O Historiador Simão Souindoula foi hoje a enterrar no Cemitério do Santa Ana. O Folha 8 apurou que faltou ajuda das instituições culturais e do Governo Provincial do Zaire para um enterro condigno e de acordo com a dimensão da figura do historiador, narrador, crítico e “americanista” como era conhecido por descrever como ninguém o tráfico negreiro e a influência africana nos estados americanos.

O historiador Patrício Batsîkama presente no local, mostrou-se revoltado e desiludido com o tratamento dado ao Mestre Souindoula: “Sinto-me revoltado! O Dr. Souindoula merecia um tratamento digno. Isso é caixa para o colocar? Nenhuma entidade presente? Nem a Fundação Agostinho Neto?”

Diante deste cenário, o colectivo de jornalistas do Folha 8, apresenta as condolências aos familiares, amigos, estudantes e leitores. Até breve, Mestre Souindoula.

Simão Souindoula, um exímio historiador, narrador e escritor, percorreu o mundo com o projecto “A rota da escravatura” e é um dos artífices da indicação de M’banza-Kongo para património da Humanidade. O seu corpo desaparece mas as ideias, textos e comunicações permanecem. Nós teremos toda honra em preservar e sempre publicar para conhecimento das novas gerações de angolanos.

Reagindo a morte do seu antigo quadro ocorrida no Hospital Josina Machel, vítima de doença, o Ministério da Cultura realça que Simão Souindoula dedicou a sua carreira no enriquecimento da história de Angola e de África, mais especificamente na vertente relacionada ao fenómeno de tráfico de escravos.

Enquanto esteve doente, soube o Folha 8 que nos últimos meses da doença foi praticamente abandalhado pelo ministério da tutela quando aquele órgão foi contactado para auxílio na intervenção médica de qualidade no exterior do país que seria indispensável. Sem ser atendido, o historiador encarregue pelos contactos em solidariedade com o colega de profissão contactou outras pessoas para que tentassem o mesmo apelo ao órgão ministerial, mas sem sucesso.

Simão Souindoula foi representante de Angola no projecto “A rota da escravatura”, lançado em 1994 com o objectivo de abrir o estudo do tráfico de escravos à pluralidade de memórias, de culturas e de representações. Foi igualmente defensor da criação de um museu dedicado ao início da luta armada pela libertação de Angola do jugo colonial português, cuja data é celebrada a 4 de Fevereiro.

As reacções à morte não se fizeram esperar. Patrício Batsîkama, escritor, historiador e professor universitário, lamentou a perda do “notável Historiador Dr. Simão Souindoula”. Luzia Moniz, historiadora angolana, escreveu no Facebook: “Ficámos mais pobres. Perdi um amigo. Um grande intelectual. Um africanista de primeira linha. Paz à sua alma”.

Enquanto esteve em vida, Simão Souindoula escrevia artigos científicos sobre a escravatura, o tráfico negreiro, a Baixa de Cassanje, os caminhos da luta de libertação nacional e outros temas de interesse histórico. O espaço periódico onde publicava os seus textos com abnegação era na página de Cultura do Jornal Folha 8, órgão que republicou ainda na edição passada o seu texto, intitulado “História de Angola: Angola ainda chora massacre de Cassanje”.

Simão Souindoula é quadro sénior do Ministério da Cultura, começou a sua carreira em 1976, no Laboratório Nacional de Antropologia; trabalhou no Centro Internacional das Civilizações Bantu (CICIBA), em Libreville, de 1983 a 2003, e reintegrou no Ministério da Cultura em 2004, ocupando o cargo de director do Museu Nacional da Escravatura. Fez parte da Comissão Científica do Projecto Mbanza Kongo e exerceu ainda as funções de Vice-Presidente do Comité Científico do Projecto Rota de Escravos da Unesco.

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