Ainda não recuperado da amnésia (perda total ou parcial da memória) que o vitimou nos últimos anos, sobretudo em relação ao tempo em que foi vice-presidente do MPLA e ministro da Defesa de José Eduardo dos Santos, João Lourenço mostrou hoje que já está curado… para o que lhe interessa. A medicação miraculosa chama-se Poder.

Assim, o líder do MPLA avisou hoje, em Luanda, que “Angola jamais voltará a ser a mesma de há uns anos”, referindo-se às “oportunidades restringidas a uns quantos intocáveis que tudo podiam”. Por outras palavras, referiu-se à família de José Eduardo dos Santos. Nem mais nem menos.

“Essa Angola pertence à História”, disse João Lourenço, no discurso de abertura da VI reunião ordinária do Comité Central do MPLA, partido no poder desde 1975, ano da independência do país, e no qual João Lourenço fez toda a sua formação.

O também Presidente de Angola e Titular do Poder Executivo, há um ano no cargo e há cerca de dois meses como líder do MPLA, lembrou que a sociedade “espera abertura ao diálogo e exemplos que, pela sua prática quotidiana, sejam uma referência moral para os angolanos”, evitando comportamentos e atitudes que colocam em causa o bom nome do partido.

Do ponto de vista clínico, os especialistas admitem que João Lourenço tenha recuperado a memória mais recente, não se lembrando dos tempos mais antigos em que foi um altíssimo quadro do MPLA, seu vice-presidente e ministro da Defesa. Daí assumir a postura de que os outros são todos umas bestas, uns criminosos, e que ele é bestial e o messias redentor da causa.

“Há comportamentos e atitudes que urge corrigir, porque colocam em causa o bom nome do partido. Militantes há que, a coberto do nome do partido ou da sua condição de dirigentes, lesam gravemente o interesse público, cometem desmandos, arbitrariedades e abuso de poder em detrimento de pacatos cidadãos, evocando muitas vezes a figura caricata do incógnito camarada ‘ordens superiores’, que deve ser banido ou passar a ter, a partir de agora, nome”, frisou João Lourenço.

João Lourenço, por outro lado, apelou aos governantes, empresários, cooperativas, associações empresariais, organizações não-governamentais, académicos, investigadores e a toda a sociedade angolana a “enfrentar e vencer o grande desafio da diversificação da economia”.

E, para o êxito desta missão, João Lourenço frisou que o país conta também com os recursos financeiros e outro tipo de activos colocados ilicitamente fora de Angola, “em paraísos fiscais e não só, e que devem ser repatriados, voluntária ou coercivamente, à luz das leis sobre o repatriamento de capitais e demais legislação em vigor”.

Segundo o líder do MPLA, esses recursos – o prazo para o repatriamento voluntário termina a 26 de Dezembro, seguindo-se um processo coercivo – serão investidos na economia angolana, contribuindo para o esforço nacional de aumento da produção interna de bens e serviços e na geração de empregos.

“Também aqui o partido é chamado a liderar esta operação. Mesmo que alguns dos visados sejam militantes, dirigentes ou outras altas figuras do nosso próprio partido”, salientou com o “fantasma” da família Dos Santos a pairar no seu raciocínio.

A nível interno, João Lourenço lembrou aos 363 membros do Comité Central que Angola “vive novos tempos”, com uma oposição “mais combativa”, uma imprensa “mais livre e investigativa”, uma sociedade civil “mais interventiva e rigorosa na exigência ao restrito cumprimento da lei, no respeito ao erário público e no respeito pelos direitos e garantias dos cidadãos”.

Aos dirigentes do partido, o presidente do MPLA pediu um melhor acompanhamento da dinâmica do tempo, da sociedade angolana e do mundo global, devendo o seu comportamento pautar-se por aquilo que os seus eleitores e a sociedade esperam.

E assim sendo, o MPLA tem de continuar a ser o fiel depositário dos ideais do povo angolano (o mesmo que gostava de ver João Lourenço explicar se se recorda do seu passado recente) e com esforço abnegado dos seus militantes melhorar as condições de vida dos cidadãos.

Segundo João Lourenço, a melhoria das condições dos cidadãos deve ser mediante um processo de distribuição de riqueza por via de políticas pública e sociais, de uma gestão responsável e rigorosa dos recursos que o país dispõe e que a todos deve beneficiar.

Para João Lourenço, a força deste “grandioso MPLA” (grandioso desde que ele chegou à sua Presidência) reside no facto de ser um partido que está em contínua renovação, adaptando-se sempre às condições das várias fases da luta do povo angolano e que o mantêm firme, unido e coeso.

Na abertura da reunião que termina sábado, o presidente do MPLA sublinhou a necessidade de se intensificar o combate à corrupção, alertou para a participação directa do partido que lidera no combate e denúncia aos casos de nepotismo.

Relativamente aos casos de nepotismo, incentivou a sociedade a denunciar, fundamentalmente, quando o país avançar para a privatização de algumas empresas públicas.

Para João Lourenço, o partido deve ser contra a irresponsabilidade e inexperiência na gestão do erário público, ao mesmo tempo que falou da necessidade de se combater “pessoas que tentam financiar a instabilidade política em Angola”. Leia-se clã Dos Santos.

Aliás, o líder do MPLA considerou “surpreendente” o facto de cidadãos angolanos “evocarem, quem sabe desejarem, e até financiarem, uma provável instabilidade política” em Angola, tema que está a ser tratado com “seriedade” pois mexe com a segurança nacional.

E se mexe com a segurança nacional… que tal ver se falta muito para o próximo dia 27 de Maio?

João Lourenço leu um discurso maioritariamente voltado para o combate à corrupção e com exemplos ligados à família de José Eduardo dos santos, sem, porém, citar nomes.

Sem também responder directa ou indirectamente às palavras de Eduardo dos Santos, que, depois de João Lourenço ter afirmado que encontrou “vazios” os cofres do Estado quando assumiu o poder, disse ter deixado 15.000 milhões de dólares em reservas internacionais líquidas – facto confirmado quinta-feira pelo Governo -, o líder do MPLA virou o discurso para a empresária Isabel dos Santos e para o gestor José Filomeno dos Santos, mas sempre sem os nomear.

O líder do MPLA disse que, “de forma pouco responsável”, se confiou a “um jovem inexperiente” a gestão de biliões de dólares do país (José Filomeno dos Santos era presidente do Fundo Soberano – no valor de 5.000 milhões de dólares), o partido “não pode ficar indiferente e tem de bater o pé perante tamanha afronta aos verdadeiros donos desses recursos, o povo angolano”.

Aos militantes do MPLA, o Presidente sublinhou que, quando o partido tiver a coragem de assumir esta postura, então o país “sairá a ganhar” porque, se o exemplo vier daí, haverá a “certeza” de que toda a sociedade o seguirá.

João Lourenço exortou também os militantes do MPLA a fiscalizarem as acções da liderança do partido, bem como do Executivo e de outros sectores da sociedade para que estes, enquanto seres humanos, não caiam em certas tentações.

Isto, acrescentou, para que o MPLA possa ser uma formação verdadeiramente de comprometidos com a transparência, a boa governação, bem como estar pronto para o combate contra a corrupção, impunidade, nepotismo e pela defesa os direitos fundamentais dos cidadãos.

Ressaltou também o facto de se estar há poucos dias do 10 de Dezembro, data em que o MPLA faz 62 anos, desde a sua criação, lembrando os ideais pelos quais os seus líderes fundadores lutaram.

Durante o encontro, os militantes irão receber informação sobre as operações Transparência e Resgate, sobre a proposta de Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2019, do orçamento do partido para este mesmo período, apreciação do diagnóstico sobre o sector da saúde, informação sobre o processo de preparação das eleições autárquicas, entre outros aspectos de cariz interno do partido.

O Comité Central do MPLA é órgão deliberativo máximo no intervalo dos congressos. É composto por 363 membros, eleitos no 7.º Congresso Ordinário do MPLA, realizado em Agosto de 2016.