Era inevitável. Marcelo Rebelo de Sousa falou e Augusto Santos Silva, mesmo sem ir a banhos em Luanda, tinha de dar os seus palpites. Ou não estivesse mandatado por… José Eduardo dos Santos. Ora então, o ministro dos Negócios Estrangeiros português reiterou hoje que as relações políticas entre Lisboa e Luanda são “normais e bem consolidadas”, acrescentando que o primeiro-ministro português visitará Angola numa “data conveniente” para os dois países.

“T emos relações políticas normais, bem consolidadas, com Angola. O relacionamento económico é estreito e tem-se aprofundado desde o ano passado, em que, devido às dificuldades vividas em Angola e pelos efeitos ainda das dificuldades passadas da economia portuguesa, baixou, ao nível do investimento e exportações e importações”, declarou à Lusa Augusto Santos Silva.

No primeiro semestre deste ano, essa realidade inverteu-se, com um “novo crescimento das relações económicas entre os dois países”.

“O relacionamento histórico e cultural é tão estreito que é verdadeiramente nele que devemos atentar e construir a relação entre as nossas sociedades e os nossos Estados”, considerou o perito dos peritos do governo de Lisboa.

Augusto Santos Silva falava à Lusa por telefone a partir de Luanda, onde está a acompanhar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, por ocasião da cerimónia de posse, esta terça-feira, do novo chefe de Estado angolano, João Lourenço (MPLA, partido no poder desde 1975).

Questionado sobre críticas do vice-presidente da UNITA (maior partido da oposição em Angola), Raúl Danda, de que Portugal “verga sempre” perante exigências de Luanda, o ministro disse que o Governo português “não tem de responder a partidos políticos estrangeiros”. Além disso, ao contrário do MPLA, a UNITA não pertence à Internacional Socialista.

“Quer em Portugal quer em Angola, há quem entenda que há demasiada distância entre os dois países, há quem entenda que há demasiada cumplicidade, há quem entenda que há demasiada indiferença e há quem entenda que há demasiado relacionamento. Isso caracteriza mais as pessoas que emitem essas opiniões do que o estado das relações bilaterais e o comportamento dos dois Estados e dos dois Governos”, sustentou Santos Silva.

Questionado sobre uma futura visita de António Costa a Angola — que já esteve prevista para a Primavera passada -, Santos Silva disse que Lisboa e Luanda “consideram que é muito importante uma visita do primeiro-ministro português a Angola, e também que são muito importantes visitas das mais altas entidades angolanas a Portugal”.

“Neste momento é a questão de encontrar a data que seja mais conveniente para Portugal e para Angola. O que temos dito é que para nós, todas as datas são convenientes”, afirmou.

Instado a comentar se essa deslocação pode ocorrer ainda este ano, Santos Silva não se comprometeu: “Amanhã [terça-feira] toma posse o novo Presidente, depois formar-se-á o Governo. Retomaremos o trabalho diplomático e quando for a melhor altura para as duas partes, assim se fará a visita”.

As relações entre Portugal e Angola esfriaram, depois de Luanda ter condenado notícias da imprensa portuguesa sobre a constituição como arguido do então vice-presidente angolano, Manuel Vicente, por corrupção activa. Recorde-se que o regime do MPLA não brinca em serviço e, por isso, Angola é um dos países mais corruptos do mundo, o que lhe faculta toda a autoridade para falar desta matéria.

Numa reacção sobre o assunto, em Fevereiro, o Governo angolano considerou “inamistosa e despropositada” a forma como as autoridades portuguesas divulgaram a acusação, alertando que essa acusação ameaça as relações bilaterais.

No mês seguinte, o então ministro da Defesa angolano e candidato do MPLA às eleições de Agosto — em que foi eleito Presidente -, João Lourenço, exigiu “respeito” das autoridades portuguesas às “principais entidades do Estado angolano”, admitindo que as relações bilaterais estavam “frias”.

Na sequência deste facto, ficou adiada “sine die”, a pedido de Angola, a visita da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van-Dúnem, a Angola, prevista para Fevereiro e anunciada dias antes pelo chefe da diplomacia portuguesa.

As culpas que a Europa deve expiar

Relembre-se que Augusto Santos Silva sustentou no dia 24 de Maio de 2017 que a Europa tem “culpas a expiar” por “desatenção recente” com África, defendendo uma maior cooperação entre os dois continentes para resolver problemas como as migrações. Se a hipocrisia deste ministro (e de uma forma geral de todos os governos portugueses) pagasse impostos, certamente que Portugal teria as suas contas públicas em ordem.

“É preciso mais cooperação entre a Europa e África, é preciso mais proximidade entre a Europa e a África. Quem tem culpas a expiar nesta relação, por desatenção recente, não é África, mas sim a Europa”, disse Augusto Santos Silva, intervindo como convidado de honra na comemoração do Dia de África (25 de Maio), organizada pelo corpo diplomático africano em Portugal.

Actualmente, acrescentou Augusto Santos Silva, os europeus têm “uma enorme responsabilidade adicional”. Têm sim senhor. Mas Portugal tem tantos, mas tantos, telhados de vidro (veja-se, por exemplo, o seu relacionamento com o regime de Angola) que deveria estar quietinho e caladinho.

“Com a perspectiva de alguma viragem na política norte-americana quanto ao multilateralismo e às grandes agendas comuns, do clima ao desenvolvimento, a Europa tem a responsabilidade acrescida de liderar essas agendas”, sustentou o ministro, quase como se fosse Portugal uma virgem santa e não, como é, uma “prostituta” rainha dos mais putrefactos bordéis.

A agenda para o desenvolvimento sustentável das Nações Unidas (agenda 2030) “casa-se bem com a agenda 2063 da União Africana” e as duas regiões partilham das mesmas preocupações sobre as alterações climáticas.

“Só é possível resolvermos alguns dos nossos problemas europeus, por exemplo o das migrações, se pedirmos ajuda – insisto, se pedirmos ajuda -, a África. Só há uma maneira: sermos parceiros em projectos comuns”, considerou Santos Silva, esquecendo-se de assumir que pouco, ou nada, interessa se os países africanos são liderados por dirigentes corruptos e esclavagistas.

Portugal, acrescentou Santos Silva, “entende que a sua responsabilidade, como ponte que é entre África e Europa, é ajudar a Europa a compreender tudo isto”, ou seja, “situar a Europa do lado do futuro, ou seja, a Europa tem de estar situada do lado de África”. Lindo. Quase parece um poema concorrente aos jogos florais da Internacional Socialista.

O chefe da diplomacia portuguesa advogou a necessidade de a Europa ter “mais consciência de quão importante é a parceria com África”, mas reconheceu que há avanços nesta matéria, exemplificando que a relação com os africanos foram os temas escolhidos pelas presidências italiana e alemã do G7 e do G20, respectivamente.

“Esta consciência de que África é um parceiro essencial do ponto de vista económico, político, da segurança, estratégico, é hoje muito mais clara na Europa”, referiu o ministro português, servil acólito – embora disfarçado – do regime despótico do seu camarada José Eduardo dos Santos.

Portugal, afirmou, reconhece a “riqueza de África como um mercado económico e uma economia global”, mas isso mesmo “sabe a China, sabe a Índia, sabe a América” e “a União Europeia deveria saber melhor”.

Santos Silva justificou por isso que os portugueses têm procurado convencer a Europa a “regressar a África, não da forma como a explorou durante séculos, mas como um parceiro”. Como anedota não está mal.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que – segundo as suas próprias palavras – “foi mandatado pelo Presidente José Eduardo dos Santos”, afirmou no dia 22 de Fevereiro que o Governo português continuava a preparar a visita do primeiro-ministro a Angola, então prevista para esta Primavera, depois de Luanda ter adiado a deslocação da ministra da Justiça, que deveria ter começado nesse dia.

“Os preparativos para a visita do primeiro-ministro, da parte portuguesa, continuam normalmente. Nós apresentámos várias datas possíveis para a visita se realizar e esperamos uma resposta das autoridades angolanas”, disse aos jornalistas Augusto Santos Silva.

Recorde-se que o ministro português veio a despacho a Luanda, entre 10 e 12 de Fevereiro, para reforçar a cooperação bilateral e preparar uma visita de António Costa. Entenda-se o significado político da expressão “reforçar a cooperação bilateral”: aumentar o índice de bajulação e subserviência em relação ao regime do MPLA.

Folha 8 com Lusa

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