Angola deverá receber hoje mais 2,3 milhões de doses da vacina contra a febre-amarela, epidemia que já matou – segundo os pouco confiáveis números oficiais – 347 pessoas no país desde 5 de Dezembro, entre 3.294 casos suspeitos.

A gestão das reservas mundiais de vacinas contra a febre-amarela, cólera e meningite, para situações de emergência, é assegurada pelo International Coordinating Group (ICG), criado por organizações internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a UNICEF, em 1997.

Fonte da delegação de Luanda da OMS explicou hoje que o ICG atribuiu a Angola 2,3 milhões de doses adicionais da vacina, esperadas até esta sexta-feira.

“Quando chegarem, Angola terá recebido 14 milhões de doses da vacina”, apontou a mesma fonte daquele organismo das Nações Unidas.

No dia 19 de Junho que a OMS assumiu que a resposta à epidemia de febre-amarela em Angola, que se propaga desde Dezembro, levou pela primeira vez à ruptura das reservas mundiais de emergência da vacina.

A informação consta de um recente relatório da OMS sobre a propagação da epidemia de febre-amarela de Angola, a outros países africanos, como a República Democrática do Congo.

“A resposta ao surto de Angola esgotou as reservas globais de seis milhões de doses de vacina contra a febre-amarela, duas vezes este ano. Isso nunca aconteceu antes. No passado, o ICG nunca usou mais de quatro milhões de doses para controlar um surto num país”, admitiu então a OMS.

A epidemia já matou em Angola – continuamos com os números oficiais – 347 pessoas, até 20 de Junho, dos quais 115 casos foram confirmados laboratorialmente.

Além disso, todas as províncias “têm casos confirmados laboratorialmente” e em 11 ocorre já “transmissão local” da doença.

“As campanhas de vacinação em larga escala que começaram em Fevereiro atingiram quase 11 milhões de pessoas, de uma população alvo de 13.484.215”, explica a OMS, em Luanda, que admite vir a incrementar o apoio a Angola.

“A OMS continuará a trabalhar com parceiros para ampliar os recursos humanos, logísticos, financeiros e outros necessários para que as equipas de resposta estejam presentes em todas as províncias de Angola onde casos foram relatados ou onde há alto risco. A OMS também prosseguirá os seus esforços de mobilização de recursos à medida que mais recursos são necessários para enfrentar os desafios operacionais em Angola”, referiu a instituição.

As campanhas de vacinação em Angola recorrem ao apoio dos militares e contam com ajuda financeira e técnica da OMS e da comunidade internacional, para a aquisição de vacinas, tendo arrancado em Luanda, foco da epidemia, nos primeiros dias de Fevereiro.

O ministro da Saúde de Angola, Luís Gomes Sambo, anunciou a 23 de Maio, em Genebra, querer vacinar cerca de 24 milhões de pessoas, ou seja “toda a população-alvo” da actual epidemia de febre-amarela, mas admitiu que não havia no mercado vacinas suficientes.

A transmissão da doença é feita pela picada do mosquito (infetado) “aedes aegypti”, que segundo a OMS, no início desta epidemia, estava presente, em algumas zonas de Viana, Luanda, em 100% das casas.

Trata-se do mesmo mosquito responsável pela transmissão da malária, a principal causa de morte em Angola, e que se reproduz em águas paradas e na concentração de lixo, dois problemas (época das chuvas e falta de limpeza de resíduos) que afectaram a capital angolana desde Agosto passado.

E, a propósito de lixo, recorde-se que uma verba de mais de 34 milhões de kwanzas destinada ao combate à febre-amarela no município de Cabinda foi recentemente desviada pelo administrador local, alegadamente para pagamento de dívidas referentes à recolha de lixo.

O Ministério da Saúde transferiu os fundos em Maio passado, como parte dos seus esforços de contenção da propagação da febre-amarela em Cabinda. Segundo fonte do governo provincial de Cabinda, uma das primeiras medidas de Arnaldo Tomás Puaty, nomeado administrador municipal a 6 de Maio passado, foi o desvio integral da verba para outros fins.

Em sua defesa, o administrador alega desconhecimento acerca do destino do montante atribuído à administração municipal. E portanto afirmou ter usado o dinheiro para pagar o serviço dos camiões privados que fazem a recolha do lixo no município-sede da província da Cabinda.

Desde quando é que o Ministério da Saúde atribui verbas para recolha de lixo? Bom. Isso pouco interessa.

Até à semana passada, Cabinda identificou 52 casos suspeitos de febre-amarela e registou oito óbitos recentes, causados pelo surto e confirmados através das amostras enviadas para um laboratório da OMS em Dakar, capital do Senegal. Por falta de capacidade laboratorial em Angola, as amostras estão a ser enviadas ao exterior.

O administrador Arnaldo Tomás Puaty desempenhou anteriormente funções de assessor da governadora provincial de Cabinda, Aldina da Lomba Catembo.

Folha 8 com Lusa

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