A Angola Telecom arrecadou, em 2017, cerca de 14 mil milhões de kwanzas (53 milhões de euros), receitas que a administração prevê duplicar este ano, no quadro da derradeira fase de reestruturação e privatização de parte do capital.

A informação foi transmitida hoje, em Luanda, pelo coordenador da comissão de gestão da empresa pública de telecomunicações angolana, Eduardo Sebastião, no âmbito do 26.º aniversário da operadora pública, que hoje se assinala, com a redução de custos e o aumento da facturação e cobranças “entre os grandes objectivos”.

“Porque estamos a fechar agora o balanço do último trimestre, os nossos dados provisórios apontam para facturação à volta dos 14 bilhões de kwanzas [14 mil milhões de kwanzas] e pensamos mesmo em aumentar e duplicar este valor em função do trabalho que temos vindo a realizar”, disse.

Associado à redução de custos e aumento da facturação e cobranças neste ano, Eduardo Sebastião apontou também a melhoria no atendimento como outros dos objectivos da sua gestão.

“Trabalhar na mentalidade dos nossos colaboradores para que a gente melhore o atendimento aos clientes. O que preocupa é essencialmente a formação dos nossos colaboradores do ponto de vista técnico e tratamento para com os clientes”, apontou.

Apesar de ter já uma licença global para exploração, também, de serviços da telefonia móvel, o coordenador da comissão de gestão da operadora estatal sublinhou que a questão da telefonia móvel não é prioridade da actual administração.

“A nossa prioridade imediata é a recuperação da empresa e transformá-la em auto-sustentável e daí sim podemos concretizar os serviços da telefonia móvel”, sustentou.

No início desde mês foi noticiado que a Angola Telecom quer resgatar cerca de 150.000 clientes, que nos últimos sete anos deixaram de usar a rede fixa, contando a empresa actualmente com apenas 50.000 clientes activos.

O coordenador da comissão de gestão da operadora estatal assume que a redução de clientes afectou o desempenho e a rentabilidade da empresa, apontando os “actos de vandalismo” de que a rede da empresa foi alvo como um dos grandes motivos da “fuga de clientes”.

“Isso fez com que a empresa tivesse perdido a capacidade de intervenção diante dos clientes e assim foi como consequência a perda de grande parte dos clientes e a par disso sabemos que a empresa não estava preparada para o ambiente de concorrência”, sublinhou.

E então, acrescentou, “alguma má actuação de alguns colaboradores também fizeram perder alguns clientes, daí que precisamos recuperar a rede e também a vertente comportamental, ou seja, aproveitar o nosso activo para usar a 100% a nossa capacidade”.

Questionado sobre o processo de alienação de 45% dos activos da empresa, Eduardo Sebastião disse que o trabalho está em curso.

“Esta é uma orientação do accionista Estado, que a empresa deveria ser alienada em 45%, portanto o trabalho está sendo feito, é preciso fazer-se uma avaliação do património da empresa para que depois se determine quanto vale os 45% que se pretende alienar”, concluiu.

Recorde-se que o Governo oficializou em Novembro de 2017 que estava em curso o processo de privatização de 45% do capital social da Angola Telecom, que, entretanto, já recebera do Estado o título que a habilita como terceiro operador nacional da rede móvel.

A informação consta de um edital publicado pelo Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, que acrescenta que esta alienação insere-se já no recente plano intercalar aprovado pelo Presidente João Lourenço, para melhorar a situação económica e social do país.

Nomeadamente através da exploração de “parcerias público-privadas nos investimentos em infra-estruturas e na oferta de bens e serviços púbicos e semipúblicos essenciais”, mas também na promoção do “mercado de acções por via da privatização em bolsa das empresas de referência”, duas medidas constantes do plano intercalar, a executar até Março de 2018.

A Angola Telecom é uma empresa pública de telecomunicações e multimédia, fundada em 1992 após a fusão das empresas estatais ENATEL e EPTEL, disponibilizando serviços comerciais de voz e dados, mas com resultados financeiros sucessivamente negativos.

No mesmo edital, o ministério liderado por José Carvalho da Rocha confirma que já fota atribuído à Angola Telecom o Título Global Unificado, que transforma aquela empresa no “terceiro operador de telefonia móvel, bem como permite prestar qualquer serviço de comunicações electrónicas, com base em qualquer tipo de tecnologia”, ao abrigo do PERL (Plano Estratégico sobre o Regime de Licenciamento dos operadores de comunicações electrónicas), aprovado em Junho de 2016.

“Perante este cenário, torna-se imprescindível reforçar a sustentabilidade económica e financeira da Angola Telecom EP, recorrendo à mobilização de recursos do sector privado para a implantação das infra-estruturas e à obtenção da experiência e ‘know-how’ complementares para uma exploração eficiente das potencialidades do novo título”, referia o comunicado.

Em termos práticos, este processo, que está a ser conduzido através da Direcção Nacional das Telecomunicações, prevê que a venda de 45% do capital social da Angola Telecom permita gerar o investimento necessário, não quantificado, para garantir o alargamento da actividade da empresa às comunicações móveis.

Só o mercado das telecomunicações móveis em Angola conta com mais de 11 milhões de cartões registados, controlado pela privada Unitel, o maior operador angolano, da empresária Isabel dos Santos.

Opera ainda este mercado a privada Movicel e, além da Angola Telecom, habilitada para o efeito através deste título, o Governo angolano tem em curso o concurso para a selecção de um quarto operador, que receberá igualmente o Título Global Unificado, permitindo a cobertura nacional em rede fixa, móvel, dados e de televisão por subscrição.

A privatização de empresas públicas que não sejam lucrativas e representem um “peso morto para o Estado” foi assumida como prioridade eleitoral por João Lourenço, com o chefe de Estado a admitir, já depois das eleições de Agosto último, que essas empresas, a alienar pelo Estado, serão estudadas “caso a caso”.

Folha 8 com Lusa

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