O MPLA (versão Eduardo dos Santos) apontou hoje obstruções ao processo de transição política em Angola, defendendo que a presença regular de Isabel dos Santos, filha do ex-chefe de Estado e presidente do partido, na sede nacional é normal. Aliás, no reino do partido que nos (des)governa desde 1975, tudo é normal.

A posição surge numa nota divulgada pelo MPLA, em resposta a notícias dando conta de que, desde a saída do poder de José Eduardo dos Santos, a empresária é vista regularmente a trabalhar na sede do partido, no poder desde 1975.

“Há gente que tenta, a todo custo, obstruir o processo de transição em curso”, critica o partido, na nota pública, presumindo-se que possa ser também uma resposta aos militantes do MPLA (versão João Lourenço).

Colocada na Presidência do Conselho de Administração da petrolífera Sonangol pelo pai, então Presidente da República, em Junho de 2016, com o esmagador apoio dos dirigentes do MPLA (entre os quais João Lourenço), Isabel dos Santos foi exonerada das funções em Novembro passado, pelo novo chefe de Estado, João Lourenço, que é vice-presidente do MPLA.

O partido refere que, desde que José Eduardo dos Santos “lançou as bases para que a transição política em Angola se desenvolvesse com a acuidade que se impõe”, têm surgido “uns tantos ‘advogados em causa própria’, ávidos para a obstrução do processo, especulando e espalhando muito intriga e difamação”.

“Questionar, por exemplo, a presença de um militante, no caso vertente a camarada Isabel dos Santos, militante do MPLA, que tem direitos e deveres como tal e como cidadã, na sede nacional do partido é a mais evidente deturpação dos factos. O MPLA não pode e não vai vergar-se a intrigas baratas e ao segregacionismo de quem quer que seja”, enfatiza a nota do partido, liderado por José Eduardo dos Santos.

Com uma linguagem agressiva e típica da escola de António Luvualu de Carvalho, a nota refere ainda que o MPLA “é um partido integrador, que não discrimina nem exclui ninguém”.

“Se até mesmo aqueles que ontem pertenceram a outros partidos hoje convivem no seio do MPLA com todo o à vontade, porque não aqueles que nasceram dentro dele?”, questiona a nota do partido, sobre as críticas à presença assídua de Isabel dos Santos na sede, em Luanda.

E questiona muito bem. O partido faz muito bem em, de forma indirecta, defender a dicefalia existente, por enquanto, no país. É que, para o comum dos cidadãos, é mais fácil perceber o que é a bicefalia do que aquilo em que o MPLA poderá tornar-se: um bicho heptacéfalo.

Desde que deixou a Presidência da República em Setembro, ao fim de 38 anos, José Eduardo dos Santos tem trabalhado regularmente na sede do MPLA, partido a que continua a presidir, tendo orientado várias reuniões, entre o bureau político e o comité central, só desde Dezembro, somando pontos junto dos que defendem que o Presidente da República, por ser – ou dever ser – presidente de todos os angolanos, não deve ser líder de um partido, tal como acontece em muitos países com democracias estabilizadas.

João Lourenço foi eleito Presidente da República nas eleições gerais de Agosto, pelo MPLA, e tem propagandeado uma política de combate à corrupção e ao desvio de dinheiros públicos, criticando a impunidade do passado, com a qual foi conivente durante décadas. Afastou ainda vários filhos e outros elementos próximos do anterior chefe de Estado da administração de várias empresas e instituições públicas, granjeando um forte (mas já em desaceleração) apoio popular interno.

Com José Eduardo dos Santos na presidência do MPLA e João Lourenço na Presidência da República, a oposição angolana tem acusado a actual estrutura no poder de bicefalia, uma crítica que é oficialmente desmentida.

O Presidente angolano disse, contudo, a 8 de Janeiro, que não sente crispação com o ex-chefe de Estado José Eduardo dos Santos, mas aguarda que cumpra o compromisso anteriormente assumido, de deixar a vida política (e a liderança do partido) em 2018. Tal como os angolanos aguardam que o próprio João Lourenço passe das palavras aos actos, começando a cumprir as promessas eleitorais.

“Só a ele compete dizer se o fará, se vai cumprir com esse compromisso. Quando isso vai acontecer, só a ele compete dizer”, disse João Lourenço.

Folha 8 com Lusa

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