tem”.

Sedrick de Carvalho apresentou o seu livro “Cabinda – Um território em disputa” – uma “disputa militar” que “as autoridades angolanas têm conseguido ofuscar”, segundo o jornalista.

O livro, editado pela Guerra e Paz, já está disponível nas livrarias portuguesas e conta com contribuições de várias figuras angolanas: Alberto Oliveira Pinto, Marcolino Moco, Francisco Luemba, Rui Neumann, Orlando Castro, Afonso Justino Waco e José Marcos Mavungo.

Alberto Oliveira Pinto é doutorado em História de África e professor e investigador do Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina, no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa e do Centro de História da Universidade de Lisboa.

Marcolino Moco, antigo primeiro-ministro de Angola (1992/96) e secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP — 1996/2000), é doutorado em Direito e mestre em Ciências Jurídico-Políticas, enquanto Francisco Luemba, vogal do Conselho Superior da Magistratura Judicial de Angola, é jurista e docente universitário, bem como activista pelos direitos humanos.

Rui Neumann, editor da agência de notícias angolana e-Global, é mestre em Direito e Segurança, licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais (publicou em 2016 o livro “Raptos Políticos e Tomada de Reféns”, da Chiado Editora).

Orlando Castro é escritor, jornalista e director adjunto do jornal angolano Folha 8, é autor – entre outros – do livro “Cabinda – Ontem protectorado, hoje colónia, amanhã país”, bem como do prefácio do livro de Francisco Luemba “O problema de Cabinda exposto e assumido à luz da verdade e da justiça”, publicado em Portugal pela Papito Editora em 2008.

Afonso Justino Waco, oriundo da aldeia de Bamba-Cuanga, região de Miconge, município de Beliza, em Cabinda, é mestre em Teologia. Viveu no exílio, de 1961 a 1967, no Congo. Em 1975, partiu outra vez para o exílio no então Zaire (actual República Democrática do Congo) e actualmente vive exilado na Dinamarca.

José Marcos Mavungo, economista, professor universitário, foi vice-presidente da Mpalabanda – Associação Cívica de Cabinda, extinta por razões políticas. Foi preso político de 2015 a 2016.

Segundo Sedrick de Carvalho, o contributo destas figuras para o avanço do processo de independência ou autonomia do enclave parte do pressuposto de que “é preciso dialogar de forma pacífica” sobre a questão pendente relativamente ao futuro político de Cabinda” porque, explica o autor, “os limites geo-políticos dos territórios africanos foram ditados na conferência de Berlim de 1885”.

“E era necessário a visão que o doutor Marcolino Moco traz para rever, afinal de contas, o que é um território angolano, o que um território Cabinda”, sublinha.

A motivação para escrever o livro surgiu quando estava na cadeia em Luanda, depois do processo judicial que condenou o grupo dos 15+2 activistas por alegado atentado contra a segurança do Estado. Decidiu publicar porque “o seu debate é um debate isolado e era necessário quebrar este vazio. Daí que, enquanto jovem, achei que era necessário motivar a juventude a entrar neste debate.”

Depois deste livro, Sedrick de Carvalho espera publicar as memórias do tempo em que passou nas cadeias de Luanda juntamente com os seus companheiros activistas, presos e condenados sob a acusação de terem planeado um golpe de Estado. Foram detidos quando liam o livro “Da Ditadura à Democracia”, da autoria do norte-americano Gene Sharp, inspirador das revoluções da chamada “Primavera Árabe”.

Folha 8 com DW-África

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