O histórico militante do MPLA e ex-membro do Comité Central, Ambrósio Lukoki, apelou hoje à saída de José Eduardo dos Santos da presidência do partido, considerando que as decisões do novo chefe de Estado, João Lourenço, “reanimam a esperança”.

Antigo embaixador, ministro e membro, durante 40 anos, até 2016, do Comité Central do partido que governa Angola desde 1975, Ambrósio Lukoki convocou hoje a imprensa, em Luanda, para apelar à saída do ex-chefe de Estado.

“Pela credibilidade republicana, ética e moral, convém José Eduardo dos Santos demitir-se de imediato do posto de presidente do partido MPLA”, apontou.

Desde que tomou posse, a 26 de Setembro, na sequência das eleições gerais de 23 de Agosto, João Lourenço procedeu a exonerações de várias administrações de empresas estatais, dos sectores de diamantes, minerais, petróleos, comunicação social, banca comercial pública e Banco Nacional de Angola, anteriormente nomeadas por José Eduardo dos Santos.

A exoneração de Isabel dos Santos, filha do ex-chefe de Estado, do cargo de Presidente do Conselho de Administração da petrolífera estatal Sonangol, aconteceu na quarta-feira passada e foi a decisão mais mediática, seguindo-se a polícia e as chefias militares.

José Eduardo dos Santos anunciou em 2016 que pretendia abandonar a vida política em 2018, mas nesse mesmo ano recandidatou-se, de novo, à liderança do MPLA, renovando o mandato de cinco anos.

“Neste momento, as principiais iniciativas de João Lourenço, Presidente da República de Angola, acolhem os bons sentimentos dos militantes de base do partido MPLA, reanimando a sua esperança na reviravolta dos recuos que se têm sucedido nas eleições”, afirma, por seu turno, Ambrósio Lukoki.

Crítico recente de José Eduardo dos Santos, o que o levou a pedir a retirada do nome da lista candidata ao Comité Central no congresso de 2016, Lukoki vai ainda mais longe, assumindo que é necessário “acabar com o `José Eduardismo´ para sempre”.

“O `José Eduardismo´ é o tal reinado com absolutismo de quase 40 anos, é a tal tomada de refém do povo angolano, é o tal regime de corrupção abjecta, que como regime profundamente corrompido, corrompe cada vez mais e espalha a corrupção aos bajuladores, assim como a prática do nepotismo, a tal falta de respeito ao povo e cinicamente considera o povo angolano de idiota”, acusa ainda o histórico do MPLA.

Ainda na última reunião ordinária do Comité Central do partido, realizada a 23 de Outubro, José Eduardo dos Santos viu o partido aprovar-lhe uma declaração de elogio, reconhecimento e apoio.

Desde o congresso do partido, em agosto de 2016, que João Lourenço assumiu a vice-presidência do MPLA, mas, além da não recandidatura ao cargo de chefe de Estado, nas eleições gerais deste ano, José Eduardo dos Santos nunca chegou a esclarecer os moldes que pretendia deixa a vida política.

“O partido MPLA dá a impressão de não ter projectos concretizáveis para além das suas pretensões ou ambições desconectadas da situação de Angola em renovação. Se a refundação significa somente uma preservação, então, para o partido MPLA, vira o tempo de evaporação”, alertou ainda Ambrósio Lukoki.

Para o nacionalista e histórico do MPLA, o partido necessita de uma “estratégia bem articulada”, um candidato presidenciável “e sobretudo um líder na capacidade de o encarnar”.

“Pelo que é muito imperioso ao nível do partido MPLA legitimar e legalizar o Presidente João Lourenço na plenitude do seu voto citadino que mereceu da parte do eleitorado do povo angolano soberano”, concluiu.

Ambrósio Lukoki, Irene Neto e… pouco mais

Como aqui escreveu nosso companheiro Sedrick de Carvalho, no dia 12 de Julho, sob o título “O desmoronamento interno da ditadura”, muitos acreditam que a decisão de José Eduardo dos Santos se afastar da presidência se deve ao desgaste físico e psicológico causado pela pressão exercida ao longo dos anos por todos os que sempre contestaram o seu reinado ditatorial. Internamente também houve contestação, afinal, ainda que sempre na lógica de “lavar a roupa suja dentro de casa”. Ambrósio Lukoki é uma dessas pessoas que, cansado, decidiu demonstrar o seu descontentamento ao falar da “roupa suja” publicamente.

“O presidente do partido e chefe de Estado, registando uma impopularidade recorde, pelas suas desinteligências, conota o partido e arrasta na sua queda certos inocentes do MPLA”, disse Lukoki numa conferência de imprensa realizada na véspera do último congresso do MPLA, em Agosto de 2016. Quando diz “certos inocentes”, Lukoki está a ter o cuidado de apontar que no MPLA poucos são os inocentes, e que estes poucos estão a ser prejudicados pela falta de inteligência de JES.

E internamente a ditadura só tem claudicado dia após dia. Irene Neto, filha do primeiro presidente de Angola, duas vezes deputada pelo MPLA, renunciou ao seu lugar na lista de deputados candidatos ao simulacro eleitoral de Agosto. Pouco tempo depois, desfez-se em críticas interessantemente argumentadas sobre o excesso de poder e vassalagem atribuídos ao presidente da República.

Lamentando o facto de o Executivo ser um órgão unipessoal, Irene Neto, em entrevista ao Novo Jornal, apontou o esvaziamento da Assembleia Nacional da sua função orgânica – fiscalizar o governo – como uma das razões para não continuar naquele órgão que devia ser independente. Actualmente o parlamento é uma instituição “passiva e subalternizada”, sem “iniciativa e autonomia”.

A filha de Agostinho Neto só nessa altura disse publicamente o que muitos têm dito sobre a concentração e centralização de poderes numa pessoa, classificando o regime que apoiava pela sua bancada parlamentar e militância partidária de ser um “presidencialismo quase imperial” que “asfixia a democracia e desmantela os contrapoderes”.

A tentativa de eternizar José Eduardo dos Santos como presidente mediante o título de “Presidente Emérito” também mereceu repúdio da deputada. Após a morte do pai, Irene nunca ouviu ser discutido especificamente uma lei para acomodar a “Primeira Família Presidencial”, e lembrou que a ex-primeira-dama nunca usufruiu dum gabinete e salário e que a família “não dispunha de recursos financeiros próprios para assegurar a sua sobrevivência”.

É aqui onde notamos que a lei aprovada sobre o regime dos ex-presidentes surgiu simplesmente para blindar JES e sua família, completamente mergulhados na corrupção. E sobre família, Irene Neto afirmou ainda que “a nossa família nunca esteve envolvida em práticas imorais ou ilegais”, mas o mesmo não poderá dizer a “Segunda Família Presidencial”.

E na sequência do reposicionamento discursivo, João Melo, militante e deputado pelo MPLA (hoje ministro da Comunicação Social), escreveu um artigo no hegemónico Jornal de Angola onde apontava que “José Eduardo dos Santos não é nenhum deus” e que “também cometeu erros”. O texto tem como ponto central as propostas de leis que têm sido levadas à Assembleia Nacional pelo partido do qual é membro, nomeadamente, lei sobre o regime dos ex-presidentes e das chefias militares.

Adiantando que “lealdade não tem nada a ver com simsenhorismo”, João Melo discordava das “soluções administrativas e legais supostamente destinadas a preservar o legado do presidente”, mas faz a crítica sem qualquer estardalhaço, numa táctica subtil que faz lembrar o rato que rói e sopra. E no artigo mais sopra. A parte introdutória do texto é tão longa que parecia estar bastante preocupado em preservar alguma coisa.

É preciso descer aos três últimos parágrafos para perceber o que pretende o também escritor. Melo transmite a ideia segundo a qual as leis em questão são da autoria de “´fiéis e leais´ que dizem que defendem o presidente” e não uma iniciativa do próprio. Ou seja, nesta altura José Eduardo não é o Chefe Supremo Disto Tudo e que há indivíduos “preocupados apenas com os seus interesses. Deles”. Ora, se não fossem da iniciativa de JES, não estariam a ser aprovadas após a onda de repúdio público e que seguramente tomou conhecimento, isto se não está efectivamente doente como se especula.

Porém, o certo é que João Melo colocou-se contra os seus camaradas que aprovaram a lei sobre o regime dos ex-presidentes e também contra a proposta de lei que visava manter as chefias militares por oito anos ininterruptos, retirando a possibilidade ao novo presidente de ser Comandante-em-Chefe efectivo.

O dinheiro está a escassear. A Sonangol tem apresentado sucessivamente resultados negativos, apesar das contas mágicas que Isabel dos Santos foi fazendo, como frisa Rui Verde. A máfia começou a desmoronar, e que Ambrósio Lukoki e Irene Neto influenciem outros camaradas a reposicionarem-se, e não com meias palavras.

Folha 8 com Lusa

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