A ministra do Interior Theresa May substitui hoje David Cameron na chefia do governo britânico, após ter emergido como a candidata consensual para ultrapassar a guerra interna no Partido Conservador na sequência da campanha do ‘Brexit’ (saída da União Europeia).

David Cameron presidiu na terça-feira a uma “emotiva” última reunião do seu governo e apresenta hoje a demissão à rainha Isabel II, para ceder o cargo à nova líder dos conservadores britânicos.

Apesar de eurocéptica, no início de 2016 e para surpresa geral Theresa May decidiu permanecer fiel a David Cameron e defender a permanência na UE. Os resultados do referendo de 23 de Junho, com 52% dos eleitores do Reino Unido a optarem pela saída do clube europeu, desencadearam uma crise política com a demissão do primeiro-ministro anunciada na manhã do dia seguinte.

David Cameron preside hoje à última sessão de perguntas ao primeiro-ministro na Câmara dos Comuns (Parlamento), antes de se deslocar ao palácio de Buckingham para apresentar a demissão à rainha Isabel II.

De seguida, Theresa May deverá receber da soberana a autorização para formar governo, podendo começar assumir as plenas funções logo de seguida, quando se dirigir para o número 10 de Downing Street, residência oficial do chefe do Executivo.

Theresa May terá a difícil tarefa de unificar o seu partido, possivelmente distribuindo importantes ministérios aos deputados que apoiaram o ‘Brexit’ e também aos que optaram pela “permanência” na UE.

Theresa May, de 59 anos, demonstrou uma política de grande firmeza no Ministério do Interior, quer face à delinquência, os imigrantes clandestinos ou aos imãs islamitas, posições que decerto lhe valeram o epíteto de “nova Margaret Thatcher”.

Filha de um padre anglicano, iniciou a sua carreira política em 1986, após estudos de geografia em Oxford e uma breve passagem pelo Banco de Inglaterra. Foi neste período que foi eleita conselheira do rico distrito londrino de Merton.

Após dois fracassos nas legislativas, foi eleita em 1997 deputada conservadora na próspera circunscrição de Maidenhead em Berkshire (sul de Inglaterra).

Em 2002 foi a primeira mulher a tornar-se secretária-geral de um partido conservador e desencadeia críticas a um partido com uma nítida evolução à direita, que originam diversas inimizades internas.

Entre 1999 e 2010 ocupa diversos cargos no gabinete-sombra dos conservadores, então na oposição. Nesse período, é responsabilizada pelo Ambiente, Família, Cultura, direitos das Mulheres e Trabalho. Em 2005 está ao lado de David Cameron na sua conquista do partido.

Após este ser eleito chefe de governo em 2010, foi recompensada ao ser-lhe atribuída o cargo de ministra do Interior, cargo que vai manter após a reeleição do primeiro-ministro em 2015.

O Daily Telegraph, que a designa como a mulher política mais poderosa do país, considera que “chegou ao topo devido a uma feroz determinação”.

Casada desde 1980 com o banqueiro John May, não tem filhos e é uma conhecida adepta da corrida, e da cozinha.

… e por falar em Thatcher

Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à então Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

O argumento, repare-se, era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”, segundo arquivos oficiais britânicos desclassificados no dia 30 de Dezembro de 2009.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.

Folha 8 com Lusa

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