É verdade. Também sou machista, confesso. E se são esmagadoramente machistas todos os nascidos na década de 80 do século passado, jovens, portanto, todos os nascidos anteriores à referida época são naturalmente ainda mais. É assim em Angola, em outros países africanos e também nos outros continentes.

Por Sedrick de Carvalho

Começo por confessar ser machista porque considero ser importante primeiro reconhecer que nós, homens, somos essencialmente machistas para, com coerência, participarmos com afinco na abordagem que visa desconstruir os mitos, subterfúgios e argumentos em volta do papel submisso das mulheres.

Enquanto o movimento Me Too coloca nas barras dos tribunais personalidades mundiais, como pode vir a acontecer com o futebolista Cristiano Ronaldo, mais se observa uma discussão em que os homens continuam a dominar os espaços de análises, reafirmando o patriarcado, e sem o necessário reconhecimento do machismo incubado.

É inevitável não ser machista numa sociedade que ensina homens a serem o “cabeça-da-família”, ensinamento segundo o qual a mulher é parte dum organismo controlado pelo homem, portanto submissa. Esse ensinamento é fundamentado na cultura e religião, daí ser comum citar-se Efésios 5:22-24 que diz, ipsis litteris, “[…] porque o marido é a cabeça da mulher […] Ora, como a igreja se submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo”.

Da religião e cultura fizeram-se leis abomináveis contra as mulheres, limitando-as violentamente em quase todos os aspectos, como ocorre na relação sexual. Apenas para exemplificar, o código penal de 1886 criminaliza o adultério cometido pela mulher e pelo homem de forma diferente, sendo que à mulher é atribuída uma pena de prisão maior que varia de dois a oito anos (art. 401.º), enquanto ao homem adúltero apenas uma multa de três meses (art. 404.º) – disposições em desuso, importa salientar. É com leis assim que se cimentou o machismo.

É comum ouvirmos conversas sobre “o lugar da mulher” nas relações intrapessoais, e a partir destas se determina os “lugares” da mulher noutros segmentos da sociedade. Mas é interessante quando essa conversa é feita numa universidade sob designação de “debate” mas com a mesma argumentação do bairro. E assim recordo um “debate” sobre a mulher-vítima numa aula de criminologia, onde a minha curta intervenção depois de tanto ouvir foi mais uma lamentação por ver e ouvir mulheres a defenderem um lugar de submissão da mulher nos termos bíblicos, com a ladainha de “Deus disse”.

O tema era a tripla vitimização das mulheres vítimas de violência doméstica. Depois de agredidas pelo sujeito A na fase primária, surge – quando surge – a vitimização secundária que dá-se pelas instituições que legalmente têm a obrigação de interceder a favor da vítima, que normalmente passa a ser logo a polícia por ser ali onde as vítimas acorrem. O comum é os agentes “aconselharem” as queixosas a regressarem aos seus queridos agressores com argumentos mirabolantes dos quais o principal tem sido: “Queres mesmo meter o pai dos teus filhos na cadeia, e depois eles vão comer o quê, e vocês vão viver onde?”

Quando era esperado que se analisasse essa segunda vitimização e passássemos à terceira, eis que mulheres, para além de obviamente homens, começaram a citar a bíblia e a referir heranças culturais em concordância com os “conselhos” da polícia, os mesmos dados inclusive por mulheres agentes.

É essa a educação machista e misógina que é dada aos meninos, e em sentido de aceitação também às meninas, de tal forma que crescem sabendo cada um o “seu lugar” – de proprietário e propriedade.

Mas, ao trazer elementos religiosos e culturais à conversa do “lugar da mulher”, também pode ser feito um enquadramento emancipatório, independente e igualitário entre mulher e homem nesse nível. Existindo várias mulheres na história de Angola que se impuseram em pé de igualdade com os homens, desde a rainha Nzinga Mbandi à rainha Nhakatolo, isto no plano político, e mostraram que não há relação género-competência, temos exemplos de sobra que o “lugar da mulher” é onde ela quiser, e obviamente é o mesmo lugar que um homem pode ocupar.

E para desfazer o mito da superioridade de género recomenda-se imensa leitura, mas sobretudo humanismo para compreender que somos iguais, e com humanismo, sim, seremos os “homens [e mulheres] superiores chamados para regenerar o século”, recorrendo às palavras de Stendhal.

Mas importa realçar ainda que a nossa linguagem é também bastante machista, e por isso a escrita reflexo disso, uma escrita densamente masculinizada. E com discursos se construiu a inferiorização da mulher. Nesse mesmo texto é possível que tenha traços machistas.

As mulheres que estiveram activamente envolvidas nas lutas armadas pela libertação nacional foram maioritariamente relegadas para um papel definido como “lugar da mulher”, entrincheiradas em alas femininas dos partidos. Um interessante trabalho que desvenda “de forma radicalmente nova”, nas palavras de Maria Paula Meneses, para compreendermos o “engajamento das angolanas na luta militar e política” é o «Combater duas vezes» (Verso da História, Lisboa, 2015) de Margarida Paredes, do qual a primeira escreveu o prefácio.

Foto: Imagem relativa ao filme “Njinga, Rainha de Angola”, realizado por Sérgio Graciano e escrito por Joana Jorge.

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