As empresas estrangeiras a operar em Angola tiraram 2,3 mil milhões de dólares do país no ano passado, de acordo com o Relatório sobre o Investimento Mundial, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

“O Investimento Directo Estrangeiro para Angola, a terceira maior economia de África, foi outra vez negativo, no valor de -2,3 mil milhões de dólares, face aos 4,1 mil milhões de 2016, com as filiais estrangeiras no país a transferirem fundos para o estrangeiro através de empréstimos entre companhias”, lê-se no relatório divulgado hoje em Genebra.

O documento dá conta que, para além disto, o panorama em Angola é também negativo porque “a produção petrolífera declinou e os fundamentos macroeconómicos deterioraram-se”.

O documento aponta para a suspensão dos novos lançamentos de poços petrolíferos em 2017, que deverão ser retomados este ano, e a elevada inflação e a escassez de moeda estrangeira como elementos que afastaram os investidores internacionais.

No continente, o fluxo de investimentos estrangeiros em África caiu 21%, para 42 mil milhões, enquanto os investimentos africanos no estrangeiro recuperaram 8%, para 12 mil milhões de dólares, alicerçados “no início da recuperação dos preços do petróleo, bem como em avanços na cooperação inter-regional através da assinatura do acordo de livre comércio na região, que deve fazer aumentar o fluxo de IDE para cerca de 50 mil milhões de dólares, este ano, “desde que o ambiente político global permaneça favorável”.

O relatório da UNCTAD considera que a queda nos fluxos para África “deveu-se principalmente aos baixos preços do petróleo e aos efeitos da queda dos preços das matérias-primas, que contraiu os fluxos nas economias dependentes das exportações, como o Egipto, Moçambique, Congo, Nigéria e Angola”.

O IDE global caiu 23% no ano passado, para 1,43 biliões de dólares, de acordo com a análise divulgada hoje pela UNCTAD.

“As pressões descendentes sobre o IDE e o abrandamento nas cadeias de valor globais são uma grande preocupação para os decisores políticos a nível mundial, e especialmente nos países em desenvolvimento, disse o secretário-geral da UNCTAD, Mukhisa Kituyi, comentando os dados divulgados hoje em Genebra.

O abrandamento, “em claro contraste com outras variáveis macroeconómicas que registaram um aumento substancial em 2017”, foi motivado em parte por uma diminuição de 22% no valor das fusões e aquisições internacionais, e os valores dos investimentos previstos, indicadores da tendência para o futuro, registaram uma queda de 14%, para 720 mil milhões de dólares.

Contas para todos os gostos e feitios

Angola já recuperou da recessão económica de 0,7%, em 2016, e vai crescer 1,9% em 2017 e 2,7% até 2019, de acordo com o relatório das Nações Unidas sobre a Situação Mundial e Perspectivas Económicas (WESP). Nada como ver para crer a validade de um relatório que, como outros, em breve será… revisto e desmentido pelos factos.

O relatório elaborado pelo UNCTAD e as cinco comissões regionais afirma que o crescimento angolano será sustentado “no aumento da actividade industrial e na melhoria da oferta de energia”.

O crescimento angolano este ano (2017) é, ainda assim, bastante inferior à média entre 2009 e 2016, que registou um valor de 3,5%, e ainda mais abaixo de 2012 e 2013, anos em que a economia de um dos maiores produtores de petróleo da África subsaariana cresceu 8,5% e 5,0%, respectivamente.

Registando que as eleições de Agosto “decorreram de forma geralmente pacífica”, os peritos das Nações Unidas sustentam que a inflação está a diminuir, “apesar de se manter alta, devido a pressões sobre a moeda externa e taxas de câmbio paralelas desvalorizadas”.

A ONU previu uma descida da inflação, de 41,2% em 2016 para 28% em 2017 e nova redução nos dois anos seguintes, para 19,4% e 16,7%, respectivamente.

“A perspectiva de evolução para África permanece sujeita a vários riscos” internos e externos, nota o documento lançado em Nova Iorque, nomeadamente na vertente financeira.

“Do ponto de vista externo, um aumento superior ao esperado nas taxas de juro globais ou um aumento nos juros dos títulos de dívida soberanos pode diminuir o acesso ao financiamento, que se tornou nos últimos anos uma fonte cada vez mais importante para o investimento nacional, e colocar em perigo a sustentabilidade da dívida”, lê-se no texto.

A descida dos ‘ratings’, das exportações ou uma inversão do crescimento dos preços das matérias-primas são alguns dos factores que podem fazer diminuir o Investimento Directo Estrangeiro e as remessas dos emigrantes, o que pode ameaçar o fôlego da retoma, notam os analistas das Nações Unidas.

Internamente, concluem, os maiores riscos para os países africanos, que deverão crescer 3,5% e 3,7% nos próximos dois anos, estão na ausência de políticas de ajustamento aos preços mais baixos das matérias-primas.

Esta falta de políticas, notam, “pode por em causa a estabilidade macroeconómica e a tendência de crescimento em muitos países”, que enfrentam também a possível escalada de violência por causa de ameaças à segurança, “especialmente na região do Sahel e na Somália, e instabilidade política no Egipto, Nigéria e África do Sul”.

O relatório das Nações Unidas defende, a nível global, que o crescimento de 3%, o mais alto desde 2011, deve fazer os decisores políticos apostarem em temas de longo prazo.

Perspectivas não são certezas

De uma forma geral todas as análises apontam para uma recuperação económica na África Subsaariana, alavancada pelo desempenho do seus principais motores, a Nigéria e a África do Sul e, também, pelo crescimento continuado dos seus melhores actores, a Etiópia, a Costa do Marfim e, (mais recentemente), o Gana.

O crescimento será guiado por um aumento da produção de petróleo (de forma mais destacada no Gana, na República do Congo, na Nigéria e em Angola), pelo reforço do investimento em infra-estruturas na África Ocidental e Oriental, e pela melhoria das condições climatéricas que fazem pressagiar bons anos agrícolas.

O reforço da actividade económica, para além de uma melhoria moderada nos preços do petróleo e dos minerais, irá ajudar a diminuir o défice actual, mas a pressão sobre as moedas da África Subsaariana irá permanecer.

A segunda tendência emergente aponta para o facto de o sector do gás da África Ocidental se vir a tornar um grande centro de actividade em 2018, do Senegal até Angola, com o desenvolvimento de gasodutos, plataformas flutuantes de gás natural liquefeito (FLNG) e de grandes projectos de campos de gás.

Os governos dos países do Golfo da Guiné e de toda a África Ocidental intensificaram os seus esforços para assegurar o fornecimento de gás, de modo a impulsionar a criação doméstica de energia e assim diversificar as suas receitas para além do petróleo.

Desregular o mercado do gás e permitir preços do gás regidos pelo mercado será a chave para desbloquear o posterior investimento em infra-estruturas em toda a região.

Outra tendência sugere que a inovação em finanças e tecnologia em África irá acelerar em 2018, impelida por uma nova geração de africanos “nativos digitais”. A proliferação de “hubs” tecnológicos em África (de forma mais destacada na África do Sul, no Quénia, no Ruanda, na Nigéria, no Gana e na Costa do Marfim), irá alimentar a próxima onda de “startups” africanas e ajudá-las a entrar em contacto com investidores.

A inovação digital na África Subsaariana está a ser conduzida pela cada vez maior utilização de telemóveis, permitindo que os consumidores africanos ultrapassem modelos de negócios e tecnologias empresariais já existentes.

As empresas africanas das áreas das finanças e da tecnologia estão cada vez mais a conduzir esta inovação, apresentando ferramentas digitais para construírem perfis digitais para os até aqui ‘sem acesso aos bancos’, proporcionando electricidade a agregados familiares rurais que se encontravam até então fora da rede, usando até inteligência artificial para diagnosticar problemas de saúde de forma remota.

Folha 8 com Lusa

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