A expulsão do activista angolano Simão Hossi, no dia 26 de Agosto, do restaurante Café Del Mar, localizada na Ilha de Luanda, por este se ter supostamente apresentado, conforme o comunicado daquela unidade hoteleira, “trajado de maneira desadequada e inaceitável”, originou a realização de uma marcha de repúdio contra o racismo em Angola.

Por Pedrowski Teca

O acto denominado “repúdio contra a desumanização em locais sociais público” está marcado para às 15 horas de Domingo, tendo como ponto de partida o Largo do Baleizão na marginal de Luanda até o Ponto Final da Ilha de Luanda.

“Caros deputados, políticos e cidadãos em geral, estão convidados a juntar-se à marcha de repúdio contra o racismo, discriminação e o fosso de desigualdade existente entre pessoas privilegiadas e marginalizadas em Angola. O acto terá lugar no dia 9 de Setembro de 2018, pelas 15 horas no Largo do Baleizão. Tragam a vossa água”, escreveu Dito Dali, um dos organizadores do evento, que também testemunhou o incidente.

“Que um/a cidadã(o) seja “ruado/a” de um restaurante porque esteja com um comportamento indevido, vá que não vá; agora, fazer isso porque “esteja com roupa suja e chinelos em mau estado”… num estabelecimento ao lado da praia… e ainda por cima usando a força… é na minha opinião totalmente inaceitável! O nome que se dá a isso, em qualquer parte do mundo e salvo opinião contrária do Tribunal, é discriminação. Razão tem o visado em fazer a competente queixa-crime”, reagiu o Secretário de Estado para Comunicação Social, Celso Malavoloneke, na rede social Facebook, a 02.09.2018.

Como tudo aconteceu

Conforme se lê num comunicado divulgado no passado dia 1 pelo restaurante Café Del Mar, por volta das 17 horas do dia 26 de Agosto, o cidadão nacional Simão Hossi apresentou-se no local trajado de maneira desadequada e inaceitável, isto é, “calças sujas, camisola rasgada, chinelos em péssimas condições e aparente falta de higiene”.

Simão Hossi, que estava acompanhado por dois amigos, resolveu dirigia-se aos lavabos, onde abordou a empregada de limpeza que estranhou a forma em que o mesmo se apresentava, tendo o mesmo questionado se achava que estava mal vestido para ser cliente.

“No regresso dos lavabos foi abordado pelo chefe da segurança, que o convidou a abandonar o recinto, gerando uma situação desagradável e de grande desconforto, sobretudo para os nossos clientes, perante a sua reacção de resistência e tentativa de forçar a permanência no local”, lê-se no comunicado.

Já no exterior do estabelecimento, naquilo que Simão Hossi descreveu como “racismo e ofensas corporais”, o activista chamou a Polícia que casualmente realiza serviço de patrulha naquele perímetro.

“Foram os mesmos chamados a intervir pelo próprio cidadão Simão Hossi, sob alegação de ter sido agredido, o que foi desconsiderado pelos agentes policiais, por não haver quaisquer vestígios de agressão e por a sua alegação se mostrar infundada”, defendeu a gerência do restaurante Café Del Mar.

O restaurante justificou a expulsão de Simão Hossi por este ter violado as “regras de decoro e apresentação que devem ser cumpridas por todos os frequentadores”.

“Connosco não é diferente e a bem do respeito e conforto devido aos nossos clientes e colaboradores, reservamo-nos o direito de recusar a admissão de todos quantos não se conformando com aquelas normas, se apresentem de maneira desadequada e inaceitável”, lê-se no comunicado amplamente criticado por leitores e cuja página, onde foi publicada na rede social Facebook, foi eliminada.

O jornal Folha 8 conversou com o activista Simão Hossi, que denunciou o incidente nas redes sociais, e este mostra-se determinado a levar o caso de “racismo e ofensas corporais” às barras da justiça.

Na sua narrativa, o seu amigo Dito Dali, explicou que a ida de Hossi ao WC, deveu-se ao facto de que “estava a ser perseguido por uma senhora branca e por um “mulato” que o abordaram. Os senhores questionavam a presença do Hossi naquele restaurante! O Hossi teve de justificar que estava acompanhado dos seus amigos mas teve que se levantar para ir ao banheiro antes de comer alguma coisa”.

“Os senhores não acreditaram na explicação dada por Hossi. Então decidiram chamar o corpo de segurança para escorraçar coercivamente até ao exterior do restaurante! O “tipo de pessoa” como Hossi só tinha que ser gatuno ou qualquer coisa parecida, menos cliente! Nós não sabíamos o que se estava a passar com o Hossi Sonjamba. Na tentativa de resistir para evitar que não fosse retirado à força do restaurante, sofreu violência física. Nós não sabíamos o que se estava a passar com ele”, disse Dito Dali, que se apercebeu do que se passava quando o Hossi lhe enviou uma mensagem pelo telefone.

“Um tal mulato nojento, por sinal supervisor do referido restaurante, respondeu-nos dizendo que o Hossi não estava em condições de frequentar aquele restaurante da Isabel dos Santos porque a roupa que ele vestia não estava em condições. Por este motivo foi confundido com alguém que foi para lá assaltar ou roubar fios de ouro no pescoço de brancos e brancas que ali se encontravam!”, narrou.

“Qual é o tipo de roupa que o Hossi usava? O Hossi estava vestido com uma calça normal, chinelas e uma camisola turke. Eu, Dito Dali, estava vestido com um par de ténis converse, calça da marca jeans roçado e uma camisola normal de mangas curtas. O Massilon esteve vestido com um calção, chinelos, e uma camisola normal. O Rude Samba, afro-americano, vestia uma camisola da selecção brasileira, calça jeans e sapatilhas. Tendo em conta o final de semana que era normal as pessoas estarem mais relaxadas e à vontade. O carácter e a posição social de uma pessoa não pode ser definido pela roupa e a tez da pele”, disse.

Dito Dali esclareceu que no restaurante havia muitos brancos e muitos mestiços que estavam “quase mal vestidos, seminus, outros quase vestiam farrapos lavados, Mas nenhum deles foi abordado nem espancado devido o tipo de vestuários”.

“O que houve é uma clara manifestação de atitudes racistas e subestimar as nossas capacidades financeiras. Nós não temos dinheiro, sim, mas para comer um peixe e tomar um sumo não íamos conseguir?” questionou Dito Dali.

Um incidente similar no Hotel Presidente

No auge da situação acima exposta, o Folha 8 recebeu uma outra denúncia proveniente de um cidadão que no dia 3 de Setembro se dirigiu-se ao Hotel Presidente, frente ao Porto de Luanda, onde teria um encontro com um empresário que lá se hospedava.

Posto na sala de recepção, o cidadão viu-se na necessidade de usar o quarto de banho, quando foi informado que os WCs são reservados apenas para os clientes que estão hospedados no hotel porque, outrora, pessoas de fora aproveitavam para tomar banho gratuitamente no local.

Perplexo, o denunciante questionou como é que o ambiente de negócios em Angola iria melhorar, quando num hotel não se permitem a utilização de WCs por visitantes.

Até ao momento o Folha 8 não conseguiu obter uma reacção oficial do Hotel Presidente.

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