Dezenas de militantes da Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA) exigiram a renúncia do líder do partido, Lucas Ngonda, a quem acusam de “má gestão dos fundos” e de deixar o partido histórico à beira da extinção.

A exigência foi feita no fim-de-semana durante uma manifestação em Luanda, em que os militantes exigiram também a renúncia à Assembleia Nacional do único deputado da FNLA, eleito nas eleições gerais de 2017.

Os manifestantes, oriundos de Luanda e de outras localidades do país, partiram do Largo do Soweto até à travessa António Manuel de Noronha, na Vila Alice, onde está a sede da presidência do partido, que se encontrava fechada.

O presidente da FNLA não compareceu no local para dialogar, tal como esperavam os militantes, que pretendiam também realizar uma vigília, inviabilizada, porém, pelas autoridades.

Nas primeiras eleições gerais de 1992, com o “histórico” presidente Holden Roberto, que morreu em 2007, a FNLA conseguiu eleger cinco dos 220 deputados à Assembleia Nacional.

Holden Roberto, dirigente nacionalista angolano e líder de um movimento considerado, tal como o MPLA e a UNITA, terrorista durante a Guerra Colonial portuguesa (1961/1974), nasceu em São Salvador do Congo, Mbanza Congo, na província angolana do Zaire, a 12 de Janeiro de 1923, tendo morrido em Luanda a 2 de agosto de 2007.

Nas eleições de 2008, a FNLA, já com Lucas Ngonda como líder, conseguiu eleger apenas três deputados, número que ficou reduzido a dois nas eleições gerais e 2012 e apenas a um nas de agosto de 2017, precisamente o líder do partido.

Os manifestantes da FNLA pretendem, com o afastamento de Lucas Ngonda, criar uma comissão de gestão para preparar um congresso destinado a eleger um novo líder.

Em Junho último, um grupo do comité central, que reuniu 50% mais um dos membros do Comité Central do partido, organizou um congresso que elegeu Fernando Pedro Gomes como o novo líder.

Uma semana depois, já em fins do mesmo mês, Lucas Ngonda também realizou um conclave, em que expulsou, alegando “indisciplina partidária”, vários membros, entre eles Fernando Pedro Gomes, fundador da nova ala do partido, e Ndonda Nzinga, João Lombo e Tristão Ernesto, destacados dirigentes do Comité Central da FNLA.

Na ocasião, Lucas Ngonda afirmou a necessidade de se combater o regionalismo dentro do partido.

Honrem, ao menos, a memória

Será pedir muito? Ao menos que Holden Roberto não seja apenas recordado quando alguém vir a lápide em pedra no seu túmulo no cemitério de Mbanza Kongo.

Neste e em outros espaços de liberdade, ainda Holden Roberto era vivo, defendemos, pregando obviamente para e no deserto, que Angola (entenda-se o Governo, o MPLA, o estado – são sinómimos) deve um pedido desculpas, agora e infelizmente póstumo, ao fundador da FNLA. Continua a ser o mínimo se, por acaso, restar alguma vergonha… Mas não resta.

Embora possam ser mais as ideias e as práticas que nos separavam de Holden Roberto do que as que nos uniam, ele foi uma das três mais relevantes personalidades do nacionalismo angolano, a par de Agostinho Neto e Jonas Savimbi.

Nos últimos anos de vida viu quanto ingrato era o poder na sua terra. Que país é Angola que teve e tem tanta dificuldade em reconhecer a Holden Roberto, como a Agostinho Neto e Jonas Savimbi, o estatuto de Herói Nacional? Por que razão, o Estado teve tanta necessidade de humilhar Holden Roberto? Será assim que se luta pela instituição de um Estado de Direito, pela reconciliação?

Não nos agradou que este velho guerrilheiro, natural de Mbanza-Congo, no Norte do país, tenha enfrentado sérias e mortíferas dificuldades para pagar os tratamentos médicos que não conseguia em Angola.

Não nos agradou que este velho guerrilheiro tenha enfrentado dificuldades para pagar os tratamentos médicos, quando Maria Augusta Tomé, ou simplesmente “Magu”, esposa do então Primeiro-Ministro, Fernando Dias dos Santos “Nandó”, alugava um Falcon da SonAir para fazer exames médicos de mera rotina… em Londres.

Veremos se Angola estará um dia disposta a, mesmo tarde e a más horas, respeitar a memória do “Velho” Holden. É que se o fizer está igualmente a respeitar os angolanos.

Folha 8 com Lusa

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