Está-se a pedir demais ao governo da Angola do MPLA quando se deseja que seja fiel e coerente nas amizades. Ele é incapaz de ter um relacionamento próximo com a verdade, a sinceridade, a honestidade e a competência próprias de um país normal.

Por José Filipe Rodrigues

As primeiras e principais vítimas dessas atitudes e comportamentos são os angolanos em geral que vêem o país situado no lugar número 141, a nível mundial, entre os países mais atrasados do mundo.

O relacionamento entre os governos de Angola e de Portugal não se afasta dessa regra. Sabemos que a economia internacional é hipócrita. Também sabemos que os povos não se confundem com os governos que sofrem de miopia ou de contradições nos ideais de convivência. A megalomania do governo da Angola do MPLA e algum paternalismo dos governos da “portuga” possibilitam a gestação de desavenças que não facilitam um relacionamento adulto, sincero.

É desnecessário garimpar o passado para justificar as aberrações do presente. Se a História das Civilizações e Culturas se alimentasse apenas do garimpo do passado os Estados Unidos da América e a Inglaterra não teriam um relacionamento tão próximo no presente e não existiriam organizações como a dos países da Francofonia ou a Commonweath (a quem o MPLA pede tão ecolálica e caridosamente que aceitem Angola nessas organizações).

Se recuarmos algumas décadas poderemos verificar que foram alguns políticos portugueses quem ressuscitou o MPLA, quer através da parcialidade nos acordos do Alvor (confidenciado pouco tempo antes da morte por Almeida Santos), quer através da conivência para que o MPLA iniciasse a guerra civil em Angola. Nessa ocasião o MPLA era de “esquerda”, muito acarinhado e apaparicado pelo partido comunista. Depois vieram as guerras e o MPLA foi obrigado a obedecer às ordens da União Soviética e de Cuba para poder sobreviver.

O MPLA foi sempre muito limitado na visão e demorou demasiado tempo até poder observar que os ideais que impunha aos angolanos estavam condenados ao fracasso. Apesar de impor o “socialismo” soviético, muito cedo começaram a ser evidentes as práticas de cleptomania dos seus dirigentes. Neste aspecto, foram vários os acontecimentos desmascarados pela imprensa internacional, com um especial destaque para o Presidente, familiares e amigos próximos.

Quando deu o badagaio ao czarismo socialista soviético, o MPLA mudou a designação do regime cleptocrático de Angola e passou a chamar-lhe “socialismo democrático”, facilitando ainda mais a roubalheira, que designava por “acumulação primária de riqueza”.

Os acordos com Portugal serviram para bóia de salvação da “portuga”, durante a fase de maior crise económica e desemprego, e deram a possibilidade aos novos ricos angolanos de investirem ou esconderem a “acumulação primária de riqueza” na Europa.

Há um provérbio anglo-saxónico que diz: “quando o dinheiro avança até a porcaria ganha voz”. Foi exactamente o que aconteceu com os dirigentes do MPLA que, entre outros acontecimentos, até conseguiram impor o ingresso da Guiné Equatorial na organização dos países da lusofonia. Portugal passou então a assumir a posição de “contratado”, bem comportado, servidor dos Grandes Senhores da Guerra e das Contradições Ideológicas na África Austral.

A partir daí cresceram exponencialmente as excursões de dirigentes políticos portugueses a Luanda para prestarem vassalagem à cleptocracia angolana e a fuga de capitais para a “Lavandaria Portugal”.

As actividades esquisitas de Manuel Vicente, detectadas e investigadas em Portugal, provocaram o amuo dos “altos dirigentes” do MPLA e engasgaram o relacionamento entre os dois países. Mais uma vez o regime angolano venceu porque a rendição de Portugal, já existente no sistema político, estendeu-se ao sistema judicial, reconhecendo a “Imunidade Cleptocrática” do ex-vice-presidente de Angola.

Esse acto de rendição deu carta de alforria aos dirigentes políticos da “portuga” para reiniciarem as viagens de vassalagem ao MPLA e seus patrões sob o lema “quanto mais me bates mais preciso de ti”. A grande curiosidade que está presentemente no ar é: quando é que o António, o primeiro-ministro de Portugal, vai ser convidado para visitar o herdeiro do Zédu, o sócio do Zenu, João Lourenço?

É necessário enviar convite para o António ir prestar vassalagem ao herdeiro do Zédu, o sócio do Zenu, João Lourenço? O António poderá enviar o discurso que fez na Inglaterra, no Canadá, nos Estados Unidos e, esta semana, em Moçambique (que é sempre o mesmo) para ser lido por um dos locutores da TPA ou da RNA ou publicar no Jornal de Angola. Poupar-se-á assim muito dinheiro com as despesas protocolares.

A realidade é só uma, os cidadãos angolanos e os portugueses, irmãos na História e em muitas tradições, necessitam urgentemente de assistir a um relacionamento adulto entre os dirigentes políticos de Angola e de Portugal. Enquanto isso não acontecer o circo irá continuar em digressão com os palhaços a representarem papéis anedóticos já demasiado repetitivos.

Nota. O autor é engenheiro, mestre em Gestão de Empresas, terapeuta em Pediatria, Geriatria e Psiquiatria, escritor, poeta e contista. Natural do Huambo reside nos EUA.

NR. Este é mais um texto que, a solicitação do Folha 8, aborda a contínua e acelerada peregrinação de políticos portugueses a Angola.

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