O embaixador de Angola na China, João Salvador dos Santos Neto, ressaltou hoje, em Pequim, a importância da cooperação bilateral, sublinhando que a visita do Presidente da República, João Lourenço, simboliza o interesse dos dois Estados no estreitamento das relações.

O Chefe de Estado angolano chegou hoje à cidade de Pequim, para uma visita de Estado de dois dias (9 e 10 de Outubro) ao país que detém a segunda maior economia do mundo (depois dos EUA), com o qual Angola prevê rubricar quatro novos instrumentos de cooperação.

João Lourenço, o primeiro líder africano a ir à China, depois da realização da III Cimeira do Fórum de Cooperação China-África, encabeça uma comitiva governamental que vai negociar com as autoridades chinesas a assinatura de três Acordos de Cooperação e de um Memorando de Entendimento.

Estarão em negociações os acordos para evitar a dupla tributação, de cooperação económica e técnica entre os dois países, sobre a linha de crédito entre o Banco de Desenvolvimento da China e o Ministério das Finanças, bem como um memorando de entendimento sobre recursos humanos.

No entender do embaixador de Angola na China, que falava à imprensa a propósito dos prováveis ganhos da primeira visita de Estado de João Lourenço à China, esses instrumentos vão ajudar a reforçar a cooperação bilateral entre os dois países, que mantêm relações diplomáticas desde 1983.

Nos últimos 16 anos, a China tornou-se o principal financiador estrangeiro de infra-estruturas em Angola, que já passou a ser o seu terceiro maior parceiro comercial em África.

O país mais populoso do mundo (com mais de 1,38 biliões de habitantes), maior exportador e o terceiro importador de mercadorias do planeta já abriu para Angola, desde 2002, linhas de crédito no valor de 23 mil milhões de dólares, para apoiar projectos de infra-estruturas, segundo as autoridades angolanas.

De acordo com o embaixador de Angola, há hoje no país um quadro político e legislativo favorável para os investidores estrangeiros, em particular os chineses, daí ver com “bons olhos” a possibilidade de novos parceiros se instalarem em solo angolano.

O diplomata disse haver várias solicitações de investimento chinês em Angola, resultado do trabalho deixado pela delegação angolana que participou, em Setembro, no Fórum de Cooperação China-África.

“Nós temos sentido, mesmo ao nível da embaixada, a manifestação do interesse de muitos empresários chineses, para investirem em Angola. É este um dos objectivos do Presidente da República”, declarou.

Outro ponto que considerou importante nessa visita de Estado de João Lourenço é a possibilidade de Angola poder conhecer e tirar vantagens do potencial tecnológico da China, sobretudo da capacidade técnica da “gigante” do mundo das telecomunicações, a Huawei.

De igual modo, o embaixador acredita que a visita de João Lourenço à cidade de Tianjin venha servir para Angola tirar boas ilações de como pode modernizar o país. “Acho que é uma boa experiência que nós vamos viver”, concluiu.

Para essa missão de Estado, o Presidente da República de Angola faz-se acompanhar de titulares de vários departamentos ministeriais estratégicos, bem como do Titular do Poder Executivo e do Presidente do MPLA…

A sua deslocação à China ocorre numa altura em que o país procura recuperar de uma forte crise económica, derivada da queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir as receitas, desde finais de 2014, e elevar o custo de vida da população.

Dados do Instituto Nacional de Estatística apontam que, no primeiro trimestre de 2018, “a riqueza gerada em Angola recuou 2,2 por cento, face ao mesmo período de 2017”.

Há anos que a China “comprou” angola

Nesta matéria, como em muitas outras, João Lourenço e os seus embaixadores limitam-se a fazer o que foi feito por José Eduardo dos Santos. Ou seja, pedem fiado e mais fiado, como se hipotecar o país e o seu Povo fosse a solução para a criminosa incapacidade de governar de forma séria e honesta.

Em Novembro de 2016, representantes de cerca de 600 empresas chinesas estiveram em Luanda a participar no fórum de investimento Angola/China, que – repare-se na coincidência dos objectivos – visou reforçar a cooperação económica entre os dois países, identificando novas oportunidades de negócio.

Fonte da organização deste fórum, a cargo da Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP) da Casa Civil do Presidente da República de Angola, informou que áreas como agricultura, pescas, energia e águas, construção e minas estiveram na agenda das potencialidades angolanas que interessaram aos empresários chineses.

Na altura, o Governo encarregou o ministro e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Manuel da Cruz Neto, para liderar uma comissão, com mais oito ministros, que preparou este fórum.

Nessa altura, a China já comprava praticamente metade do petróleo produzido em Angola, liderando os destinos das exportações angolanas. Além disso, era também o maior financiador do país, com linhas de crédito para obras em Angola, realizadas por empresas chinesas. A última destas linhas fora concedida em 2015, no valor de 5,2 mil milhões de dólares.

O Governo destacava que a China “constitui um parceiro importante” de Angola e que “as excelentes relações entre os dois Estados têm reforçado cada vez mais o âmbito da cooperação, particularmente no domínio económico”.

Camaradas chineses, o MPLA está convosco

Angola (mais propriamente o regime) já era na altura o país africano que mais beneficiou de empréstimos concedidos pela China, ultrapassando os 12 mil milhões de dólares, desde 2000, segundo a unidade de investigação sedeada nos EUA, ChinaAid.

O principal receptor das linhas de crédito abertas por Pequim foi o sector transporte e armazenagem, que absorveu 20% do montante global, detalha aquela pesquisa. Logo a seguir, surge a produção e abastecimento de energia, que recebeu 18% do crédito chinês.

Governo e sociedade civil, comunicações e abastecimento de água e saneamento, que, no conjunto, acederam a 667 milhões de dólares, surgem no fim da lista.

Depois de a guerra civil em Angola ter acabado, em 2002, a China tornou-se um dos principais actores da reconstrução do país, nomeadamente das suas estradas, caminhos-de-ferro e outras infra-estruturas.

Em troca, “obteve condições favoráveis para a exploração de minérios”, referia uma pesquisa conduzida pela jornalista de investigação espanhola Eva Constantaras.

A China já era em 2016 o maior importador do petróleo angolano, mas, devido à queda do preço daquela matéria-prima, o valor das exportações angolanas para o mercado chinês diminuiu cerca de 50%, em 2015, para 15,98 mil milhões de dólares.

“A maioria dos principais receptores são países ricos em recursos naturais – incluindo petróleo, diamantes e ouro – e muita da ajuda chinesa serve para tornar essa riqueza acessível para exportar”, apontava o estudo/pesquisa.

Recorde-se que a Economist Intelligence Unit (EIU) considera que o aprofundamento das relações económicas entre Angola e China é mutuamente positiva.

“Ambos os países gostam de falar muito da sua relação mutuamente vantajosa, e ambos certamente têm algo a ganhar se avançarem para além do tradicional modelo de crédito estatal, mas estas boas intenções devem primeiro superar as dificuldades e os altos custos de fazer negócios em Angola, e podem ser abrandadas pelo próprio abrandamento económico da China”, escreve a EIU.

“Angola está a aprofundar a sua relação económica com a China, esperando ir além do tradicional modelo estatal de linhas de crédito pagas em petróleo, para uma abordagem mais diversificada e liderada pelo sector privado”, escreveram os analistas da EIU numa nota enviada aos investidores.

“O investimento privado estrangeiro é urgentemente necessário em Angola, a lutar contra os preços baixos do petróleo, a sua maior exportação e fonte de receitas”, escreve a EIU, acrescentando que “as empresas chinesas têm a capacidade de fornecer dinheiro e ‘know-how’ para ajudar o país a desenvolver sectores não petrolíferos, como a agricultura e a manufacturação, e criar os tão necessários empregos”.

“Com os preços do petróleo fortemente pressionados, o volume de crude que Angola tem de enviar para a China para cumprir as obrigações financeiras cresceu consideravelmente”, escreve a EIU, concluindo que “isto significa que Angola tem menos crude para vender noutros locais, aumentando as dificuldades de receita do Governo e provocando críticas renovadas da oposição sobre os contornos das linhas de crédito chinesas”.

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