João Gonçalves Lourenço foi escolhido por Sua Excelência, José Eduardo dos Santos para ocupar o mais alto cargo político da Nação angolana entre uma espetada de eruditos predadores, especializados na “obtenção primitiva de riqueza(s)”. Estou a referir-me a um punhado de pessoas, nomeadamente, Manuel Vicente, Hélder Júnior Vieira Dias Kopelipa, Piedade Dias os Santos Nandó, Isabel dos Santos e Filomeno dos Santos.

Por Arlindo Santana

Por outro lado, não ofende nem denigra ninguém dizer que na lista de candidatos à sucessão de Sua Excelência, se contam por dezenas as personagens do topo de gama da “intelligentzia” angolana, entre generais, ministros e ex-ministros de Estado, banqueiros, que tudo fizeram na vida para colher favores de Sua Excelência e esperar aceder ao mesmo fim, por via de processos conduzidos no sentido quase exclusivo de depravar o erário público a coberto duma fidelidade canina ao chefe supremo. Isto sem falar de milhares de cidadãos angolanos que, pelo menos uma vez na vida, sonharam ocupar o posto de presidente das República, ou que, por saberem que é causa perdida de avanço, no mínimo se esforçam para que o seu filho o venha a ser.

No caso pendente, o vencedor desse tipo de corrida foi João Lourenço. Mas, por mais que pareça absurdo, teve pouca sorte!

Para começar, a sua chegada ao topo do areópago do poder, sem querer ofender, assemelha-se à entrada de um espermatozóide num óvulo, mais precisamente, à entrada no óvulo duma mulher, se nos referirmos à doutrina cristã, que considera o espermatozóide vencedor, o que entrou no óvulo, como sendo portador duma mensagem de Deus, a alma, que só os seres humanos têm.

Quanto ao caso de João Lourenço, certo é que, na sua subida ao posto de candidato a presidente da República, ele se fez acompanhar duma mensagem, não de Deus, é verdade, mas de Sua Excelência.

Qual mensagem?… Uma mensagem que assenta como uma luva no teor da doutrina teológica da Igreja Católica, e não só, segundo a qual a opacidade dos mistérios religiosos permite transformar o que parece absurdo em dogma, ou seja, em inamovível e indiscutível verdade religiosa.

No que diz respeito a João Lourenço, a verdade decorrente é a política, claro está, ou seja, a palavra de Sua Excelência – e que louvado seja ele -, enquanto nos seus discursos de campanha, o que ele tem por missão é prometer ao povo o que sempre lhe foi recusado.

Pouca sorte.

O mal-estar que ele deve sentir, se o sentir dever-se-á ao facto de a mensagem de que ele é portador não cola à realidade angolana, embora seja verdade que ela se estenda, por ora, a todas as formações políticas que concorrem às eleições. Todas prometem que vão fazer e acontecer coisas e loisas e nenhuma é capaz de explicar como e de onde virá o dinheiro para realizá-las. Entretanto, a oposição, impotente, atónita e afónica, ouve sair da boca do candidato escolhido por Sua Excelência, entre muitas promessas inexequíveis, as mesmíssimas propostas que eles fizeram anos a fio e sempre foram recusadas pelo partido no poder.

Sobre a campanha do MPLA

A chamada “pré-campanha eleitoral” do MPLA assumida por João Lourenço pouco tem a ver com política, é, pelo essencial, de marketing. Para levar a bom porto esse plano, todos os meios do Estado foram postos à sua disposição. Todos! Aqui adiante apresentamos uma lista não exaustiva dos favores exorbitantes fruídos pelo MPLA:

1) «A (sua) pré-campanha gasta mais de USD 2 milhões por província, 70% para os órgãos do Estado e empresariado nacional, 30% para o partido». Isto só atingiu uns mais de 36 milhões de dólares gastos antes de começar a campanha oficial, no passado dia 30 de Junho!

2) João Lourenço tem direito a 24 horas de tempo de antena na TPA, todos os dias;

3) Uso e abuso dos meios de transportes do Estado nas suas deslocações e na transportação das populações levadas de longas distâncias e forçadas a assistirem aos seus actos; Utilização dos aposentos ou hospedagens e serviços protocolares do Estado;

4) Indefinição durante cerca de oito meses e agora, começada a campanha eleitoral, dispensa outorgada por despacho de Sua Excelência de todas as suas funções como Governante, na qualidade de Ministro da Defesa.

Assim apoiado pelo MPLA/Estado, João Lourenço, carinhosamente apelidado JLo pelos seus apaniguados, mostrou-se digno da missão que lhe foi confiada, percorreu o país todo durante 8 meses, desde Dezembro do ano passado até vésperas da campanha oficial, presidiu e apresentou o programa de governação do MPLA em todas as capitais de província e em locais estratégicos, como o Cacuaco, por exemplo, e acrescentou à propaganda eleitoral do seu partido, por toda a parte em que esteve presente e oficiou, um florilégio de realizações feitas desde 2002.

Todas essas obras, apresentadas como vitórias de sua Excelência e do MPLA, umas aparatosas, outras insignificantes, foram alvo, na sua esmagadora maioria, da rapacidade de agentes do partido e “amigos”, que “chuparam” em alegre e total impunidade, comissões de vinte, trinta por cento, por vezes muito mais em termos percentuais, sobre o preço pago pelo Estado, comissões essas que estão na origem do aparecimento em Angola de milhares de milionários e de meia dúzia de bilionários ao longo dos últimos 15 anos que se seguiram ao calar das armas em 2002.

Vai de si que, nem com reticências e pontos de interrogação, o candidato do MPLA aludiu às estradas esburacadas até aos seus fundamentos, aos hospitais a ameaçar ruir meses depois de terem sido construídos e sem médicos, sem enfermeiros e sem material gastável, às escolas e universidades sem professores competentes, aos grandiosos falhanços no que toca à distribuição de electricidade e água e ao saneamento básico.

Marketing obriga!

Inaugura-se o produto (algumas vezes inacabado) e apresenta-se o produto ao povo, mostrando unicamente o seu lado positivo, porque a principal preocupação é dar uma prova da excelência da governação. Porém, também é verdade que os actuais dirigentes, com João Lourenço agora à cabeça, reconheceram que foram cometidos erros, mas sem os definir nem classificar, deixando passar a mensagem de que esforços estão a ser envidados para “corrigir o que está mal”. O problema, todavia, é que quase tudo está mal e o pior é que, o que de pior acontece em Angola é simplesmente relegado para o reino do esquecimento.

Falar dos casos Kalupeteka, dos Revús 15+duas, dos ataques à mão desarmada no BESA e no BPC (mais de 10 BILIÕES de dólares roubados ao erário público e transformados em kilapes mal-parados) denunciar os assassinatos das Brigadas da Morte, da Secreta e do SIC, disso, não se fala, é quase tabu, desde o momento em que, sem que se saiba bem por quem, se lançou para o ar que as eleições são festa e que o civismo implica a prática do fair-play, não se deve denegrir nem acusar violentamente os adversários políticos.

É demais, mesmo que não haja mais de 20% de angolanos que respeitem e aprovem o que o MPLA fez durante estes 5 anos de consulado, esse partido talvez ainda possa ganhar desta vez as eleições, pela tangente, Mas cuidado, se as promessas feitas pelo delfim de Sua Excelência não forem cumpridas, como na maioria dos casos são inexequíveis, de certeza quase absoluta será posto um fim à hegemonia do MPLA. Provavelmente antes das próximas eleições de 2022.

Nota: voltaremos numa próxima edição com a CNE a entrar em cena.

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