O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, afirmou que o passado nas relações luso-angolanas ficou no museu e que os dois países se preparam para fechar um novo acordo de cooperação estratégica, num sinal de confiança em relação ao futuro.

E qual será esse passado? O de José Eduardo dos Santos? O de Cavaco Silva? O de José Sócrates? O da independência do poder judicial português? O do caso Manuel Vicente?

Esta tese do museu, que António Costa proferiu no primeiro ponto do programa oficial de dois dias da sua visita a Angola, foi mesmo logo a seguir à visita ao Museu Nacional de História Militar na Fortaleza de Luanda.

“Vamos assinar o Acordo de Cooperação Estratégica para os próximos anos e vamos dar um sinal de confiança para o aprofundamento das nossas relações económicas”, declarou o líder do executivo nacional, num momento em que estava ladeado pelos ministros Manuel Augusto (Relações Exteriores) e Salviano Sequeira (Defesa).

“Para os próximos anos”, que poderão ser muitos do lado do MPLA (só está no poder há 43 anos) e, quiçá, muitos menos do lado do Partido Socialista (que foi de Mário Soares). Mas do ponto de vista de Portugal serão certamente muitos. Isto porque, do PCP ao CDS, do PS ao PSD todos subscreveram o acordo de rendição imposto pelo MPLA.

Perante os jornalistas, António Costa referiu que a sua visita “começou precisamente no Museu de História Militar”.

“Pode significar que o passado ficou mo museu e que agora compete-nos construir o futuro – é nesse futuro das relações entre Portugal e Angola que temos de estar focados. Esta visita é um momento muito importante, conjuga-se com a visita de Estado que o Presidente da República de Angola, João Lourenço, efectuará a Portugal em Novembro”, sustentou o primeiro-ministro António Costa.

Convirá referir que, a bem desse futuro, em Novembro não será só o Presidente da República de Angola, João Lourenço, a visitar Portugal. Da sua comitiva farão igualmente parte, entre outros, o Presidente do MPLA, João Lourenço, o Titular do Poder Executivo, João Lourenço, o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas de Angola, João Lourenço.

Segundo o primeiro-ministro de Portugal, verifica-se agora, após um período de crise, com a quebra dos preços do petróleo nos mercados internacionais, que Angola “vive uma nova fase auspiciosa, procurando diversificar a sua base económica, o que é útil para os dois países”.

Também se verifica, mas isso António Costa não quer saber, que segundo a FAO, “23,9% da população angolana passa fome”, o que equivale a que “6,9 milhões de angolanos não tenham acesso mínimo a alimentos”. Isto para além de 20 milhões de pobres.

Nas relações luso-angolanas, além do Acordo Estratégico de Cooperação (2018/2022), António Costa destacou também a assinatura da convenção para o fim da dupla tributação nas transacções entre os dois países e um novo acordo aéreo para aumentar as ligações entre os dois países.

“Serão passos importantes para construirmos o futuro”, advogou o líder do partido irmão do MPLA na Internacional Socialista.

Interrogado sobre o processo de regularização de pagamentos em atraso a empresas portuguesas que investiram no mercado angolano, que envolverá no mínimo entre 400 e 500 milhões de euros, o líder do executivo referiu que “esse é um trabalho em curso”.

“Tem havido sinais muito positivos do empenho de todos em ultrapassarmos situações difíceis. Os últimos dez anos têm sido muito turbulentos na economia mundial”, observou.

Neste contexto, António Costa referiu-se ao período de assistência financeira externa a Portugal, com a troika, entre 2011 e 2014, apontando que muitas empresas nacionais “encontraram no mercado angolano uma prosperidade que não tinham no país”.

“O que é muito claro, para mim, é que há entre os dois países um sistema de vasos comunicantes. Cada vez que há um problema num dos lados, a melhor forma é a solidariedade entre todos”, defendeu.

Ou seja, a irritante Justiça portuguesa queria julgar o PCA da Sonangol, à altura dos crimes de que era acusado, Manuel Vicente, depois vice-Presidente de Angola. Ora, nesse sistema de solidariedade, António Costa “mandou” (com o apoio implícito do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e dos partidos parlamentares – com excepção do Bloco de Esquerda) a Justiça lusa fazer o que o MPLA queria. E ela fez.

Para o primeiro-ministro luso, a questão essencial relativa à regularização de pagamentos em atraso “passa pela existência de um bom clima de negócios que dê confiança e estabilidade, permitindo a todos recuperarem o dinheiro que têm a recuperar e ajudarem ao desenvolvimento das economias angolana e portuguesa”.

“O maior desafio deste século é o das relações entre os continentes africano e europeu, onde Portugal e Angola têm especiais obrigações, mas, também, óptimas condições para darem um contributo positivo”, acrescentou António Costa, certamente convicto que trouxe consigo uma boa dose de… vaselina.

Mário Soares, uma “peça” de museu?

No site do PS pode ler-se: “Portugal perdeu o pai da Liberdade e da Democracia, a personalidade e o rosto que os portugueses mais identificam com o regime nascido a 25 de Abril de 1974, “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio”, de que falava a sua amiga Sophia e pelo qual tanto se bateu Mário Soares ao longo de toda a sua vida. Combate que o moveu até ao fim.

Com o seu desaparecimento, o Partido Socialista acaba de sofrer a maior das perdas imagináveis, a sua maior referência, o fundador e militante nº1, figura maior e indelével do socialismo democrático português e europeu, Mário Alberto Nobre Lopes Soares. O nosso muito querido camarada Mário Soares.

Este é um momento de profunda dor para todos os socialistas, que sabemos partilhada por tantos e tantos portugueses, que reconhecem em Mário Soares uma figura maior da nossa Democracia.

Sobre todos e sobre cada um dos socialistas portugueses fica a imensa responsabilidade de saber estar permanentemente à altura do legado deste gigante do socialismo democrático, da Democracia e da Liberdade. Mário Soares continuará a ser uma referência incontornável, um exemplo e um motivo de orgulho para todos nós. É sentidamente que o dizemos, num momento tão difícil como este: Mário Soares estará connosco para sempre.

Antes e depois do 25 de Abril, na resistência à ditadura e a todas as tentativas totalitárias, e até ao fim da sua vida, Mário Soares foi sempre um incansável combatente pela Liberdade e pela Democracia em Portugal, a sua voz mais reconhecível e reconhecida dentro e fora do nosso país, como ficou demonstrado em variadíssimas ocasiões.

Histórico líder do Partido Socialista, Soares foi sempre a figura referencial do Partido, tendo sido seu secretário-geral até 1985, quando decide candidatar-se à Presidência da República, o zénite da sua intervenção política iniciada ainda na década de 40 do século passado.

Das candidaturas presidenciais de Norton de Matos e Humberto Delgado, onde foi figura activa, à defesa de presos políticos nos tristemente célebres tribunais plenários e nas mais diversas modalidades da oposição democrática, Soares foi sempre um adversário temido e temível pelo salazarismo e marcelismo, o que lhe custou a prisão, a deportação para São Tomé e, mais tarde, o exílio em França, entre 1970 e Abril de 1974. Logo depois do 25 de Abril, embarcou no primeiro comboio com destino a Lisboa, que ficou conhecido como o Comboio da Liberdade, que chegou à capital portuguesa no dia 28 de Abril, sendo um dos primeiros exilados políticos a regressar a Portugal, na sequência da conquista da Liberdade.”

Folha 8 com Lusa

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