No dia 11 de Novembro escrevemos aqui que até os que nunca quiseram saber quem era Bonga, estavam agora rendidos. Isto a propósito da Medalha de Bravura e do Mérito Cívico e Social, 1.ª Classe, outorgada por João Lourenço ao compositor a cantor Barceló de Carvalho (Bonga).

Também escrevemos que com uma medalha (condecoração), João Lourenço “comprava” mais uma fidelidade, mais um apoio para a sua causa populista. Acrescentámos que Bonga (como outros) não percebeu que a condecoração era uma forma de cegueira. Ou seja, que a partir dessa altura ele deixaria de ver que Angola tem 20 milhões de pobres, que é um dos países mais corruptos do mundo, que tem criminosos índices de mortalidade infantil.

Hoje, em entrevista à Lusa, Bonga confirma tudo o que escrevemos. Reconhecemos, contudo, que foi mais rápido do que estávamos a prever.

Bonga defendeu hoje que as mudanças que o Presidente de Angola está a efectuar “estão a ser sentidas pelos angolanos”, que já vêem algo mais do que a “cepa torta” em que o país caiu.

Numa entrevista à agência Lusa, em Luanda, o autor de “Lágrima no Canto do Olho”, de 76 anos, recusou a ideia de ser propagandista – “não o fui no passado, não o sou agora” -, mas destacou que as acções de João Lourenço estão a ter “grande impacto” quer interna quer externamente. É claro que isto não é propaganda. É apenas e só… propaganda.

“Se temos hoje o número um da política angolana, um novo presidente, que mudou, e está a fazer o que está a fazer, sentido pelos angolanos todos e pelo mundo, principalmente pelos países por onde já andou, as impressões que deixou tiveram um impacto tremendo”, explicou.

José Adelino Barceló de Carvalho destacou que o impacto “não é o falado”, mas sim o que “está a ser praticado em função daquilo que [João Lourenço] diz”, realçando que é “realista, não propagandista”, com base no que está a observar no país, fruto também das “dicas” de compatriotas que lhe vão dando conta das alterações.

“Dizem-me: ‘agora estamos a sentir, pá, o homem está aí a falar sério e a realizar, com algumas dificuldades, pois estávamos habituados àquela cepa torta, em que não íamos a lado nenhum e o país estava a degenerar'”, referiu.

Até agora Bonga não teve tempo de falar com alguns dos 20 milhões de pobres, com os familiares das vítimas da malária, da tuberculose, da sida, não necessitou de se “tratado” num hospital público, de procurar emprego etc. etc..

Dois desses exemplos, emblemáticos para Bonga, são as operações “Transparência” (de combate desumano e muitas vezes selvagem à imigração ilegal e à exploração selvagem de diamantes) e “Resgate” (para impor – custe o que custar – o autoritarismo despótico e não a autoridade do Estado em todo o país), que, apesar de terem sido organizadas pelo Governo, “é da responsabilidade de todos os angolanos”.

“Quem não quer uma casa limpa, os filhos assistidos com medicamentos e na escola? Quem não quer o fim da fome e da precariedade? Todos nós queremos isso. E isso está a ser feito, o que é muitíssimo importante”, assinalou, indicando que não interessa o tempo que vai demorar a mudar a mentalidade dos angolanos.

Claramente Bonga tem de ser consultado urgentemente por um oftalmologista. Não o deverá, porém, fazer num dos nossos hospitais públicos. Se o fizer ficará completa e irreversivelmente cego.

Trajando um “t-shirt” com a frase “Nunca desistas!”, Bonga assumiu que, durante o período em que foi considerado como “maldito” para o regime de 38 anos do antigo Presidente José Eduardo dos Santos, esquecendo que João Lourenço foi seu ministro e vice-presidente do MPLA, nunca desistiu, “mesmo em situações conturbadas”.

“Esta terra é nossa, dos angolanos, por conseguinte, a terra de origem nunca pode ser abandonada. Nem pensar”, frisou, lembrando que foi vítima de um regime à semelhança de milhares de outros.

É verdade. Foi vítima. Já sabemos que Bonga não se recorda de João Lourenço ter sido ministro e alto dirigente do regime, mas será que também não se lembra de outras vítimas? Claro que não. As “ordens superiores” a isso obrigam.

“Qualquer que seja o passante das ruas, verifica-se que tem mágoas muitos grandes, de crianças que desapareceram, de grandes homens, da política, da literatura, da música e de outras artes, para não falar do anonimato, enfim, fez com que tivéssemos a tal ‘lágrima no canto do olho’, condoídos com esse sofrimento, com a colaboração e conivência de muitos estrangeiros que venderam para aqui armamento bélico e não só”, afirmou.

Esses muitos estrangeiros, explicou, vieram porque Angola é uma terra “rica e apetecida” e “não porque gostavam dos angolanos, mas para fazerem o ‘business’ com lucros chorudos. Isso tem as suas consequências e é complicado quando está em causa um povo que lutou, teve a sua independência e viveu ainda com dificuldades. Isso é muito aborrecido e não há quem não sinta esta mágoa que trazemos no peito”, notou.

Sobre se, aos 76 anos, tenciona regressar definitivamente a Angola, Bonga, cujo nome, Bonga Kuenda adoptou na adolescência, que apontou como o seu “verdadeiro eu”, disse tratar-se de uma questão “complexa”, mas admitiu que, se tudo continuar a evoluir no bom caminho, pode vir a pensar no assunto.

Pois é. Medalha ao peito… mas rumo à Europa. É assim mesmo Bonga! As árvores (e alguns, poucos, Homens) morrem de pé. Os outros, talvez pelo peso das condecorações (tachos e similares) são obrigados a estarem de joelhos.

“Se a situação continuar como está, vamos pensar nisso. Não depende só de mim. Tenho um grupo com quem trabalho, que vive no estrangeiro, a minha família, os meus filhos, que nasceram no estrangeiro. Muitos em Angola fazem-me essa pergunta. Mas não posso vir a correr para fazer outro tipo de trabalho. Vivo da música e sou um exemplo nisto tudo. Os 40 e muitos anos de carreira significam uma vida profissional empenhada, que tem cabeça, tronco e membros. E continua porque continuo a ser solicitado”, argumentou.

“Eu sou daqui, nascido aqui, nunca me esqueci daqui, nunca cortei o cordão do umbigo com a terra de origem. Por essa razão me gostam tanto, me gostam bué, me querem tanto”, realçou.

“Os mais inconvenientes na minha terra são os doutores, engenheiros, advogados, porque são imitadores da cultura do outro, e isso é triste. E são incapazes de ter uma conversa com a mãe que é lavadeira, com o pai que é analfabeto, têm vergonha porque são complexados, e estão sempre com a gravata”.

Quem disse isto? Quem teve coragem de afirmar tão lapidar análise da sociedade elitista de Angola, quase toda do MPLA? Pois é. Foi Bonga em entrevista ao português Diário de Notícias, em 29 de Agosto de 2018.

Há três meses, na mesma entrevista, Bonga afirmou: “Quarenta graus à sombra e ele está com uma gravata quase a sufocar e um casaco que veio de Londres, e as falas idênticas a qualquer telejornal em Portugal. Que vergonha! Esse tipo de indivíduos é prejudicial à nossa coesão artística, social, psicológica. E são eles que são os professores, os generais, os ministros. Onde é que a gente vai parar?”

Folha 8 com Lusa