O líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, e o Presidente da República, João Lourenço, estiveram reunidos a sós – segundo os serviços de propaganda do partido que nos (des)governa há 42 anos – horas antes de o chefe de Estado ter afastado do poder José Filomeno dos Santos, outro dos filhos do seu antecessor.

A reunião aconteceu pouco antes de João Lourenço ter exonerado a Administração do Fundo Soberano de Angola (FSDEA), até quarta-feira liderada por José Filomeno dos Santos, filho do ex-chefe de Estado e actual presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos.

O encontro entre ambos aconteceu na terça-feira, à margem da 15.ª reunião ordinária do secretariado do Bureau Político do MPLA, e segundo a informação divulgada pelo próprio partido “o ambiente foi da mais alta camaradagem, em que aquelas das mais importantes figuras da nação angolana transmitiram muita serenidade”.

“A mesma que o povo angolano precisa para que, na sua ingente caminhada para um futuro promissor, de paz, de progresso social e de desenvolvimento, consiga melhorar o que está bem e corrigir o que está mal em Angola. Isso, realmente, vai acontecer, com o MPLA e o camarada João Lourenço no leme, depois de o “arquitecto da Paz’, Presidente José Eduardo dos Santos, ter pacificado o país, reconciliado os angolanos e ter lançado as bases para o desenvolvimento de Angola”, assegurou o partido.

A informação sobre a exoneração de Filomeno dos Santos, “por conveniência de serviço”, foi transmitida na quarta-feira pela Casa Civil do Presidente da República, passando o FSDEA, que gere activos do Estado angolano de 5.000 milhões de dólares, a ser presidido por Carlos Alberto Lopes, até agora secretário para os Assuntos Sociais do chefe de Estado.

Depois de Isabel dos Santos, que exonerou do cargo de presidente do Conselho de Administração da petrolífera estatal Sonangol, e de ter ordenado a rescisão do contrato entre a Televisão Pública de Angola (TPA) e a empresa Semba Comunicações, detida por Welwítschia “Tchizé” e José Paulino dos Santos “Coreon Dú” para a gestão do segundo canal, José Filomeno dos Santos é o quarto filho do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos, a ser afastado do poder por João Lourenço, empossado em Setembro último.

Apesar de deixar o Palácio Presidencial, José Eduardo dos Santos foi reeleito em 2016 como presidente do MPLA, partido que suporta o Governo, e tem mandato até 2021.

O Presidente da República de Angola, João Lourenço, disse na segunda-feira que não sente crispação com o ex-chefe de Estado, mas aguarda que este cumpra o compromisso anteriormente assumido, de deixar a liderança do partido em 2018.

“Só a ele compete dizer se o fará, se vai cumprir com esse compromisso. Quando isso vai acontecer, só a ele compete dizer”, disse o Presidente da República, que falava nos jardins do Palácio Presidencial, em Luanda, na sua primeira (a periodicidade prevista é anual) conferência de imprensa com mais de uma centena de jornalistas de órgãos nacionais e estrangeiros, quando passam 100 dias após ter chegado à liderança no Governo.

Questionado sobre a alegada tensão que mantém com o presidente do MPLA, o chefe de Estado negou qualquer problema: “Não sinto essa crispação nas nossas relações”, afirmou João Lourenço.

Acrescentou que mantém “relações normais de trabalho” com o presidente do partido, negando qualquer bicefalia na governação em Angola, até porque “nada está acima da Constituição”, ambos trabalhando em “campos distintos” e com “cada um a cumprir o seu papel”.

“Oito dias não é nada. Vamos aguardar os próximos tempos”, refutou, sobre o anúncio feito em 2016 por José Eduardo dos Santos, que disse abandonar a vida política em 2018.

Falta só saber se a “anestesia” ministrada a José Eduardo dos Santos é de feito prolongado ou se, pelo contrário, a todo o momento o presidente do MPLA e ex-Presidente da República durante 38 anos pode “acordar” e dizer – como reivindicam os seus mais próximos colaboradores – “chega”. Na verdade, a passividade do presidente do MPLA não se coaduna com a sua forma de ser, embora se enquadre na estratégia que praticou ao longo de décadas: atacar quando o “inimigo” dá a vitória como segura e irreversível.

Recorde-se que o general António José Maria (férreo aliado de Dos Santos), afastado do Serviço de Inteligência e de Segurança Militar, terá já dito a José Eduardo dos Santos estar pronto para a “guerra”, pedindo “instruções” sobre o que pretende o ex-presidente da República.

José Maria passou muito tempo, sobretudo a partir do momento em que Eduardo dos Santos disse que não seria candidato do MPLA às eleições e se aventou que o candidato seria João Lourenço, a reunir informações, dados, documentos, testemunhos (no país e no estrangeiro) sobre o actual Presidente da República.

“O Serviço de Inteligência e de Segurança Militar esteve em exclusivo a trabalhar, por ordem do general Zé Maria, numa espécie de Paradise papers of João Lourenço”, contou ao Folha uma fonte ligada ao general.

O Bureau Político do MPLA ainda está com a “espinha” chamada agora de João Lourenço atravessada na garganta. Mas certo é, igualmente, que quando se perde o Poder a maioria dos acólitos saltam a barricada. Apesar da propaganda oficial, o cenário de implosão no partido e, por inerência, no país, continua em cima da mesa.

O general José Maria é dos que considera que as decisões em catadupa que estão a ser tomadas pelo Presidente da República, João Lourenço, são uma caça às bruxas no MPLA e uma lavagem da sua imagem, “quase parecendo que JLo nada tem a ver com o MPLA e que só agora chegou à política angolana”.

Mais do que o conteúdo dos pronunciamentos e das decisões já tomadas, o núcleo duro do MPLA que, curiosamente, conseguiu adquirir a simpatia e o respeito de militantes considerados moderados, contesta a avidez e o “ataque kamikaze” que relembra uma “tese marxista de que o importante não é a sociedade que se quer construir mas, apenas, a que se quer destruir”, diz uma outra fonte do F8.

João Lourenço tem, de facto, demonstrado que quer, pode manda, mesmo que isso mais não seja do que a passagem de um atestado de incompetência do anterior executivo ao qual, aliás, pertenceu enquanto ministro da Defesa e como alto dirigente do próprio MPLA.

A interpretação de que João Lourenço só responde perante a Constituição, que solenemente jurou cumprir, esbarra e colide nas regras partidárias que fizeram jurisprudência nos últimos 38 anos e que dizem que todas essas decisões de Estado não podem contrariar a soberana orientação do partido.

Recorde-se o que disse Dino Matross, sem meias palavras: “O Presidente da República subordina-se ao presidente do partido”, e compete ao presidente do partido “propor e submeter, ao pronunciamento do Bureau Político, a composição orgânica e nominal do Executivo”.

Folha 8 com Lusa

Partilhe este Artigo