O cabeça-de-lista da UNITA às eleições angolanas, Isaías Samakuva, avisou hoje que, a 23 de Agosto, será feito o balanço de 42 anos de governação do MPLA em Angola, denunciando uma tentativa de “mudança cosmética”, no partido no poder. Importa recordar que também será feito o balanço à (in)acção da Oposição.

O presidente UNITA, Isaías Samakuva, discursava no Cacuaco, arredores de Luanda, num comício que juntou milhares de pessoas para assinalar a abertura da campanha eleitoral – oficialmente decorre de 23 de Julho a 21 de Agosto – do maior partido, e muitas vezes único, da oposição.

“Quem dirigiu o país há 42 anos e não consegue sequer dar-nos água potável, este ainda vai ser escolhido outra vez?”, questionou Samakuva, perante os apupos dos apoiantes da governação do MPLA, no poder desde 1975.

“Eu estou-vos a pedir que este momento das eleições seja o momento do balanço. Temos de fazer o balanço, eles prometeram-nos um milhão de casas, vocês viram? Prometeram água para todos. Viram? Electricidade nas vossas casas. Viram? Medicamentos nos hospitais”, enfatizou Samakuva.

É claro que o momento não era para explicar porque é que a UNITA quase sempre não reagiu a estas realidades e, muitas vezes, nunca agiu para – no terreno – mostrar a sua discordância e tentar (pelo menos isso) pegar o “boi pelos cornos”.

O partido arrancou a campanha eleitoral ao ataque à candidatura do MPLA, liderada por João Lourenço, para umas eleições às quais já não concorre José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979.

“Eles estiveram sempre juntos. Esse companheiro vai-nos ajudar? Eles apreenderam a mesma coisa, não é verdade? A escola deles é a mesma, vai-nos ajudar como?”, questionou Isaías Samakuva, acusando Lourenço de ser alguém que “esteve sempre ao lado” do líder do MPLA.

“Não vale a pena vir com mentiras, nós vamos fazer exactamente o contrário, estamos a explicar o que vamos fazer e somos reféns da nossa palavra. Sabemos que o país pode”, garantiu, insistindo: “A mudança verdadeira vem com a UNITA, não pode ser uma mudança cosmética”.

A UNITA defende que há condições para elevar o salário mínimo nacional em Angola, o segundo maior produtor de petróleo em África, para 500 dólares, equivalente a 83.000 kwanzas (430 euros) e quatro vezes mais face ao actual, prometendo ainda que as obras públicas serão entregues a nacionais, para dinamizar a economia, e uma aposta na formação profissional, para “dar um emprego” anos angolanos, entre outras medidas.

Ao longo de 70 minutos de discurso, sempre com críticas à governação do MPLA e promessas eleitorais, o candidato da UNITA afirmou que há hoje pessoas a morrer nos hospitais públicos, por não terem dinheiro para comprar medicamentos, concluindo que o acesso à saúde não é gratuito.

“No governo da UNITA o medicamento é grátis, a saúde é grátis mesmo. Não é dizer que é gratuito e depois as pessoas têm que pagar gasosas (aos funcionários e médicos, para serem tratados). Aliás, quem for apanhado a pedir gasosa vai ser levado aos tribunais e corre o risco de ir para a cadeia”, sublinhou, perante o aplauso de milhares de apoiantes.

Com a candidatura de João Lourenço na mira, Samakuva criticou as opções do adversário eleitoral: “Eu ouvi também o candidato dos ‘outros’, ali numa praça, a falar para os feirantes, a dizer ‘eu vou vos garantir que vão continuar a vender aqui’. O nosso povo não precisa de quem lhe dê garantia de que vão continuar a vender no mercado, precisa de quem lhe tira no mercado para lhe dar um emprego contínuo”, afirmou.

Perante apelos constantes a que “a altura de mudar é agora”, o candidato da UNITA não deixou de ironizar com as obras públicas em curso, em vários pontos do país, nomeadamente nas acessibilidades em Luanda, lançadas nas últimas semanas.

“E estes dias então, por causa das eleições que estão a vir, estamos a ver máquinas por todo o lado. Mas então as máquinas estiveram onde, todo o tempo?”, questionou.

A UNITA insiste num programa de governação para dois mandatos, a dez anos, e recusa a ideia de “revanchismo” ou despedimentos, em caso de vitória nas eleições gerais de 23 de Agosto, prometendo um “governo aberto”.

“Não são só os da UNITA, que ganham as eleições. Nós vamos buscar os melhores filhos do país, aqueles que são competentes, aqueles que se dedicam ao serviço do povo”, enfatizou Samakuva.

Na presidência da UNITA desde 2003, após a morte em combate Jonas Savimbi, Isaías Samakuva já liderou a lista do partido nas eleições anteriores, de 2008 e 2012.

“O dia 23 de Agosto está a aproximar-se. Faltam só 31 dias. Significa que o nosso sofrimento pode ter os dias contados, pode ter só 31 dias”, rematou.

Um outro balanço

Os angolanos continuam sem saber se qualquer reflexão que ultrapasse o círculo de acólitos de Isaías Samakuva (é tal e qual o que se passou com Eduardo dos Santos e se passará com João Lourenço) serve para acordar aqueles que sobrevivem com mandioca ou, pelo contrário, apenas se destinam a untar o umbigo dos que se banqueteiam com lagostas em Luanda.

Perante os sucessivos desastres eleitorais, Isaías Samakuva continua a querer ir de derrota em derrota até à…. derrota final. Limita-se a posições dialécticas, emotivas, comicieiras, para tudo ficar na mesma. Não percebeu, afinal, que a UNITA enquanto principal partido da Oposição está em cima de um tapete rolante que anda para trás. Por isso limita-se a andar. E, é claro, fica com a sensação de estar a ganhar terreno mas, no final de contas, está sempre no mesmo sítio. Jonas Savimbi dir-lhe-ia, certamente, isto de forma mais assertiva.

Isaías Samakuva é o líder que os militantes querem. Não é de crer que seja a alternativa que os angolanos gostavam de ter. Longe disso. Ao contrário de Jonas Savimbi que, mesmo errando muitas vezes, agia, Samakuva limita-se a reagir e a muito custo, sempre que possível sem sair à rua, sem se juntar aos plebeus que, no Zango ou em qualquer outro lugar, clamam por justiça. Em vez de entender a mensagem, manda “abater” o mensageiro.

Ninguém melhor do que Samakuva para saber se a UNITA vai conseguir viver sem comer. UNITA no sentido dos homens e mulheres que tinham orgulho no Galo Negro que transportavam no peito. Um dia destes, talvez já em Agosto, o MPLA virá dizer, com uma lágrima no canto do olho (sorridente) que exactamente quando estava mesmo, mesmo quase a saber viver sem comer, a UNITA morreu.

A UNITA, e nisto é igual ao MPLA, prefere ser assassinada pelo elogio do que salva pela crítica. E quando assim é… não há memória que a salve, nem mesmo a do Mais Velho.

O sacrificado povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia, não viu, não vê e assim nunca verá na UNITA a alternativa válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Alcides Sakala, Samuel Chiwale Jeremias Kalandula Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces e Elias Salupeto Pena.

Terá sido para isto que Jonas Savimbi lutou e morreu? , perguntam muitos angolanos das gerações mais velhas. Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saberem como, herdaram o partido.

Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai em 13 de Março de 1966?

Foi do Muangai que saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Foi de lá que também saíram teses sobre a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; liberdade, democracia, justiça social, solidariedade e ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra hoje de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

Folha 8 com Lusa

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