O padre angolano Pio Wakussanga, vencedor do prémio africano “Defensor de Direitos Humanos de 2018”, considerou hoje o galardão como um “estímulo” para “continuar a lutar” pela causa, sobretudo no interior do país “praticamente abandonado”.

Em declarações à agência Lusa a partir da província do Huambo, o sacerdote, galardoado devido ao seu trabalho na defesa dos Direitos Humanos no Sul de Angola, disse que o prémio se traduz também num “grande desafio” no contexto da luta pelos direitos económicos, sociais e culturais do país.

“É um estímulo e, ao mesmo tempo, é um grande desafio, significando que isto não é o fim da linha. Temos de continuar a lutar tendo em conta os grandes desafios que se colocam aos defensores aos direitos humanos, no caso, em Angola”, apontou.

O reconhecimento do padre Pio Wakussanga foi feito pela Southern África Human Rights Defenders Network (Rede de Defensores de Direitos Humanos da África Austral), tendo o prémio sido entregue em Joanesburgo a 13 deste mês.

Segundo o responsável da organização não-governamental Construindo Comunidades em Angola, o país tem ainda “grandes desafios no contexto dos direitos civis e políticos”, lamentando a “desatenção das autoridades” pelo interior de Angola.

“Basta olhar para o interior, para as zonas rurais e ver como é que o interior está praticamente abandonado. As políticas do desenvolvimento priorizam o litoral e as cidades próximas do litoral”, argumentou.

“Com esta crise económica, esta crise de visão que o país vive, isto implica que temos de lutar imenso para que os líderes do executivo consigam dar uma grande atenção para o desenvolvimento das comunidades do interior”, acrescentou.

No quadro da aplicação dos direitos económicos, sociais e culturais, incluindo o direito ambiental, adiantou, “tem de se olhar para o impacto das alterações climáticas e as consequências que tudo isso resulta”.

Questionado se o Programa do Governo angolano sobre Desconcentração de Poderes dos Governos Provinciais para Administrações Municipais, em curso no país, vai concorrer para o desenvolvimento do interior de Angola o sacerdote disse “não ter ilusões”.

“Não tenho ilusões, esta é apenas uma medida simbólica. O que o interior do país requer é uma verdadeira democracia, o plano de desenvolvimento do interior não depende de um ato simbólico de desconcentração”, indicou.

Requer sim, assinalou, “a directa participação do cidadão na gestão da coisa pública e não aquele plano que foi desenhado, o chamado Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN 2018-2022)”.

“Olhando para o mapa dos chamados pólos de desenvolvimento, são urbanos e localizados no litoral e tem de haver um mapa radicalmente diferente daquele e com a participação das comunidades”, salientou.

O também pároco da paróquia de Nossa Senhora de Fátima do Chiange, sede municipal dos Gambos, província angolana da Huíla, salientou ainda que “é preciso potenciar a grande riqueza abandonada” no interior do país.

“Temos potenciais na zona leste do país, não me refiro aos diamantes, mas sim às riquezas que o solo dá, como a agricultura, avicultura, a aquicultura, é preciso uma aposta séria nessas áreas e não uma simples medida de desconcentração”, rematou.

Lusa