A Direcção da Associação das Indústrias de Panificação e Pastelarias de Angola (AIPPA) alertou hoje que centenas de padarias estão a fechar portas em Luanda devido à alegada concorrência desleal de empresas operadas por estrangeiros.

O alerta foi feito pelo presidente da AIPPA, Gilberto Simão, que defendeu a criação de uma “cooperativa polivalente” para importação directa da matéria-prima e venda aos associados, que estão “completamente descapitalizados”.

“Só em Luanda temos quase 500 panificadoras licenciadas, mas posso garantir que quase metade já não estão a funcionar e todos dias morrem panificadoras pelo país, devido às facilidades que o próprio Governo dá aos estrangeiros em detrimento dos nacionais”, disse, em declarações à Lusa.

Para o líder dos industriais panificadores de Angola, as causas da degradação do tecido empresarial angolano estão identificadas, apontando como exemplo a “liberalização da economia” e do sector, em que agora predominam pequenos empresários estrangeiros, essencialmente de outros países africanos.

“Estamos arruinados e cada dia que passa mais uma empresa de um angolano morre e paradoxalmente aparecem mais vinte empresas de um estrangeiro. As causas estão identificadas e relacionadas com as fontes de abastecimento e com a concorrência desleal”, realça.

De acordo com Gilberto Simão, com a liberalização, o “Governo angolano escolheu meia dúzia de empresas angolanas geridas por e estrangeiros e vai levando à ruína os operadores angolanos da panificação”.

“Nós não estamos contra os estrangeiros, mas o que estamos a combater é o sistema de produção”, observou, referindo ainda que o operador expatriado do ramo em Angola é “simultaneamente importador, exportador, produtor e ainda retalhista”.

Além disso, os panificadores enfrentam a dificuldade de acesso a divisas, para importar matéria-prima e máquinas. “Estamos a ser aniquilados lentamente por esta concorrência desleal”, queixa-se.

O presidente da AIPPA manifestou-se igualmente preocupado com as condições higiénicas em que é produzido e comercializado o pão nas panificadoras geridas por empresários estrangeiros.

“Não têm condições higiénicas porque os indivíduos que estão na padaria a comercializar o pão comem na padaria, dormem na padaria e quem é que lhes paga? A situação real é esta do nosso sector, nós temos uma solução que passa pela criação de uma cadeia produtiva”, adiantou.

Questionado se as preocupações de higienização das panificadoras também se aplicam aos operadores nacionais, o líder associativo garantiu que “normalmente os nacionais são cumpridores das estritas orientações das autoridades”.

Propostas e alternativas não faltam

Em Dezembro passado, os industriais de panificação e pastelaria de Angola propuseram ao Governo a atribuição de um “plafond” em divisas, para assumirem, com uma cooperativa própria, a importação de equipamentos e matéria-prima, travando a especulação no sector. Em Malanje, durante a campanha eleitoral, João Lourenço disse que aquela província podia ser o celeiro de Angola…

A ideia foi então avançada pelo presidente da AIPPA, Gilberto Simão, instituição que junta mais de 1.000 profissionais do sector.

“Neste momento, 80% do nosso sector, principalmente padarias, estão já nas mãos de estrangeiros, de não nacionais. É um absurdo, nós, angolanos, estamos a vender e a alugar as padarias, porque não temos condições de trabalho”, explicou Gilberto Simão. Isto foi dito em Dezembro de 2017.

O responsável garantiu na altura, tal como fez hoje, que o problema não é a entrada de estrangeiros para o negócio e sim a “especulação nacional” à volta da importação de matéria-prima e equipamentos, ao fim de quase três anos de dificuldades de acesso a divisas, devido à crise em Angola.

“Os estrangeiros, ou prefiro dizer não nacionais, não têm culpa, até os temos como associados. O problema é o sistema que está criado”, explicou.

A ideia era utilizar a cooperativa CAIPPA, criada em Julho de 2017 por aquela associação, para solicitar ao Governo a atribuição de um “plafond” mensal em divisas e assim assegurar as importações que o sector necessita.

“Tendo assim capacidade para importar equipamentos e matéria-prima para vender a preços não especulativos aos nossos associados. Para isso precisamos de divisas, é isso que estamos a propor”, avançou o presidente da AIPPA, uma associação sem fins lucrativos e que por isso terá de recorrer à cooperativa para assegurar as importações.

Gilberto Simão falava mesmo num problema de “monopólio das importações” do sector, à semelhança do que aconteceu em 2017 com a farinha de trigo, cujo saco de 50 quilos disparou para 30.000 kwanzas (150 euros), fazendo aumentar drasticamente o preço do pão ao consumidor.

“Depois da intervenção do Governo, através do Entreposto Aduaneiro de Luanda, que passou a importar e vender aos produtores, o saco da farinha voltou para 7.000 kwanzas [35 euros]. Mas os constrangimentos não são só a farinha de trigo, é o fermento, é o equipamento, e outros. Porque criaram aqui uma cadeia, são exportadoras lá fora, são importadores aqui e são os vendedores aqui também”, criticou o dirigente.

Com quase 1.000 associados em Luanda e perto de uma centena em cada província, a AIPPA garante ter capacidade disponível para armazenamento, em todo o país, pelo que o problema é só ter acesso a divisas para fazer, de forma própria, as importações para os associados.

“Precisamos é que o Governo nos ajude com as divisas. De outra forma, quando importar uma pá para tirar o pão custa 60.000 kwanzas [300 euros], é impossível rentabilizar uma empresa, seja uma padaria micro, pequena ou média”, desabafou na altura.

Tese (eleitoral) de João Lourenço

Em Malanje, durante a campanha eleitoral, João Lourenço disse que aquela província podia ser o celeiro de Angola, prometendo para isso apoio ao investimento privado, desde logo na instalação no país de uma indústria de alfaias agrícolas e montagem de tractores e defendendo a aposta na cultura local do girassol, do açúcar e do algodão.

“O Huambo é o celeiro de Angola, a população é, por natureza, produtora, a produção é visível. Por que não continuar a apostar na agricultura? O planalto central tem condições para voltar a produzir com fartura e ser o celeiro nacional que foi outrora”, afirmou João Lourenço em finais de Julho.

Por mera curiosidade registe-se que, enquanto província ultramarina de Portugal, até 1973, Angola era auto-suficiente, face à diversificação da economia.

O Governo angolano lançou em Janeiro de 2016 um programa que visava dinamizar a produção nacional e diversificação além do petróleo, para travar as importações e aumentar as exportações, gerando outras fontes de divisas, sendo a agricultura a principal aposta.

No dia 25 de Fevereiro de 2017 foi noticiado que um empresário chinês pretendia investir, em conjunto com um grupo angolano, quase três milhões de euros para produzir milho na província de Benguela, criando 130 postos de trabalho.

O contrato em causa foi aprovado por despacho do Ministério da Agricultura a 27 de Janeiro e envolveu a empresa angolana Ovaxing, que vende 49% do seu capital social ao empresário chinês Deng Xingwu, que também assegurará uma parte do novo investimento.

Mais de dois milhões de famílias angolanas vivem da agricultura, sector que emprega no país 2,4 milhões de pessoas e que conta com 13.000 explorações empresariais, segundo dados governamentais.

Monocultura da (criminosa) incompetência

O anterior Governo angolano negociou com Marrocos apoio no domínio da produção de fertilizantes, um sector em que o país, apesar das potencialidades agrícolas, continua a ser largamente deficitário devido à “monocultura” da criminosa incompetência que há 42 anos tomou conta, entre outras, da nossa economia.

Para o efeito, de acordo com informação governamental, o ministro da Agricultura, Marcos Alexandre Nhunga, realizou uma visita de trabalho a Marrocos, visando o “reforço da cooperação” entre os dois países, no domínio agrícola.

Para justificar esta, repita-se, criminosa incompetência, o Governo (o anterior e o actual) traz à liça a profunda crise financeira, económica e cambial decorrente da quebra nas receitas com a exportação de petróleo.

Há dois anos o Governo avançou com um programa de diversificação da economia, apostando nomeadamente na agricultura. Aposta que não passa disso mesmo porque, mais uma vez, o Governo quer colher sem semear.

Nada disto era previsível, dirá com certeza qualquer especialista do regime. Tudo isto era previsível, dirão os especialistas que teimam em pensar pela própria cabeça. A verdade é que ninguém imaginava que o petróleo tivesse a coragem (ou a lata) para contrariar as ordens de sua majestade o rei de então, José Eduardo dos Santos. Mas teve e baixou a sua cotação, pondo os pobres ainda mais pobres e os ricos ainda mais ricos.

Em Angola, depois do milho o arroz é o segundo cereal mais consumido, mas a sua produção interna, apesar dos esforços para o seu incremento, ainda não satisfaz as necessidades, obrigando a reforçar a sua importação.

Há muito que se sabe que quando o petróleo espirra Angola entra em estado de coma. Mesmo assim, os peritos dos peritos do regime olham sempre para o lado, não vão ser contaminados com essa epidemia da diversificação da economia.

As ligações económicas de Angola ao petróleo ilustram, aliás, um problema mais amplo em África; as nações produtoras que ligaram as suas fortunas exclusivamente ao crude encontram-se agora reféns da turbulência dos preços, correndo muitas o risco de um desastre colectivo de larga escala.

Folha 8 com Lusa

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