O jornalista moçambicano Ericino de Salema foi hoje encontrado gravemente ferido no distrito de Marracuene, a oito quilómetros do centro de Maputo, onde fora raptado por desconhecidos, noticiou o canal privado STV. Lá como cá, quem se atreve a pensar fora da “educação patriótica” sujeita-se a chocar com a morte.

Por Orlando Castro

Em 2016, o politólogo e comentador do programa “Pontos de Vista”, José Macuane, foi baleado nas pernas por desconhecidos e abandonado numa estrada à saída de Maputo, depois de ter sido levado de carro perto da sua residência num bairro do centro de Maputo.

Gay Talese (esse perigoso inimigo do regime angolano) no livro “The Kingdom and the Power” (“O Reino e o Poder”), publicado em 1971, diz que “o papel da imprensa, numa democracia, é atravessar a fachada dos factos”.

E é por isso que, em Angola, a repressão selvagem, o assassinato de cidadãos indefesos, a violação sistemática das leis e da Constituição, a manipulação dos tribunais – entre tantos outros exemplos – dificilmente são notícia.

Como diz Gay Talese, cabe ao jornalista procurar incessantemente a verdade e não se deixar pressionar pelo poder público ou por quem quer que seja. Não interessa se as opiniões são do Secretário-Geral da ONU, da Rainha de Inglaterra, do Presidente da República de Portugal ou do “dono” de Angola.

Ou, segundo o jornalista inglês Paul Johnston, o jornalismo sério, objectivo e imparcial sabe “distinguir entre a opinião pública, no seu mais amplo sentido, que cria e molda uma democracia constitucional, e o fenómeno transitório, volátil, da opinião popular”.

Falar hoje da regra basilar do regime angolano (até prova em contrário todos somos… culpados) é algo que desagrada aos poderes políticos de Angola e das suas “colónias” (caso de Portugal), bem como ao poder económico nacional ou global.

Em Portugal, que se diz uma democracia consolidada, grande parte da comunicação social amplia a voz dos donos do poder, na circunstância o MPLA, esquecendo que a sua função básica é dar voz a quem a não tem (20 milhões de pobres).

Aliás, fica aqui um repto aos (poucos) Jornalistas portugueses e angolanos: Digam-nos quantas vezes e onde leram, viram ou ouviram que o ex-presidente de Angola nunca foi nominalmente eleito ao longo dos seus 38 anos de poder ditatorial.

Sim, é verdade. Temos medo, senhor Presidente João Lourenço. Temos mas sabemos como o combater, como o vencer. Na mesma proporção em que (usando os jovens activistas como exemplo) o regime que agora lidera, e do qual fez parte nas últimas décadas, aumentou o medo em Angola, nós aumentamos a nossa resistência a esse vírus canibalesco que alimenta a nossa sociedade esclavagista.

Como sempre, o regime do MPLA (pouco importa quem é o presidente ou o vice-presidente) não aceita que no seu reino existam pessoas que pensem de forma diferente. Embora – reconhecemos – tivéssemos esperança que consigo fosse diferente, a verdade é que o Folha 8 continua a estar para o seu regime como o semanário francês “Charlie Hebdo” estava, em Janeiro de 2015, para os fanáticos… pouco importa se eram árabes, europeus ou africanos.

Por cá, a liberdade de expressão (quando não coincide com a verdade oficial) representa um atentado contra a segurança do Estado e as Redacções livres são um bando de malfeitores. Por cá, ou seja por Angola, todos os poderes instituídos defendem oficialmente a liberdade de expressão e de imprensa… nos outros países. A nível interno isso é uma chatice.

E por falar em jornalistas, recordamos que o jornalista Carlos Cardoso foi assassinado, em Moçambique, no dia 22 de Novembro de 2000 porque, como Jornalista, fazia uma séria investigação à corrupção que rodeava o programa de privatizações apoiado pelo Fundo Monetário Internacional.

Para Mia Couto, “não foi apenas Carlos Cardoso que morreu. Não mataram somente um Jornalista moçambicano. Foi assassinado um homem bom, que amava a sua família e o seu país e que lutava pelos outros, os mais simples. Mas mais do que uma pessoa: morreu um pedaço do país, uma parte de todos nós”.

Embora sejam uma espécie em vias de extinção, os Jornalistas continuam (em todo o mundo) a ser uma espinha na garganta dos ditadores.

No Folha 8 o principal visado é, continua a ser, o nosso director, William Tonet. Razões? A palavra aos energúmenos de ontem, aos que deram o salto e são de hoje, aos que não foram de ontem mas são de hoje, aos que são de hoje mas já se preparam para ser de amanhã: “Pela rudeza dos escritos, no seu jornal, onde não falta a regularidade de publicação de segredos do Estado, calúnia e difamação, contra os dirigentes do partido, o MPLA, e membros do governo”.

O tom ameaçador, como já por diversas vezes aqui demos conta, sobe sempre ao seu mais alto patamar quando algum facto ou acontecimento pode indiciar minimamente uma vitória, uma pequena vitória que seja, do Folha 8. A gloriosa, contínua e imortal luta dos nossos jovens activistas e a vitória, embora parcelar, dos direitos humanos, trouxeram ao atrofiado cérebro de quem contesta o passado mas dele não consegue sair, entre muitos outros de muito mais relevo, um fantasma chamado Folha 8.

Carlos Cardoso, segundo Mia Couto, morreu porque “a sua aposta era mostrar que a transparência e a honestidade eram não apenas valores éticos mas a forma mais eficiente de governar”. É uma boa causa para morrer.

Carlos Cardoso morreu, “por ser puro e ter as mãos limpas”. Morreu “por ter recusado sempre as vantagens do Poder”. Morreu por ter sido, por continuar a ser, o que muito poucos conseguem: Jornalista. Está a ver senhor Presidente João Lourenço onde está a força da nossa razão?

“Liquidaram um defensor da fronteira que nos separa do crime, dos negócios sujos, dos que vendem a pátria e a consciência. Ele era um vigilante de uma coragem e inteligência raras”, afirmou Mia Couto num testemunho que deveria figurar em todos os manuais de Jornalismo, que deveria estar colocado em todas (apesar de poucas) Redacções onde se faz Jornalismo, que deveria ser obrigatoriamente lido por todos os membros do nosso Governo.

O sentimento que nos fica é o de estarmos a ser cercados pela selvajaria, pela ausência de escrúpulos dos que enriquecem à custa de tudo e de todos. Dos que acumulam fortunas à custa da droga, do roubo, do branqueamento de dinheiro e do tráfico de armas. E o fazem, tantas vezes, sob o olhar passivo de quem devia garantir a ordem e punir a barbárie.

Por cá, como por Moçambique, os algozes continuam apostados em matar os mensageiros. Ainda não se convenceram que matar o mensageiro não resulta. A liberdade continua viva.

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