O primeiro-ministro espanhol suspendeu a visita que deveria fazer este fim-de-semana a Angola para ficar a acompanhar a situação na Catalunha. Luanda tinha trocado cimeira em Lisboa para receber Mariano Rajoy. E agora o que dirá Marcelo Rebelo de Sousa?

Fonte do executivo espanhol disse que Mariano Rajoy suspendeu a viagem depois dos últimos acontecimentos na Catalunha, com os independentistas, em maioria no Parlamento regional, a tentarem eleger um presidente do Governo Catalão que está a ser investigado pela justiça por suspeitas de delitos de rebelião e sedição.

Mariano Rajoy deveria partir no sábado, 24 de Março, para Luanda e realizar uma visita oficial nos dois dias seguintes, que acabaria com a sua participação num fórum entre empresários dos dois países, a convite do presidente de Angola, João Lourenço.

Numa altura de tensão diplomática com Portugal, João Lourenço decidiu que Angola não participaria na cimeira empresarial luso-angolana, que estava agendada para 27 deste mês em Lisboa, alegando que nessa mesma semana iria receber o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy.

Como sempre, o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, explicou que o adiamento se deveu a uma questão de agenda. Com Manuel Vicente a rir-se à grane e à…. Portuguesa, ficou a saber-se que a cimeira acontecerá quando o MPLA quiser e se quiser. Para desbloquear a atolada agenda do Executivo de João Lourenço é apenas necessário que Manuel Vicente seja considerado um herói em… Portugal. Já faltou admitem os camaradas do MPLA.

Está, portanto, tudo na mão dos bajuladores portugueses. Embora o MPLA saiba o nível dessa bajulação, quer mais, quer muito mais. Politicamente quase todos os partidos lusos já estão de cócoras. O Governo (este como os anteriores) também está. O Presidente da República é o exemplo acabado disso e já não tem espaço para estar mais agachado. Só faltam os juízes. Mas a resistência tende a acabar.

Ainda há pouco tempo (no dia 9 de Março) Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que uma visita sua a Angola deve ser “a última etapa de um processo que está em curso”, actualmente ao nível ministerial. Ou seja, quando esta edição, revista e melhorada, do PREC (Processo Revolucionário em Curso) tiver o acordo do governo do MPLA, o que só será possível com a rendição (leia-se arquivamento de todos os processos contra as altas figuras do regime angolano) de Portugal.

“Há etapas que têm de ser preenchidas. Eu penso que é muito importante a etapa que estamos a viver, que é a do relacionamento entre responsáveis governativos a nível ministerial”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Para corroborar esta sua tese, o Presidente português salientou que se ia realizar no dia 27 deste mês, em Lisboa, uma conferência da iniciativa da Câmara de Comércio Portugal-Angola, com empresários portugueses e angolanos.

“Haverá membros dos governos dos dois países a falar de um dos domínios em que estamos e continuaremos sempre muito próximos”, referiu.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “depois, haverá um passo seguinte, normal, que tem a ver com o poder executivo, que é o que respeita ao primeiro-ministro”.

“Portanto, eu penso que em termos lógicos a visita presidencial a Angola deve ser a última etapa de um processo que está em curso mas tem de seguir as várias etapas”, concluiu.

Como se sabe e como, aliás, já aqui foi escrito, Marcelo Rebelo de Sousa é o político português mais habilitado (a par do primeiro-ministro António Costa) para não só cimentar como também alargar as relações de bajulação e servilismo com o regime de Angola. Marcelo sabe que – do ponto de vista oficial – Angola (ainda) é o MPLA, e que o MPLA (ainda) é Angola. Portanto… Siga a fanfarra.

Angola é um dos países lusófonos com a maior taxa de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo as Nações Unidas. Mas se isso pouco interessa a João Lourenço, porque é que haveria de interessar a Marcelo Rebelo de Sousa?

Aliás, muitos dos angolanos (70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente alimentar-se com o facto de assistirem um dia destes, ao vivo e a cores, ao beija-mão de Marcelo Rebelo de Sousa ao novo “querido líder”, João Lourenço.

Os pobres em Angola estão todos os dias a aumentar e a diminuir. Aumentam porque o desemprego aumenta, diminuem porque vão morrendo. Mas a verdade é que esses angolanos não contam para João Lourenço e muito menos contam para Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Passos Coelho ou José Sócrates.

Marcelo Rebelo de Sousa sabe que o anterior presidente angolano esteve no poder durante 38 anos sem ter sido nominalmente eleito, tal como sabe que o actual lá quer ficar também muitos e muitos anos. Mas isso pouco ou nada importa… pelo menos por enquanto.

Portugal continua de cócoras perante o regime esclavagista de Luanda, tal como esteva em relação a Muammar Kadhafi que, citando José Sócrates, era “um líder carismático”. Talvez um dia Portugal chegue à conclusão que, afinal, Eduardo dos Santos também foi um ditador e que João Lourenço para lá caminha, se é que já não está lá.

Será que alguém vai perguntar a Marcelo Rebelo de Sousa o que pensa dessa farsa a que se chama democracia e Estado de Direito em Angola? Não. Basta ver que, mesmo antes de ser declarado vencedor das “eleições” do dia 23 de Agosto do ano passado, já João Lourenço era felicitado pelo Presidente da República de Portugal.

Certo será que, nesta matéria, Marcelo Rebelo de Sousa continua a pensar da mesma forma que Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas ou António Costa, para quem Angola nunca esteve tão bem, mesmo tendo 70% dos angolanos na miséria.

De facto, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários. Marcelo Rebelo de Sousa não escapa à regra.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos portugueses (com excepção dos do Bloco de Esquerda) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

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