Centenas de angolanos (quase todos gente que, ao contrário das “ordens superiores”, pensa pela própria cabeça) prestaram hoje homenagem a Jonas Savimbi no cemitério municipal do Luena, província do Moxico, mas a dúvida sobre se os restos mortais do líder fundador da UNITA estão mesmo naquela campa persistem, 16 anos depois.

Morto em combate naquela província do leste de Angola a 22 de Fevereiro de 2002, as cerimónias do aniversário da morte do histórico guerreiro, político e líder angolano (mesmo que o MPLA não o considere como angolano) decorreram hoje em todo o país, mas foram mais sentidas no cemitério do Luena, onde, na versão oficial, foi enterrado, depois de ter sido abatido na mata pelas forças governamentais, no comando das quais estava o actual Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Geraldo Sachipengo Nunda, ex-general das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola – UNITA).

Totalmente fechada, em cimento, e sem qualquer símbolo do partido do Galo Negro, a campa de Jonas Savimbi no Luena foi hoje palco de sentidas emoções. Mesmo que o local, para muitos, seja apenas simbólico, por ainda se acreditar que os restos mortais podem ter sido colocados pelo Governo angolano, liderado pelo MPLA desde 1975, noutro local, eventualmente em Luanda.

“Sabe o MPLA se o corpo está aqui ou não. Nós aceitamos porque foi nesse local onde nos indicaram, que foi ali que sepultaram o corpo do nosso dirigente. Portanto, temos efectuado essas honras anualmente”, explicou, junto à sepultura, o “mais velho” Afonso Nzimba, brigadeiro na reforma e que combateu ao lado de Savimbi entre 1966 e 2002.

Aos 75 anos, é um dos que visita a campa do fundador da UNITA no Luena regularmente, sobretudo nos dias especiais, e ainda não esqueceu a notícia da morte: “O dia 22 de Fevereiro para mim foi um dia de grande tristeza porque vi-me isolado. E o povo angolano também”.

Liderava então operações da UNITA na região 29, no sul de Angola, quando ouviu o Governo reclamar vitória. A mesma que o brigadeiro, 16 anos depois, relativiza, emocionado.

“Ele [Governo] pensou assim, que a morte do doutor Savimbi constituiu vitória. Mas, para nós, constituiu uma grande perda, ao povo angolano. Porque até agora o povo angolano continua sem a verdadeira paz, continua na miséria”, desabafa, rodeado de outros veteranos da guerra que comparecem hoje no cemitério do Luena, a mais de 1.200 quilómetros de Luanda, juntamente com dezenas de jovens.

Como é hábito, no cemitério, no interior e no exterior, marcaram presença vários agentes policiais, que seguiram de perto as cerimónias, as quais decorreram durante uma hora, nas línguas tradicionais e em português.

Jonas Malheiro Savimbi morreu aos 67 anos, acossado por uma ofensiva das tropas governamentais, a lutar, tal como o fizera ao longo da vida, primeiro contra o regime colonial português, depois contra o imperialismo soviético através dos seus lacaios do MPLA.

Ao longo de quase 40 anos perseguiu o ideal de resgatar a etnia ovimbundo, maioritária no centro e leste de Angola, onde nasceu, da tradicional dominação dos kimbundos, dominantes na região de Luanda e centro norte.

Foi derrubado por 15 tiros próximo do rio Lungué Bungo, e os seus restos mortais permanecem no cemitério de Luena, leste de Angola. “Supostamente”, aponta o líder da UNITA no Moxico, João Caweza.

“Estamos ainda com grandes dúvidas. É verdade que quem mandou executar o doutor Savimbi, ele, mais do que nós, conhece o verdadeiro local onde é que o doutor Savimbi se encontra neste momento”, afirma.

Passados 16 anos da morte, que levou dois meses depois à assinatura dos acordos de paz, a UNITA e a família continuam sem fazer o funeral prometido, no cemitério familiar, na aldeia de Lopitanga, município do Andulo, a cerca de 130 quilómetros a norte do Kuito, província do Bié.

“Caberá agora às autoridades, 16 anos dá para se fazer um processo, porque a reconciliação nacional é um processo, mas que tem de ser seguido com actos. E o Governo, que diz estar em condições para uma reconciliação genuína, já que nós estamos a fazer também 16 anos de paz, esperamos que nos diga que o doutor Savimbi está aqui ou se encontra noutro local”, desabafa João Caweza, também deputado eleito pelo Moxico nas listas da UNITA.

Da incerteza sobre a correta localização do corpo de Savimbi à falta de autorização do Governo para a exumação do corpo ou mesmo devido ao facto de o cemitério de Lopitanga ainda permanecer parcialmente minado, tudo tem ajudado a dificultar o processo.

“A própria UNITA saberá se assumir. Levaremos os restos mortais dos nossos entes queridos [outros dirigentes também mortos em 2002], dos nossos dirigentes, para serem sepultados nos locais mais condignos, conforme é, também, a pretensão da própria família”, sustenta João Caweza.

Líder da UNITA no Moxico desde 2005, diz que os contornos da morte ainda lhe “reservam grandes dúvidas”, até porque foi também no Moxico onde Jonas Savimbi fundou a UNITA e onde acabaria por falecer.

“Mas porque razão manter uma pessoa morta, mas escondida? (…) Será que o doutor Savimbi continua a lutar sozinho?”, questiona.

Do ponto de vista dos que, com sinceridade, alguma vez tiveram o Galo Negro colado ao peito, o Povo Angolano, Angola, África e todos os que pugnam pelos ideais de liberdade e democracia no Mundo, ainda hoje estão de luto. Luto por diversas razões.

Jonas Malheiro Savimbi, Presidente da UNITA, tombou heroicamente em combate! Tão heroicamente que as Forças Armadas de Angola (ou pelo menos parte delas) tiveram necessidade de O humilhar… mesmo depois de morto. Ainda hoje o fazem. Trataram e tratam Savimbi como um cão raivoso, como um troféu de caça. Até na morte Jonas Savimbi atemorizou os militares de José Eduardo dos Santos.

Os adversários, ou até mesmo os inimigos, merecem respeito. E isso não aconteceu. As FAA não humilharam Jonas Savimbi, humilharam uma grande parte do Povo Angolano.

A África perdeu um dos seus mais insignes filhos, cuja vida e obra O situam na senda dos arautos da História Africana como N’Krumahn, Nasser, Amílcar Cabral, Senghor, Boigny e Hassan II.

Jonas Malheiro Savimbi tombou em combate ao lado das suas tropas e do Povo mártir, apanágio só concedido aos Grandes da História.

Deixou-nos como maior e derradeiro legado a sua coragem e o consentimento do sacrifício máximo que pode conceder um combatente da liberdade, a sua Vida.

Fiel aos princípios sagrados que nortearam a criação da UNITA, Savimbi, rejeitando sempre e categoricamente os vários cenários de exílios dourados, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou na sua Pátria querida. A ela tudo deu e nada tirou, ao contrário de outros.

Fisicamente Savimbi morreu. Fisicamente foi humilhado. Mas uma coisa é certa. Não há exército que derrote, mate ou humilhe uma cultura, um povo, uma forma eterna de ser e de estar. Por isso, Jonas Savimbi continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma eterna de ser e de estar.

“Há coisas que não se definem – sentem-se». É isto que José Eduardo dos Santos nunca compreendeu. É isso que João Lourenço parece não compreender. A UNITA não se define – sente-se. Jonas Malheiro Savimbi não se define – sente-se. Angola não se define – sente-se.

E porque se sente, e não há maneira de matar o que se sente, é que Jonas Malheiro Savimbi continuará vivo. Vivo no esforço pela paz em Angola, vivo pela dignificação dos angolanos, vivo pela liberdade, vivo pela coerência… vivo porque os heróis não morrem nem são humilhados.

Folha 8 com Lusa

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