Já temos as listas! E agora que as temos, podemos ver o quão idênticas elas são. Uns dizem-se ser de esquerda, alguns do centro, outros de centro-esquerda, e ainda outros de centro-direita. Quando perguntamos aos militantes, ainda que do topo, qual o espectro político do seu partido, a maioria nem sabe dizer. E não o sabem porque, na verdade, são partidos sem definição.

Por Sedrick de Carvalho

Então, podemos partir para outra pergunta: o que acham da forma como o actual presidente da República, José Eduardo dos Santos, introduz os seus filhos na vida política pública e partidária?

“É um abuso. O senhor presidente desrespeita tudo e todos. Nepotismo puro”, dizem os membros dos partidos na oposição, e até mesmo militantes do partido governante-autoritário. Pronto! Estamos entendidos!

E agora que as listas dos candidatos a deputados foram divulgadas pelo Tribunal Constitucional – quando deveriam ser os partidos a fazer -, já podemos conversar mais sobre a forma de introdução de familiares dos dirigentes partidários nas respectivas organizações política e instituições públicas.

Fizemos uma leitura por todas as listas, mas destacamos três, ainda que a terceira – do MPLA – não mereça tanta consideração por ser uma contradição se fosse de outra forma.

A Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE) parece ter o caso mais flagrante de tentativa de introdução massiva de familiares no aparelho do Estado, concretamente na Assembleia Nacional. Pai, mãe, filho e irmão. Uma família completa numa lista.

Trata-se do presidente da coligação, Abel Chivukuvuku, número 1 da lista, a esposa do presidente, Maria Victória Ferreira Chivukuvuku, no nono lugar, Américo Kolonha Chivukuvuku, em 15º, irmão, e Samuel Pedro Catumbela Chivukuvuku, no 47º lugar, filho do presidente.

A coligação reforçou-se com as entradas do Bloco Democrático (BD) e Partido Democrático para o Progresso e Aliança Nacional de Angola (PDP-ANA), mas, notemos, o presidente do BD aparece em 11º lugar, dois lugares depois do ocupado pela esposa do cabeça de lista. Mau sinal, pensamos. Colocar o líder duma organização parceira numa posição mais abaixo para dar lugar a familiar é mau prenúncio, e isto certamente gera descontentamento no seio dos recém-chegados à organização.

Frisamos a família Chivukuvuku, mas percebemos que há três Kerlan, dois Tito e Mendes de Carvalho na lista. Os principais membros com esses sobrenomes são vice-presidentes do partido.

Na União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) também há candidatos por parentesco. Os três Kopumi saltam à vista quando lemos a lista do Galo Negro – nomeadamente, Mihaela Ezsébet Neto Webba Kopumi e Celênia Njolela Kopumi, respectivamente números 17 e 162 da lista nacional, enquanto Alcibiades Sebastião Efraim Elavoko Kopumi é o cabeça de lista do ciclo provincial da Huíla, este esposo da candidata 17. Em seguida, Albertina Ngolo e o pai Eugénio Antonino Ngolo «Manuvakola», Adriano Sapiñala e o pai Samuel Chiwale.

Que exemplo se pretende passar à sociedade com essa relação familiar nas listas para ocupar cargos públicos, ainda mais quando se diz que o que se pretende como objectivo final é ser governo?

Suponhamos que as eleições não fossem uma simulação e a CASA-CE chegasse ao poder, e, por imperativo normativo, Abel Chivukuvuku passasse a ser presidente da República… Os seus familiares-deputados teriam a ousadia de o questionar nos dias em que o presidente-esposo-pai-e-irmão fosse ao parlamento prestar esclarecimentos na qualidade de chefe do governo? Ou, ainda mais grave, seriam livres para votar uma moção de condenação exigindo investigação judicial contra o presidente-esposo-pai-e-irmão?

Para além dessas interrogações, a nossa preocupação reside sobretudo na mensagem que se está a transmitir ao povo. Os angolanos, maioritariamente, não compreendem a diferença entre um sobado e uma República, pois o actual governo deliberadamente causa esta confusão. E os partidos na oposição devem preocupar-se em demonstrar que política não é sinónimo de promiscuidade e que partidos não são sociedades comerciais, apesar de lhes ser aplicado a lei das sociedades comerciais em alguns casos.

Muito menos estamos a questionar o mérito dessas pessoas, longe disso. Sabemos que alguns familiares-integrantes dessas listas são militantes activos nas respectivas organizações. Estamos preocupados com a perpetuação da ideia repugnante segundo a qual é necessário ser família de algum dirigente para constar das listas de deputados ou ocupar cargos ao nível governativo.

Surgirão vários argumentos em defesa da inserção de famílias inteiras nas listas, e não vão faltar comparações com os Kennedys, Roosevelts, os Soares ou os Mugabes e os Obiangs. Por essa via, os defensores do nepotismo terão de desdizer tudo o que disseram sobre a nomeação de Isabel dos Santos para PCA da SONANGOL, Filomeno dos Santos para PCA do Fundo Soberano, ou Welwitchia dos Santos e José dos Santos «Coreon Du» como gestores do canal 2 da TPA. Simples!

Uns ainda terão o descaramento de dizer que não há comparação possível por serem organismos públicos e que o pai os nomeou nas vestes de presidente da República e não do partido. A Assembleia da República é também um órgão público e soberano e que, constitucionalmente, reveste-se de maior importância comparando com as empresas salientadas.

Vejamos, já agora, o despacho do presidente da Assembleia Nacional que autoriza a compra de viaturas Lexus LX 570, modelo saído este ano, para os deputados que entrarão brevemente, e outros que se manterão. Tão logo ingresse no hemiciclo, o deputado passa a conduzir carro cujo valor o trabalhador de base nunca juntará ao longo da sua vida de trabalho, cidadão que entretanto nem conhece o nome e rosto do representante, ou seja, o representante que não o representa.

Por decência até, os grupos parlamentares deveriam emitir declarações a negar essas viaturas, apresentando como proposta a aquisição de carros modestos, e descartando a necessidade de atribuir-se carros aos actuais deputados por já os terem. Mas aqui é onde reside o verdadeiro combate contra a pobreza, ou seja, um combate contra os pobres que denunciam o nepotismo e o mal uso do erário, colocando os pobres numa lista de personae non gratae.

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