Esta semana estive envolvido numa intensa actividade pessoal e profissional e visto que um país-irmão, quer de angolanos quer de portugueses, esteve eleitoralmente reduzido a duas fracturantes opções: extrema-direita fascista militarizada e extrema-esquerda comunista e intelectualizada; e, dado que abomino ambas as ideologias como forma civilizada de governo, decidi fazer como a avestruz e enterrar-me de todo e todo – não só a cabeça – numa tórrida areia, quiçá do deserto do Namibe, que mais ano menos ano hei-de visitar.

Por Brandão de Pinho

Não vi TV (quase) nem quase li jornais (excepto um pouco do F8) e fugi da net, nem sempre com sucesso. Almejei ser eremita e iletrado… e quase conseguia.

Desta forma, para fugir ao tom de crónicas passadas não vou falar de João Lourenço e especular como raio é que o salário de um General lhe permitiu tornar-se tamanho latifundiário (ao menos que cultive as terras como é dado, que escolha judeus em vez de chineses – para consultores – e empregue população local produtiva e bem paga) e de quão imprópria e desadequada é a sociedade comercial que vem zumbindo com o seu incómodo e insectoide amigo Mosquito e de como será estranho um governante de um grande país como é Angola – creio que havendo escrutínio da oposição e “media”, e, uma aposta firme na educação de qualidade (nem que seja preciso mandar vir “profes tugas” desempregados, às carradas, numa primeira fase) Angola suplantará a RSA, a Nigéria e o Norte de África e tornar-se-á na potência de África, e, tendo em conta que mais cedo que tarde a humanidade irá depender de África outra vez, só que agora não na condição de colónia – seja simultaneamente banqueiro, lavrador, general na reserva e presidente, para além de escrupuloso, fino e requintado viajante a expensas da república, como li num artigo do Folha 8.

A propósito de judeus, devo lembrar os mais novos que antes da criação do estado de Israel o movimento sionista chegou a ponderar e a propor a Salazar (ele próprio com costelas judaicas como grande parte dos portugueses e por inerência grande parte dos mulatos angolanos) a hipótese de transformar o norte de Angola numa Grande Israel.

Infelizmente não vingou essa ideia bem como não vingaria mais tarde a ideia de transferir para Luanda a capital do vasto “império” português. Grandes erros históricos no meu pouco entendimento.

Convém salientar também o quão avançados são os israelitas em sectores fundamentais para a economia angolana como a agricultura, reciclagem e reaproveitamento de resíduos, gestão parcimoniosa de recursos, aproveitamento da água e introdução de inovadoras técnicas de irrigação, na lapidação e comércio diamantíferos e especialmente, a nível militar, pois Angola precisa de ter um exército, marinha e força aérea modernizados e eficazes para ser a grande referencia a par da RSA na África Austral.

Assim, quando as crises se sucederem num futuro próximo, quer sejam de refugiados, de água, de petróleo, de terra arável, crises climáticas ou num contexto de clima iminente de guerra mundial, a Terra dos Palancas Negras venha a ter ao leme da sua caravela um timoneiro preparado, qual “xadrezista” avisado, com uma estratégia correcta, ajeitada às circunstâncias e bem alinhavada para fazer todas as jogadas de forma não só a poder defender-se, como também a reforçar a sua influência e poder geo-estratégicos.

Neste contexto, assaz previsível e neste jogo de forças sairão alianças com as potências mundiais e o bem-estar e riqueza dos angolanos estariam assegurados que é para isso que os governados elegem os governantes (ainda que JLo jamais tenha sido alvo de escrutínio se exceptuarmos aquele simulacro de eleição “emepelaísta” no seio de um pseudo-congresso de ideologias mais absolutistas (“Le roi est mort, vive le roi”) do que democráticas e donde medrou um Presidente-Sol que irradiou e ofuscou temporariamente alguns angolanos… mas não todos, pois uma irredutível aldeia de patriotas angolanos guiada pelo F8 não fechou os olhos, nem sequer os semicerrou. Cuidado meu General.

Mas atenção que as Forças Armadas terão de estar sempre sobre a tutela do governo servindo apenas de garante da soberania e defesa da pátria pelo que um General a presidente é um precedente perigoso, excepto no caso do incorruptível General Eanes, figura incontornável no processo de transição para a democracia em Portugal mas que depois entregou o poder à sociedade civil meu caro JLo.

Os angolanos de si nada mais esperam que faça o seu trabalho de sapa e depois que se reforme e deixe o povo através das suas forças vivas, determinar o seu rumo já que cada ano que passa V. Ex.ª não vai indo para novo e a sua vocação talvez seja a de lavrador.

Entretanto poderá ir criando condições para o fortalecimento da democracia e que pare de sabotar e minar a oposição que se quer forte e escrupulosa da sua condição e função, e, que faça das próximas autárquicas um caso de sucesso no contexto africano sem quaisquer tipo de fraudes e com uma CNE séria e comprometida com os seus desígnios patrióticos e eivada dos mais elevados padrões democráticos ocidentais. Se fizer esse, nem que seja só isso, já seria merecedor de uma estátua de bronze.

No mínimo terá de haver tantos votos como votantes, mas menos eleitores do que população em determinado círculo eleitoral, e, o exercício do voto deverá estar consagrado a uma prova de vida qualquer, para impedir a tentação de os defuntos -levando ao extremo as suas obrigações cívicas – vão às urnas quando nas urnas deveriam permanecer, se me permitem o jogo de palavras.

Posto isto, leitor amigo, gostaria de partilhar convosco algumas ideias fruto do meu estudo e análise da História da Humanidade e das minhas meditações e reflexões.

Como saberão sou português e com orgulho mas também nutro um amor especial por todas as nações falantes da nossa língua e com relações históricas e culturais, particularmente com Angola, pese embora nunca tenha pisado o seu sacro solo. Nesse sentido foi com grande felicidade que aqui há atrasado li uma notícia no F8 (que por acaso não vislumbrei no Pravda mau-grado a desproporção imensa de meios que têm) sobre o alto grau de conhecimento dos Ilamba no que à siderurgia do ferro dizia respeito, sabedoria tal que proporcionava ainda que de forma artesanal um ferro de enormíssima qualidade como demonstrou uma académica brasileira que irei nomear mais à frente.

Neste ponto gostaria de fazer um parêntesis e explicar ao leitor o valor que a História e eu em particular damos à introdução da tecnologia do ferro na humanidade. Todavia há que ter em conta que esse factor aqui ou ali possa ter sido sobrevalorizado na medida em que, por exemplo, grandes civilizações ameríndias foram tão ou mais sofisticadas que as europeias sem usufruírem do ferro, no caso dos Incas dizem que nem a roda conheciam (lutavam com mocas de madeira) e no caso dos Maias e até do pai desses povos todos ameríndios, os Olmecas, a pedra de origem vulcânica – a obsediana, da qual neste momento um exemplar me serve de pisa-papéis tinha propriedades realmente notáveis e acutilantes (como o amigo leitor poderia verificar se estivesse aqui comigo e agora e visse o sangrento corte da polpa do meu dedo médio direito quando justamente quis comprovar as propriedades cortantes da obsediana e que me está a obrigar a usar o indicador para escrever no meu teclado salpicado de sangue em sentido literal e do qual agora emana uma melancólica fragrância a ferro devido às hemácias expostas ao ar).

No caso destas duas descomedidas civilizações e reportemo-nos aos Maias – da qual posso falar com mais propriedade pois já visitei o Iucatão mexicano – e convivi com indígenas enquanto a minha companheira de viagem esturricava ao sol – para o bronze – como uma lagarta indolente (por piada dizia-lhe que ela venerava tanto o Deus-Sol como os Maias, todavia ela não se ria), enquanto estes coziam uns espalmados bolos de farinha de milho numa pedra quente e os cortavam com facas dessa negra e notável pedra que “per si” só, tornaria redundante quaisquer esforços para elaborar tecnologia metalúrgica, pois estavam bem servidos.

Antes do ferro usavam-se outros metais mais fáceis de trabalhar como o cobre ou uma liga de cobre e estanho conhecida como bronze. Esses metais foram sem dúvidas importantes a todos os níveis, até no comércio e na abertura que este proporcionou no relacionamento mercantil entre os povos, mas o grande passo deu-se quando a conjugação de diversos factores favoreceu o domínio da Tecnologia do Ferro que não obstante ser um elemento extremamente abundante na crosta terrestre – muito mais que o cobre e o estanho – tinha um ponto de fusão tão elevado que rudimentares fogueiras não o conseguiam derreter.

Como a necessidade aguça o engenho, quando o cobre ou o estanho ou ambos começaram a escassear na maior das civilizações que o mundo já contemplou, a “africanissíma” civilização egípcia, houve necessidade de manter as rodas dentadas da evolução a remoinhar pelo que algures, alegada e hipoteticamente, numa ilha grega os autóctones, conjugando a existência de minério de ferro acessível; o conhecimento das técnicas de produção do carvão vegetal; a descoberta da forja, e por fim, o alto valor comercial desse produto – pois os negócios são o que faz girar o planeta dos terráqueos -, levaram a que a humanidade entrasse na Idade do Ferro, o que para mim foi o maior marco civilizacional e que verdadeiramente, de acordo com a minha veia mais alquimista e esotérica conjugou na perfeição os 4 elementos: Terra: Minério de Ferro; Fogo: Produzido através e devido ao Carvão; Ar: Atiçado do fole para a forja; e, Água: Contida num recipiente para dar têmpera ao ferro em brasa.

Diziam os romanos que o aço lusitano era o melhor e que as suas espadas eram tão tecnologicamente avançadas que foram adoptadas pelos seus exércitos e confesso que tal facto me satisfez quando me debrucei no estudo da romanização ibérica, mas também fiquei extremamente curioso e feliz quando soube que a brasileira Crislayne Alfagali (que recebeu este ano o Prémio Internacional de Investigação Histórica Agostinho Neto) fez uma intensa pesquisa sobre os ferreiros e fundidores da Ilamba e da Real Fábrica de Nova Oeiras na segunda metade do século XVIII e que os seus estudos mais uma vez comprovaram o quão distorcida era a História – de visão Euro-cêntrica e de matriz colonialista – que não enxergava a existência de uma Narrativa Africana antes da Invasão e colonização europeias.

Isto apesar de se saber que as civilizações sub-sarianas, pelo menos os povos banto, conheciam a tecnologia férrica e nas suas sucessivas vagas de migrações a partir da África Ocidental, primeiro para leste e depois para sul até que chegaram em diferentes vagas ao nosso actual torrão de forma que não devesse ser surpreendente a existência de um povo genuinamente angolano como os Ilamba, possuidores de tamanho conhecimento e com tal requinte no processo siderúrgico de produção do ferro e que com fornos artesanais perpetuaram esse conhecimento tendo mesmo conseguido preservá-lo e escondido das autoridades portuguesas, me embebeceu em especial devido à minha costela angolana e claro que obviamente despertou o meu interesse nesse povo e nesse tema.

Só quem lidou com o fogo e o ferro em ponto de fusão e o martelou vigorosamente numa bigorna assente num cavalete para produzir objectos únicos que o seu cérebro idealizou mas baseados em conhecimentos ancestrais, nascidos do suor do ferreiro, da sua força braçal, da sua habilidade no manejo do martelo e do metal e nos “timings” em que ora se deveria martelar, ora levar ao carvão em brasa, ora temperar na água, é que pode perceber. Visceralmente, o quão intrínseca é a relação entre o Homem e o Ferro.

Ser ferreiro é mais do que uma arte e ofício; é todo um estilo de vida. Os ferreiros são os alquimistas dos tempos passados e eu orgulhosamente ufano-me do dia – ia fazer 16 anos em breve – em que às escondidas do meu pai, no breu da noite, forjei uma faca para “estonar” (como dizia a minha avó) maçãs e suando em bica experimentei pela primeira vez o desafio que faria de mim um verdadeiro Homem e Ferreiro – erguer a imponente bigorna com os meus braços esticados e sustê-la no ar uns instantes, arremessando-a depois para longe não fosse esmigalhar-me e esbagaçar-me os pés.

Enfim e por fim era Homem e já nada nem ninguém tinha que temer e a impetuosidade furiosa e determinação inquebrantável que caracterizam todos os ferreiros de todos os tempos e de quaisquer latitudes como que em mim se tinham incorporado “ad eternum”.

Já nem Deus ou o Diabo temia, já nem o Diabo ou Deus reverenciava. Falsos ídolos a tê-los seriam todos os ancestrais ferreiros de todo o mundo e de todas as épocas, companheiros nesta arte venusta e esotérica de transformar a massa crua, incólume e disforme do ferro em bruto numa arte refinada.

Foto: Palácio de Ferro em Luanda, obra da autoria (não totalmente confirmada) de Gustave Eiffel e construído (pensa-se) na década de 1880.

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