Bel Neto, pseudónimo literário da jovem escritora angolana Isabel Jussara Neto, também conhecida como “a poetisa do outro mundo”, sagrou-se terceira vencedora da copa do mundo de poesia falada da Festa Literária das Periferias (FLUP), realizada pela organização não-governamental Horizonte na Comunidade do Vidigal, cidade do Rio de Janeiro, Brasil, que decorreu entre os dias 10 e 15 do mês passado.

Por Pedrowski Teca

Também participou no evento dedicado à literatura, um outro poeta declamador angolano, Ermi Panzo, que chegou a alcançar as meias-finais do concurso.

O festival contou com 10 mesas de jurado, 12 poetas brasileiros e 12 estrangeiros, tendo a participação especial do aclamado actor e comediante Renato Aragão, conhecido como Didi, da turma brasileira “Os Trapalhões”, cujos filmes fizeram sucesso em Angola.

O Folha 8 apercebeu-se da conquista da escritora angolana no evento, mundialmente conhecido como “Rio Poetry Slam”, e entrevistou a autora.

Folha 8 (F8) – Quem é a Bel Neto?

Bel Neto (BN) – A Bel Neto é uma Jovem angolana, natural de Luanda, a mais nova de oito irmãos, e mãe de dois filhos (Ésio e Kyame). Sou uma esposa dedicada, que se define como uma pessoa introvertida sendo este o principal motivo que levou a exteriorizar as minhas inquietudes, apesar da timidez. Tenho desde cedo a tendência de fazer falar a voz da mulher que cala, transmitindo nos meus escritos temáticas polémicas como «Outro homem matou a minha fome», que muitos ainda consideram tabu.

F8 – E quanto à sua voz…

BN – Sou dona de uma voz dócil, uma exímia declamadora que entrou na luta pelo empoderamento da mulher, actuando em vários recitais, tais como: «Sou do género palavra», «Chave e fechadura». Afirmo a minha marca pelo facto de ser sempre evidenciada pelos textos singulares que recito e tenho promovido os meus escritos em vários espaços culturais da cidade de Luanda, como: Artes ao Vivo, Lev´Arte, no King´s Club, Berço Literário, em galas culturais interprovinciais. Escrevo contos, poesias infantis, “spoken word” (poesia falada), comédia e romance. Sou argumentista, tenho textos adaptados em peças teatrais.

F8 – Quando começou a fazer poesia?

BN – Comecei a escrever poesia aos 13 anos de idade, fruto da necessidade de expor as minhas ideias e sentimentos criados em parte pelo número de leituras e a timidez. Uma das minhas maiores influências foi o meu pai, que me presenteava com livros sempre que se ausentava do país e o facto de ele ter uma biblioteca em casa, fez de mim uma pessoa sortuda e muito interessada pela leitura.

F8 – Quantos livros tem no mercado?

BN – Tenho participações em duas antologias: “Sexo e comida” com Wladimiro Cardoso e outras jovens angolanas em 2012 e “Poemas de berço e outros versos”, em 2014, pelo Movimento Berço Literário ao qual pertenço. Não tenho o meu livro ainda publicado mas é um dos projectos que tenho em carteira para breve.

F8 – Quais e quantos prémios nacionais e internacionais venceu no seu percurso?

BN – Tenho a 3ª classificação da 2ª edição do nacional concurso Luanda Slam, realizado em Julho de 2016, e a 3ª classificação do concurso internacional Rio Poetry Slam, realizado no Rio de Janeiro, Brasil de 10 a 15 de Novembro de 2017.

F8 – Descreva-nos a experiência vivida no Rio de Janeiro durante a Festa Literária das Periferias (FLUP)?

BN – Foi uma batalha onde a “palavra” foi a arma e a nossa melhor aliada. Foi uma das melhores experiências por mim vividas, pelo facto de desafiar as minhas aptidões como poetisa, por poder beber de vivências de outros povos e ter a certeza de que ao sair de lá já não seria a mesma pessoa. O facto de ter conhecido um público diferente e poder emocionar e ao mesmo tempo me sentir capaz de mostrar ao mundo que independentemente de sermos poetas de países diferentes, estávamos cientes que todos éramos bons e estávamos juntos por uma causa maior que é a Revolução.

F8 – A palavra falada é uma arma… pacífica?

BN – É fantástico usar a palavra falada para poder contestar, divertir, advertir, tentar mudar o mundo de uma forma mais pacífica e mais comunicativa. É extraordinário usar a palavra falada para mostrar ao mundo que os jovens acompanham a sua dinâmica e se actualizam e investigam. O festival incorpora o poder da criatividade, a maneira como usamos a arte para criar, recriar, amar, mostrar outras formas de fazer poesia, revolucionar. Deixamos de ser estáticos e nos movemos para a unanimidade… É a arte urbana no seu estado natural.

F8 – Como descreve a participação e o contributo da Mulher Angolana no mundo literário ou, especificamente, da poesia nacional?

BN – Cada vez é maior e melhor o envolvimento das mulheres nos eventos literários. Por outro lado, hoje temos muitas mulheres a publicar os seus escritos. É necessário referir aqui que antes de mim, passaram no Rio Poetry Slam dois outros angolanos, nomeadamente a Elizangela Rita, que foi pioneira «a descobridora do Brasil», uma mulher que depois de participar do mesmo evento, no ano seguinte criou o concurso Luanda Slam, que por sua vez apurou o artista António Paciência para participar no mesmo evento em 2016. A mulher angolana, apesar da barreira imposta pelo machismo que impede a livre circulação pelo facto de se ser mulher, tendo em conta as horas que terminam certos eventos, está a impor-se no mundo literário. Agora, existe um número maior de mulheres a participar ou a dar o seu contributo ao nível de poesia, o que é positivo.

F8 – Face à conquista do terceiro prémio da copa do mundo de poesia falada da FLUP, que mensagem tem para a juventude Angolana?

BN – Os mais velhos têm algo a dizer mas não são donos da verdade. A felicidade é o caminho. O mais importante não é vencer, é tentar e ainda que nos deparemos com uma perda, é importante insistir até que as nossas forças se acabem. Nunca devemos desistir dos nossos sonhos ou objectivos enquanto tivermos forças para continuar. Ler é fundamental. A leitura abre-nos portas para o mundo e através da arte conseguimos descobrir que somos capazes de fazer muito mais. O que nós, angolanos, precisamos perceber é que juntos somos mais fortes. Esta classificação na FLUP só foi possível porque tive apoio dos meus familiares e amigos, que se dedicaram até ao último minuto para uma estadia tranquila emocionalmente.

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