A empresária Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, questionou hoje a estratégia do governo do MPLA, liderado por João Lourenço, para sair da crise em que continua mergulhado, após um ano de constantes subidas na cotação do petróleo.

Nas redes sociais, a empresária acrescenta que Angola continua mergulhada numa “profunda crise económica”, em recessão e com as empresas angolanas com “enormes” perdas financeiras, questionado qual a estratégia do actual Governo para inverter a situação.

“Preço do barril está atingir barra de 80$/barril. Faz quase 1 ano de ‘petróleo está em alta’ e continuamos mergulhados numa profunda crise económica, Angola está em recessão. Empresas angolanas c/perdas financeiras enormes. Qual a estratégia?”, escreveu Isabel dos Santos no Twitter, texto acompanhado por um quadro em que se destaca que o crude atingiu os 79,08 dólares/barril.

O comentário surge depois de o pai, José Eduardo dos Santos, ter abandonado, sábado, a vida política activa, quando ao fim de 38 anos, no VI Congresso Extraordinário do MPLA, passou a liderança do partido ao actual chefe de Estado angolano, João Lourenço.

Por sua vez, João Lourenço, que ao fim de dois meses como Presidente de Angola exonerou Isabel dos Santos do cargo de presidente do Conselho de Administração da petrolífera do MPLA, Sonangol, completa no final deste mês o seu primeiro ano de governação.

A 4 de Setembro, em conferência de imprensa, a UNITA questionou para onde vai o excedente do petróleo em Angola, cujos números apontam para uma acumulação de um mínimo total de 1.600 milhões de dólares (1.400 milhões de euros) nos últimos seis meses.

Na ocasião, o líder do grupo parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, referiu que o preço médio do barril de petróleo no mercado internacional, segundo dados da OPEP, cifrou-se em 67 dólares (58 euros) enquanto o preço de referência no Orçamento Geral do Estado (OGE) angolano é de 50 dólares (43 euros), o que dá um diferencial positivo de 17 dólares (14 euros) por barril.

O líder do grupo parlamentar do maior partido da oposição que o MPLA permite sublinhou que os dados fazem estimar que Angola acumulou, “no mínimo, um total de 1.657.149.120 dólares”, levantando a questão: “para onde vai o excedente do petróleo”.

“Os angolanos precisam de saber, pois este valor deveria ir para a reserva estratégica do Estado”, exortou Adalberto da Costa Júnior, denunciando que a suposta “falta de transparência” é a causa do desaparecimento de mais de 600 mil milhões de dólares (520 mil milhões de euros) das “múltiplas reservas estratégicas e que os angolanos ficam sem saber o destino”.

As lições de Isabel

Quando entende, e entende quase sempre com raro e afinado sentido de oportunidade, Isabel dos Santos utiliza as redes sociais para os nervos de João Lourenço à flor da pele. Foi isso que fez anteriormente quando criticou (e bem) a falta de atractividade externa de Angola, pela dificuldade em repatriar dividendos. Na altura João Lourenço estava na Europa a tentar captar investidores estrangeiros.

Isabel dos Santos, exonerada (sem razões técnicas objectivas) por João Lourenço, questionava e continua a questionar a atractividade do país, do ponto de vista dos investidores estrangeiros.

“Qual é o investidor que vai entrar se não dão autorização aos actuais investidores estrangeiros para levarem os lucros em dólares”, aponta Isabel dos Santos, referindo-se às dificuldades que as empresas e investidores enfrentam, nos últimos anos, para repatriar lucros e dividendos, devido à escassez de divisas em Angola.

Recorde-se que também a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) revelou que a dívida de Angola às companhias aéreas estrangeiras, em fundos bloqueados, é a segunda mais elevada do mundo. Em causa estão fundos das companhias com origem na venda de passagens aéreas que depois não conseguem repatriar, no caso de Angola e segundo a crónica versão oficial do Estado/MPLA devido à forte crise económica, financeira e cambial que o país atravessa desde finais de 2014.

Desde que foi exonerada da Sonangol, por decisão mais política do que técnica, mais pessoal do que colectiva, mais por interesses pessoais do que empresariais, Isabel dos Santos tem sido visada regularmente por várias notícias sobre alegadas irregularidades nos 17 meses de administração na petrolífera.

No entanto, Isabel dos Santos não leva desaforo para casa e a 11 de Dezembro, por exemplo, referiu-se à situação na Sonangol, acusando a actual administração, que em Novembro passou a ser liderada por Carlos Saturnino, de “despedimentos em massa”, nomeadamente de colaboradores que lhe eram próximos.

Numa publicação com o título “Carta Aberta”, que colocou nas redes sociais, como tem sido hábito desde que foi exonerada, Isabel dos Santos assumiu estar a partilhar “uma situação preocupante que tem ocorrido nos últimos dias” na petrolífera.

“Estão a ocorrer despedimentos em massa! Os assessores, os directores, e todos colaboradores que foram promovidos ou que entraram para a Sonangol durante a vigência do último conselho de administração estão a ser todos despedidos, ou enviados para casa”, afirmou a empresária.

Isabel denunciou mesmo que estavam a ser “conduzidos interrogatórios à porta fechada, com gravadores em cima da mesa, alegando um falso inquérito do Estado e um falso inquérito do Ministério do Interior, intimidando as pessoas para coercivamente responderem às questões”.

“Este procedimento é ilegal. Só as autoridades judiciais ou policiais podem fazer interrogatórios. É preciso respeitar o direito dos trabalhadores”, escreveu Isabel dos Santos, acrescentando, sobre os colaboradores que estavam a ser despedidos, que muitos “recentemente largaram outros empregos para integrarem a Sonangol, porque acreditaram no país e queriam ajudar Angola a crescer”.

Folha 8 com Lusa

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